Música experimental brasileira primeiro, lero-lero depois. Antes de mais nada, já deixo minhas desculpas a quem acha essa introdução longa demais. Eu sei, vivemos na era do scroll nervoso, onde ninguém aguenta ler três linhas sem coçar o dedo. Então, se você é desses apressadinhos em versão fast-food de cultura, pode pular direto pra lista lá embaixo com os 10 discos fundamentais.
Se você já reservou alguns minutos do seu precioso tempo para ler os artigos aqui do Véi do Blogue, provavelmente já percebeu que sou uma pessoa bem eclética quando se trata de música e cinema. Meu gosto é livre de preconceitos e totalmente honesto: não consigo ficar preso a um único estilo. Para usar — à minha maneira — uma frase imortalizada por Raulzito, gosto de dizer que “prefiro ser essa metamorfose ambulante”.
Sempre foi assim. O primeiro LP que comprei com meu próprio dinheiro foi Innocents, do Erasure — synthpop puro, sucesso absoluto na época, especialmente nas rádios populares como a Transamérica (que não parava de tocar o hit A Little Respect). Logo depois, levei pra casa o Killers, do Iron Maiden. Comprei pela capa, sem nem saber que quem cantava ali era Paul Di’Anno e não Bruce Dickinson.
Na sequência ou ou pouco depois disso, vieram Arise, do Sepultura, e Slowly We Rot, do Obituary — mergulho no thrash e no death metal. Mas, para quem acha que a virada seria definitiva, lamento decepcionar: logo depois comprei Like a Prayer, da Madonna. Alguns amigos me criticavam como se eu tivesse que escolher entre o Bozo e o Molusco.
E é assim até hoje: em vez de me restringir, prefiro aproveitar o melhor de cada estilo. Foi nessa abertura musical que, por volta dos 15 anos, um amigo muito sagaz me apresentou um universo que me acompanha até hoje: a música experimental. Artistas como Frank Zappa, Walter Franco, The Residents e Itamar Assumpção abriram novos horizontes sonoros. E por quê? Porque quando você já está saturado do “mais do mesmo” do popular, esses discos se tornam um verdadeiro oásis criativo — cheios de texturas, letras e ousadia que acabaram servindo de vanguarda para outros estilos mais simples.
É justamente a partir dessas experiências pessoais que resolvi criar este artigo — o primeiro em formato de lista aqui no blog. Hoje vou compartilhar 10 Discos Fundamentais da Música Experimental Brasileira, que na minha opinião representam marcos indispensáveis para quem quer explorar esse universo único e provocador.
Gil & Jorge: Ogum, Xangô – Gilberto Gil e Jorge Ben Jor (1975)

Gravado em apenas três dias no Rio de Janeiro, o álbum é praticamente todo improvisado. As faixas são longas, cruas e sem roteiro pré-definido, resultando em um registro de liberdade musical raríssimo. Em Jurubeba, por exemplo, um sertanejo-funk-psicodélico de mais de 11 minutos, fica evidente a química entre Gil e Jorge. O disco, ignorado pelo mercado na época, virou peça de culto por antecipar fusões de samba, groove e Tropicália em um clima de transe coletivo.
O álbum foi gravado em um estúdio improvisado no Rio de Janeiro, com Gil e Jorge aproveitando a ausência de seus respectivos músicos para criar sem restrições.
Ou Não – Walter Franco (1973)

Um dos pilares da música experimental brasileira, o álbum traz poesia concreta, minimalismo e experimentações atonais. A faixa Cabeça chegou a participar do Festival da Globo em 1972, mas foi vaiada pelo público, que não entendeu sua proposta radical. Hoje, é vista como um marco da de Música Experimental Brasileira. Ou Não dialoga com John Cage e a arte conceitual, explorando silêncio, ruídos e repetições de forma inédita na MPB.
Walter Franco utilizou técnicas de gravação inovadoras para a época, como sobreposição de fitas e manipulação de sons, criando texturas sonoras que desafiavam as convenções musicais.
Araçá Azul – Caetano Veloso (1972)

Talvez o disco mais controverso da carreira de Caetano. Feito após o exílio em Londres, ele radicalizou na forma: colagens sonoras, experimentos de estúdio e fragmentos vocais que desafiavam qualquer noção de música popular. O público da época não perdoou: Araçá Azul foi o LP menos vendido da história da Philips. Mas, com o tempo, virou referência obrigatória da música experimental brasileira, comparado a obras de vanguarda como as do próprio Frank Zappa.
O álbum foi gravado com equipamentos improvisados e técnicas de gravação não convencionais, refletindo o espírito experimental de Caetano no período pós-exílio
Loki? – Arnaldo Baptista (1974)

Primeiro trabalho solo do ex-Mutante, gravado em meio a crises pessoais e emocionais, Loki? é visceral e confessional. O disco mistura rock psicodélico, baladas desconcertantes e arranjos instáveis. Faixas como Será que eu vou virar bolor? e Cê Tá Pensando que Eu Sou Loki? revelam um artista despido e vulnerável, sem medo de soar “fora de eixo”. Hoje, é cultuado como um dos álbuns mais importantes do rock brasileiro e da de Música Experimental Brasileira.
Durante a gravação do álbum, Arnaldo enfrentava problemas de saúde mental, o que influenciou diretamente a sonoridade crua e emocional do disco.
Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 – Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada (1971)

