Death Metal, Zé do Caixão e uma noite de terror em São Paulo em 1994

Uma noite fria de 1994 em São Paulo era o cenário perfeito para uma sessão de horror regada a vinis de death metal, a trilha sonora de Zé do Caixão na TV e conversas sinistras sobre serial killers.

A garoa que grudava na pele

Era uma noite fria e úmida de 1994 ou 1993 em São Paulo, aquele tipo de garoa fina que não molha rápido, mas entra nos ossos. Eu tinha uns 16 anos, e estava com o Banana e o Marco Antonio, nosso anfitrião. Nos encolhemos na sala da casa dele, sentados em cadeiras de cosinha em volta de uma mesa com uma pizza de calabresa recém-chegada. O cheiro de orégano se misturava ao aroma doce e artificial do kissuco da “foquinha” laranja, servido em copos de requeijão.

Na estante, um som antigo com vitrola, ao lado de um videocassete Sony. Marco, com um sorriso quase maligno, colocou na TV uma fita VHS de Zé do Caixão – À Meia-Noite Levarei Sua Alma, garimpada na Galeria do Rock. A fita rodava no fundo, com os discursos macabros do Zé, enquanto a verdadeira sessão de horror acontecia na nossa frente: uma pilha de vinis emprestados do primo misterioso do Marco. Eram todos de Metal Extremo

Goatlord – Reflections of the Solstice (Vinil Branco) e a dança das galinhas condenadas. Atrocidade de Gene Simmons

Marco Antonio começou pelo Goatlord, “Reflections of the Solstice”, um vinil branco que parecia brilhar sob a luz fraca da sala. A capa mostrava um bárbaro no estilo vilão dos gibis do Conan, usando um capacete com crânio de bode, e, ao fundo, um castelo tenebroso com uma carroagem puxada por cavalos chifrudos voadores — metade gibi, metade pesadelo, e totalmente sinistro. O som era black/doom metal arrastado, com riffs que pareciam ecos de uma caverna. Até que veio a faixa “Chicken Dance”.

De repente, no meio do caos, um som de galinhas desesperadas, cacarejando em pânico. A gente se olhou e caiu na risada. O Banana, rindo, puxou uma lenda urbana dos anos 80:
— Mano, lembra que diziam que o Gene Simmons do Kiss soltou dezenas de pintinhos num show e saiu pisoteando com aquelas botas de plataforma?

A lenda provavelmente era mentira, mas naquele momento, o som de aves agoniadas misturado ao peso do Goatlord parecia a trilha sonora perfeita para essa história sórdida.

Goatlord – Reflections of the Solstice

Macabre – Sinister Slaughter e o desfile dos serial killers

Depois veio Sinister Slaughter, do Macabre. A capa era uma paródia sombria do Sgt. Pepper’s dos Beatles: no lugar de celebridades, uma multidão de serial killers desenhados — Jeffrey Dahmer, Ted Bundy, Mary Bell, entre outros.

— Olha o Dahmer ali, com aquela cara de quem guardava gente no freezer! (E comia) — disse Marco. A gente conhecia ele de um filme trash da TV Bandeirantes (Band) que passava nas madrugadas. Horripilante.

O grindcore do Macabre era rápido, violento e todo quebrado. A velocidade e os riffs mostravam que a banda era formada por excelentes músicos, tecnicamente falando.

As letras narravam crimes reais, quase como se fossem um documentário mórbido com humor negro. O papo deslizou para crimes brasileiros. Marco Antonio lembrou do Maníaco do Parque, que ainda estampava as manchetes do Notícias Populares, tabloide sensacionalista que a gente costumava dizer que “saía sangue ao espremer”, e alguém comentou:

— Imagina esse cara estar solto por aí, fazendo da realidade algo pior que filme de horror. (Foi pego em 1998 e segue preso até hoje, em 2025).

Macabre – Sinister Slaughter

Nuclear Death – Carrion for Worm e o apocalipse segundo Lori Bravo

O Carrion for Worm do Nuclear Death veio com uma capa que faria o Zé do Caixão sorrir: corpos em decomposição, membros retorcidos e uma estética de podridão total. Eu fiquei pasmo quando o Marco falou que era uma mulher cantando aquele gutural. A voz da vocalista Lori Bravo soava como um apocalipse zumbi em estéreo.
— Essa mina aqui, canta mais pesado que todos nós juntos — disse Marco.

O som lembrava uma tempestade de areia radioativa. O Banana completou:
— Mano, pensa em um som podre? Aqui no encarte tem as letras e tem uma música falando alguma coisa sobre uma vagina com dentes…. (ficamos horrorizados e super pensativos).

A música era sombria, distorcida e obscura.
As letras eram um mergulho no esgoto humano — assassinato, desvio sexual, incesto, bestialidade e necrofilia, tudo celebrado com um carinho e um detalhe que davam mais nojo do que medo.
Naquela época, enquanto bandas extremas se ocupavam em reclamar do governo ou levantar o punho pro Satanás, o Nuclear Death tava dizendo: “Esquece o diabo, o verdadeiro horror é humano”.

Nuclear Death – Carrion for Worm

Autopsy – Severed Survival, Mental Funeral e Acts of the Unspeakable. Death Metal misturado com Doom.

Chegou a vez do Autopsy. Severed Survival trazia aquela capa sinistra, mostrando uma cirurgia — ou autópsia — feita por monstros mascarados, sob a perspectiva de quem está na mesa.

