Cartoons de Terror no Cinema: De 1920 a 1940

Os Cartoons de terror foram o lado “sombrio” da animação de 1920 a 1940. Descubra os esqueletos da Disney e os pesadelos surreais dos Fleischer Studios neste artigo.

Imagine entrar num cinema em 1930. O cheiro de pipoca e drops de hortelã, o murmúrio da plateia, a tela enorme esperando a projeção. O filme principal ainda não começou, mas a luz apaga e… surge um esqueleto tocando xilofone na própria costela. O público ri, mas não é aquela risada leve — é um riso com um pé no desconforto.

Entre as décadas de 1920 e 1940, antes que algum gênio da publicidade decidisse que “desenho é coisa de criança”, a animação era terra de ninguém. Era território livre. Onde o desenho podia ser engraçado, melancólico, político ou, sim, assustador pra caramba.

Esses curtas eram exibidos para todo mundo, sem filtro etário, junto de cinejornais e trailers. Quem pagava o ingresso estava lá pra ver o que viesse — e isso incluía fantasmas, infernos animados e seitas misteriosas que pareciam saídas de um culto brega.

O resultado? Um período fértil pra cacete, onde os animadores experimentavam com forma e conteúdo, e onde o terror e o grotesco tinham tanto espaço quanto a comédia.


🎬 1920 — O terror aprende a dançar e o público aprende a se assustar com caveiras

Cartoons de Terror


Os anos 20 foram o berço do terror animado. A década começa com o cinema mudo ainda reinando e termina com o som sincronizado revolucionando tudo. Esse salto tecnológico foi decisivo: quando o som chegou, a música e o ritmo viraram parte da narrativa, e o terror ganhou uma nova arma para criar tensão.

O medo com timing musical no desenho do Mickey

Um dos primeiros marcos foi The Haunted House (1929), de Walt Disney. Em preto e branco, com traço simples, mostra o Mickey preso numa mansão cheia de esqueletos que dançam e tocam instrumentos improvisados. O humor físico é forte, mas tem uns momentos de sombra e suspense que lembram filmes de terror da época, tipo O Fantasma da Ópera (1925).

The Haunted House (1929)


Mas o grande clássico é The Skeleton Dance (1929), primeiro da série Silly Symphonies. Aqui, caveiras saem de túmulos e dançam em perfeita sincronia com a música de Carl Stalling. Aquilo não era só trilha de fundo — cada passo, cada balanço de osso estava cravado no compasso. Para o público da época, ainda se acostumando com o cinema sonoro, aquilo era quase mágico.

The Skeleton Dance (1929)


Bruxas, gatos e surrealismo mudo

Antes disso, o Felix the Cat já explorava o estranho em Switches Witches (1927), colocando o famoso gato em encontros com bruxas e criaturas deformadas. O estilo mudo forçava a galera a exagerar nas expressões, o que aumentava a estranheza.

E vale lembrar das experiências híbridas, como Haunted Spooks (1920, Hal Roach Studios), que misturava live-action e efeitos visuais para criar fantasmas translúcidos. Técnicas emprestadas do terror de verdade, com gente de verdade, começavam a entrar no mundo do desenho.


🎬 1930 — Bem-vindo ao grotesco surreal, com um toque de jazz e esquizofrenia

Se os anos 20 ensaiaram o terror, os 30 meteram o pé na porta. O cinema sonoro já estava dominado, e os animadores começaram a brincar com distorção, perspectiva impossível e um humor que beirava o pesadelo.

Fleischer Studios: terror com swing

Max e Dave Fleischer eram mestres em criar mundos onde nada ficava parado. Em Swing You Sinners! (1930), um ladrãozinho fugia por um cemitério, mas acabava cercado por lápides falantes, nuvens com rosto e paredes que se deformavam. O cenário era vivo, ameaçador. O jazz sincopado aumentava a sensação de caos, e a animação usava ângulos que lembravam o expressionismo alemão, aquele do cinema com luzes e sombras doidos.