Um delírio coletivo de música e teatro. Gravado em clima de carnaval anárquico, o disco mistura rock, samba, marchinha e psicodelia com letras debochadas e provocativas. Foi um fracasso comercial, mas virou peça de colecionador e símbolo da contracultura nacional. A energia caótica de Eu Vou Botar Pra Ferver e Dr. Paxeco traduz a ousadia do quarteto, que foi além dos limites da indústria da época.
O disco foi gravado secretamente, sem o conhecimento da gravadora CBS, que só soube do lançamento após o álbum estar pronto.
Estudando o Samba – Tom Zé (1976)

Mais do que desconstruir o samba, Tom Zé fez aqui um estudo conceitual sobre suas formas e estruturas. Lançado pela Continental, o disco passou despercebido no Brasil, mas anos depois encantou David Byrne, que ajudou a relançar sua obra no exterior. Em faixas como Toc, Tom transforma objetos banais em instrumentos, provando sua capacidade de rir e inovar dentro da tradição. Hoje, é considerado um dos álbuns mais inteligentes da música experimental brasileira.
O álbum foi gravado com recursos limitados e técnicas de gravação alternativas, refletindo a abordagem experimental de Tom Zé.
Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol – Lula Côrtes e Zé Ramalho (1975)

Uma obra mística, inspirada em lendas sobre a Serra da Borborema, na Paraíba. O disco duplo mistura psicodelia, ritmos nordestinos, viola caipira, flautas e improvisos que soam como um ritual. A primeira tiragem foi quase toda perdida numa enchente na fábrica da gravadora Rozenblit, o que ajudou a transformá-lo em item raríssimo. Hoje, é visto como um dos maiores tesouros do rock psicodélico mundial
Curiosidade: A primeira tiragem do álbum foi de apenas 1.300 cópias, e cerca de 1.000 foram perdidas em uma enchente no Rio Capibaribe em 1975.
Clara Crocodilo – Arrigo Barnabé (1980)

Um marco da vanguarda paulista, Clara Crocodilo junta música erudita contemporânea (serialismo, atonalismo) com jazz, rock e teatro. Arrigo cria um universo distópico, cantando sobre personagens marginais em São Paulo. A faixa Orgasmo Total é um exemplo de caos calculado, com orquestrações complexas e explosões de improviso. O álbum ganhou notoriedade internacional e influenciou toda a geração da Lira Paulistana.
O álbum foi lançado de forma independente, sem o apoio de grandes gravadoras, o que refletia a cena alternativa e independente da época
Beleléu Leléu Eu – Itamar Assumpção (1980)

Disco de estreia de Itamar, lançado de forma independente, que marcou o surgimento de um dos nomes mais originais da música brasileira.Zé Pelintra traz uma fusão crua de samba, punk e crítica social, enquanto outras faixas expõem sua ironia cortante. Produzido dentro do circuito alternativo da Lira Paulistana, tornou-se referência para gerações de artistas independentes.
O álbum foi lançado pelo selo independente Lira Paulistana, que também lançou outros artistas da cena alternativa paulistana e da de Música Experimental Brasileira.
Jards Macalé – Jards Macalé (1972)

Chamado de “terror da MPB” por não se encaixar em nenhum rótulo, Macalé gravou este álbum antológico com arranjos de Lanny Gordin. Misturando samba, bossa, rock e jazz, ele traz clássicos como Vapor Barato e Mal Secreto. O disco expõe a postura rebelde do artista, que não hesitava em confrontar a ditadura militar com canções como Farinha do Desprezo. Um documento visceral da música experimental e pós-tropicalista.
O álbum foi lançado pela gravadora Philips, que na época era conhecida por seu foco em música popular, mas aceitou o trabalho de Jards Macalé devido à sua originalidade e talento.
O Melhor Está por Vir: Mais Tesouros da Música Experimental
E assim chegamos ao fim da nossa primeira lista de discos fundamentais da música experimental brasileira. Mas calma: não pense que acabamos por aqui! Ainda tem muita coisa incrível para explorar. Em breve, vamos preparar uma segunda lista com outros discos icônicos — aqueles com capas que a gente não esquece, tipo o do Tênis do Lô Borges, algumas pérolas do Jupiter Maçã e Rogério Duprá, e, claro, uma terceira lista dedicada aos artistas internacionais que também quebraram tudo com experimentações sonoras de outro nível.
Então, se você achou essa primeira viagem intensa, prepare-se: a próxima vai ser ainda mais insana. Fique ligado, ajuste os fones e venha descobrir o que mais a música experimental tem de surpreendente a oferecer!
Para se aprofundar:
- Gilberto Gil e Jorge Ben Jor – Jurubeba (Completa)
- Análise do álbum ‘Araçá Azul’ no AllMusic
- Documentário ‘Loki’ sobre a vida de Arnaldo Baptista
- Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – Sessão das 10 (Álbum Completo)
- Entrevista com Tom Zé sobre seu processo criativo
- Detalhes sobre a rara prensagem original de ‘Paêbirú’ no Discogs
- Jards Macalé – Vapor Barato (Versão Original do Álbum)