Mental Funeral era mais lento, um doom pesadíssimo, com faixas como “In the Grip of Winter, que casavam perfeitamente com a garoa da noite.

Mas o mais perturbador era Acts of the Unspeakable. A capa era uma pintura surreal e grotesca: dezenas de figuras humanoides nuas, submetidas a todo tipo de tortura, sadismo e perversão. Era algo que fazia Hellraiser parecer desenho da Turma da Mônica.
— Isso aqui não é só metal, é um pesadelo pintado — disse o Banana, virando a capa do disco nas mãos.

Enquanto isso, na TV, Zé do Caixão falava: “O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida.” O arrepio era inevitável. Mas a gente também ria do Zé do Caixão e dos bordões que ele soltava na fita.


O medo real: João Acácio Bandido da Luz Vermelha

Entre um disco e outro, a gente lembrou de uma notícia quente que circulava: parecia que João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha, podia ser solto. Tínhamos visto, sei lá, no programa do Alborghetti — ou talvez no do Ratinho, na CNT — uma entrevista com ele. O cara falava um monte de coisa sem sentido, com o olhar perdido, como se já não estivesse mais no mesmo mundo que a gente.

— Se esse louco voltar a matar, vai ser um filme de terror de verdade — soltou o Bananinha.

O comentário congelou o ar na sala.

Aí veio na cabeça aquele filme preto e branco que passava de madrugada na TV. Aqueles planos arrastados, as sombras parecendo respirar nas paredes, um clima surreal, sufocante. Era como se a noite fosse feita só pra essas coisas que o dia nem quer saber que existem.

Impetigo – Ultimo Mondo Cannibale

Ultimo Mondo Cannibale, do Impetigo, era outro podrão: a capa mostrava um desenho de canibais, no estilo daqueles filmes de terror italianos (segundo o Marco, feito pelo próprio vocalista), e uma vítima amarrada entre as árvores, em frente a uma pilha de corpos e esqueletos.

A primeira música, “Maggots”, já abria com barulhos de vermes mastigando carne podre, tirados de um filme do Cine Trash, e a gente pirava.

— Mano, isso é tipo O Massacre da Serra Elétrica gravado numa garagem! — eu soltei, enquanto a galera ria e aumentava o volume.

Impetigo – Ultimo Mondo Cannibale

Carcass – Reek of Putrefaction: a anatomia do horror

A capa, era a coisa mais doente que já tínhamos visto: uma colagem nojenta de fotos de órgãos humanos podres, pedaços de carne em decomposição e cadáveres abertos, tiradas de algum livro de medicina que parecia ter sido roubado de um necrotério. Era tão grotesca que a gente ficava hipnotizado, passando o encarte de mão em mão enquanto o som rolava na vitrola.

— Isso é um livro de medicina do inferno! — o Banana gritou, afastando o copo de kissuco com nojo, como se a capa fosse contaminar a bebida.

O som do Carcass era puro caos, um goregrind que soava como uma autópsia feita a marretadas por um médico bêbado. Lançado em 1988, o disco era cru, com riffs que pareciam serras enferrujadas e vocais guturais berrando como se estivessem possuídos.

A faixa “Regurgitation of Giblets” já abria com um barulho que lembrava um bisturi rasgando carne podre, e a gente ficava imaginando um filme de terror tosco rodado num matadouro abandonado. Hoje o carcass é tecnico, pesado e limpo. Esse disco era mal gravado de propósito o que dava um caracter ainda mais podre para aquelas faixas.

Carcass – Reek of Putrefaction:

Napalm Death – Scum e a explosão de segundos

O disco, vinha com músicas que duravam tipo 30 segundos, um soco atrás do outro, como se alguém tivesse pego toda a raiva do mundo e jogado num liquidificador. A capa era um desenho tosco, com caveiras e um clima de bagaceira, tipo um cartaz de filme B que prometia te ferrar a cabeça.

A gente ficava passando o encarte entre a galera, com os olhos arregalados, sentindo que tava mexendo com algo proibido.
— Mano, isso é tipo ouvir o fim do mundo antes dele acontecer! — o Banana soltou, com aquele olhar de quem tá zoando, mas meio que acreditando no que disse.

A galera caiu na gargalhada, com o kissuco quase derramando, mas o som era tão insano que um arrepio batia. Era como se a gente tivesse aberto a porta de um porão escuro, cheio de barulhos que pareciam serras, gritos de doido e um caos que fazia o coração disparar. Isso era desbravar um mundo novo, onde tudo era mais rápido, mais bruto, mais vivo. A gente se sentia gigante, mas ao mesmo tempo com aquele incômodo na nuca, como se o Scum fosse um bicho que podia te engolir. Sobre o Scum do Nalm Death

Napalm Death – Scum

A noite que era um filme em 1994

A fita do Zé do Caixão seguia rodando, a garoa caía fina lá fora, a pizza já tinha ido embora, e os copos de requeijão estavam tingidos de laranja pelo kissuco. Discos, crimes, lendas urbanas e o medo real de viver em São Paulo no fim dos anos 90 — tudo se misturou.

Vídeo preview

Quando saí caminhando naquela madrugada quase de manhã, com a capa do Acts of the Unspeakable gravado na retina e o Scum martelando nos ouvidos, pensei:

Cara, isso é São Paulo em 1994.
E era mesmo.

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