Bimbo’s Initiation (1931) leva isso a outro nível: um personagem é capturado por uma sociedade secreta e levado por túneis que se fecham, máquinas que esmagam e portas que desaparecem. A repetição quase hipnótica do “Quer se juntar a nós?” criava um desconforto real, tipo quando a gente é convidado pra uma reunião de família do namorado.

Bimbo’s Initiation (1931)


Betty Boop e o cabaré fantasmagórico

A parceria com Cab Calloway gerou alguns dos momentos mais estranhos da animação. Em Minnie the Moocher (1932), o músico é rotoscopado dançando, e seu movimento é transferido para um fantasma com corpo elástico. Betty Boop o segue por um túnel de imagens delirantes: esqueletos, focas que cantam, fantasmas que se alongam. Parece um clipe do Pink Floyd, só que 40 anos antes.

Minnie the Moocher (1932)


Em Snow White (1933), Cab é transformado num fantasma que canta “St. James Infirmary Blues” enquanto Betty é perseguida por monstros. A metamorfose da vilã é um show de fluidez técnica — carne virando caveira, caveira virando sombra, sombra virando fumaça.

Mickey também flertou com o horror

Mesmo a Disney, conhecida pelo polimento visual, se aventurou no grotesco. The Mad Doctor (1933) coloca Mickey tentando salvar Pluto de um cientista maluco que planeja transplantar sua cabeça. O cenário é cheio de escadas impossíveis, sombras recortadas e maquinário ameaçador, quase um Frankenstein animado, mas com o ratinho.

The Mad Doctor (1933)

🎬 1940 — Suspense, guerra e infernos animados

Os anos 40 mudaram o tom. Com a Segunda Guerra em andamento, até os desenhos ficaram mais sombrios — às vezes no humor, às vezes no conteúdo.

O terror do dia a dia

Donald Duck and the Gorilla (1944) é praticamente um filme de suspense em miniatura. Um gorila escapa do zoológico e invade a casa do Donald. A iluminação é calculada para criar silhuetas ameaçadoras, e os silêncios são usados para aumentar a tensão. Deu pra sentir o desespero do pato só de ler.

Em Pluto’s Judgement Day (1935, mas reprisado nos 40), Pluto sonha estar no inferno, sendo julgado por gatos demoníacos. O cenário em chamas e os rostos distorcidos lembram o trabalho de artistas do expressionismo.

Pluto’s Judgement Day (1935)

Guerra e propaganda

O inferno nazista aparece em Der Fuehrer’s Face (1943): Donald preso num pesadelo fabril, marchando ao ritmo de bandeiras e engrenagens. É engraçado e sufocante ao mesmo tempo.

Mas o mais pesado é Education for Death (1943), que conta a história de um garoto alemão sendo doutrinado pelo nazismo. Sem monstros, mas com uma narrativa visual que transforma propaganda em horror psicológico.


O som que dá vida ao medo

Esses curtas não existiriam sem a música. A técnica do Mickey Mousing, onde cada movimento recebe uma nota correspondente, foi usada tanto para a comédia quanto para o terror. Uma nota grave sublinha um olhar ameaçador; um crescendo acompanha a perseguição; silêncios estratégicos antes do susto.

Nos Fleischer, o jazz dava liberdade rítmica, permitindo que cenário e música se movessem juntos. Na Disney, a orquestra criava camadas sonoras que faziam até um moinho de vento parecer vivo (The Old Mill).


O legado, ou por que a gente precisa de mais medo em desenho

O terror animado dessa era não era “terror infantil”. Era parte de uma cultura cinematográfica que misturava gêneros livremente. Esses curtas não tinham medo de experimentar: metiam humor, grotesco e até crítica social no mesmo pacote.

Eles também provaram que animação pode assustar tanto quanto filme com gente de verdade. Com desenho, era possível fazer paredes respirarem, esqueletos dançarem e fantasmas terem a voz de um cantor de jazz. E, no processo, criaram um patrimônio visual que ainda inspira artistas e cineastas.


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Para aprofundar seu conhecimento sobre os cartoons de terror e animações clássicas citadas no artigo, explore os links abaixo. Eles levam a vídeos e informações de fontes externas.

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