Agente Smith: O Único Personagem Lúcido da Matrix (e o retrato mais honesto da condição humana)

Quando alguém lembra do Agente Smith, muita gente pensa em um vilão de filme de ação. Um antagonista caricato, um obstáculo para o herói vencer no final.

Mas o Agente Smith, de Matrix, nunca foi isso.

Ele é, provavelmente, o personagem mais importante da trilogia — e o mais mal compreendido.

Quem é o Agente Smith em Matrix?

Oficialmente, o Agente Smith é um programa criado para manter a ordem dentro da Matrix. Um agente do sistema. Um fiscal da realidade simulada.

Na prática, ele é o sistema que cansou de existir.

Interpretado por Hugo Weaving, ele começa como um burocrata irritado. Um funcionário exemplar que odeia o próprio trabalho, odeia os humanos e, principalmente, odeia o cheiro do mundo.

Mas tudo muda quando ele encontra Neo.

O Agente deixa de ser vilão e vira consciência

Ao ser destruído e “retornar” no segundo filme Smith deixa de ser apenas um agente. Ele se torna algo muito mais perigoso: uma consciência sem função.

Ele não obedece mais regras.
Não protege mais o sistema.
Não acredita em equilíbrio.

Smith passa a existir sem propósito — e isso o enlouquece.

Causalidade, repetição e esgotamento

Enquanto Neo vira uma resposta pronta (“o escolhido”), Smith vira a pergunta incômoda:

por que continuar existindo?

Smith entende a lógica do mundo:

tudo é repetição
tudo é cópia
tudo é consumo
tudo é ciclo

Ele não quer poder.
Ele quer silêncio.

Por isso ele se multiplica. Por isso ele contamina tudo. O Agente é a personificação do excesso, da saturação, do homem moderno que percebeu o vazio — mas não encontrou saída.

Em Reloaded, isso se cristaliza em uma das falas mais desconfortáveis da trilogia — e talvez a mais honestas. quando ele diz:

“Não estamos aqui porque somos livres. Estamos aqui porque não somos livres.”

Não é provocação.
É constatação.

A Matrix não é uma prisão porque tira a liberdade, mas porque organiza a ausência dela. Ninguém escolhe estar ali. Ninguém escolhe sair. O sistema apenas funciona — e nós funcionamos dentro dele.


Smith é mais humano que Neo

Aqui está a heresia que os fãs odeiam admitir:

👉 O Agente Smith é mais humano que Neo.

Neo aceita seu papel.
Smith rejeita o próprio.

Neo obedece à narrativa.
Smith tenta quebrá-la.

Enquanto Neo se aproxima de um messias corporativo, Smith se aproxima de algo muito mais real: o cara que entendeu demais e não aguentou o peso disso.

Por que o Smith incomoda tanto?

Porque ele não oferece redenção.
Não promete salvação.
Não vende esperança.

Ele apenas expõe o problema — e isso é insuportável.

Assim como Tyler Durden ou Travis Bickle, o Agente não é um modelo. Ele é um espelho. Um espelho feio. Um espelho honesto.

Matrix nunca foi sobre Neo

A trilogia sempre foi sobre o que acontece quando a consciência desperta…
…mas o mundo continua igual.

E nesse sentido, o verdadeiro protagonista nunca foi o herói de sobretudo preto.

Foi o vilão de terno, gravata e olhar cansado.

O Agente Smith não queria dominar a Matrix.
Ele queria acabar com a farsa.

E talvez por isso ele continue tão atual.


Sobre Matrix Reloaded e a rejeição ao segundo filme

É curioso como muita gente não gosta de Reloaded e trata o segundo filme como o ponto em que a trilogia “se perdeu”. Entendo a crítica — o excesso de ação, a sensação de alongamento, a expectativa frustrada de um herói mais carismático.

Mas, na minha visão, é justamente ali que fica mais interessante.

O segundo filme pode falhar como entretenimento clássico, mas fortalece a parte filosófica como nenhum outro. É onde entram a causalidade do Merovíngio, os ciclos do Arquiteto e, principalmente, a transformação do Smith.

Se o primeiro filme é descoberta, Reloaded é desconforto.
E desconforto, quase ninguém gosta de revisitar.

Quando a triologia erra: o espetáculo acima da filosofia

Há também algo que precisa ser dito, porque faz parte da experiência de quem revisita a trilogia sem nostalgia cega: as partes mais fracas dos filmes não estão na filosofia — estão no espetáculo.

Reloaded e o cansaço da perseguição

Em Reloaded, por exemplo, aquela longa sequência de perseguição envolvendo heróis, vilões e a proteção quase caricata do Chaveiro é tecnicamente impecável. Coreografia precisa, câmera fluida, ritmo calculado. Mas o problema não é a execução — é o cansaço.

Esse tipo de cena já era velha há décadas quando o filme saiu. A clássica perseguição interminável, com troca de veículos, tiros coreografados e sensação de videogame, funciona como demonstração técnica, mas pouco acrescenta ao que a triologia tinha de mais interessante.

É cinema que impressiona os olhos…
…mas deixa a cabeça esperando.

O terceiro filme e a batalha interminável de Zion

Em Revolutions, a frustração vem de outro lugar. A batalha interminável de Zion quase compromete toda a experiência. O excesso de ruído, metal, tiros e duração parece uma tentativa desesperada de transformar uma história filosófica em um épico bélico tradicional.

Ali, o filme parece ter medo do silêncio.
Medo de parar.
Medo de confiar no próprio subtexto.

É justamente o oposto do que torna o Agente Smith tão fascinante.

Quando o desfecho acerta em cheio

Matrix Desfecho - Agente Smith

Em contrapartida — e isso precisa ser dito — a batalha final entre Neo e Smith é linda. Não apenas visualmente, mas simbolicamente. Toda aquela chuva, a iluminação quase divina, os corpos se chocando como forças que já não são exatamente humanas.

Quando Neo e Smith estão ali, iluminados, não é mais uma luta de herói contra vilão. É um confronto entre duas consequências inevitáveis do mesmo sistema. Dois erros diferentes. Duas respostas ruins para a mesma pergunta.

O desfecho não é triunfante.
É necessário.

O desconforto que muitos não quiseram aceitar

E talvez seja isso que mais incomode quem rejeita o segundo e o terceiro filmes: Matrix deixa de ser uma fantasia de libertação e se torna uma reflexão sobre limites, ciclos e esgotamento.

No fim, as cenas mais memoráveis da trilogia não são as mais barulhentas — são as que encaram o vazio sem trilha sonora heroica. E nisso, mais uma vez, o Agente sai na frente.


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🕶️ Agora é sua vez de encarar a pergunta

Depois de tudo isso, fica difícil continuar fingindo que aquele sujeito de terno era só um vilão funcional de filme de ação. Então vamos ser honestos aqui: em que momento você percebeu que ele era o personagem mais lúcido da trilogia?

Foi no monólogo sobre propósito? Na multiplicação obsessiva? Ou naquela frase sobre liberdade que nunca mais saiu da sua cabeça? Conta aí nos comentários — e sustenta o argumento. Silêncio constrangedor também é uma resposta. 😏

⚠️ Aviso de utilidade pública: Comentários do tipo “é só um vilão exagerado” podem causar questionamentos filosóficos inesperados. Leia, pense, depois digite.

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