O Autopsy é uma das bandas pilares do Death Metal mundial, sendo fundamental na transição do gênero entre o final dos anos 80 e o início dos 90. Fundada em 1987 por Chris Reifert — ex-baterista da banda Death e colaborador de Chuck Schuldiner no clássico Scream Bloody Gore — a banda definiu a estética do Death/Doom, fundindo a agressividade técnica com ritmos lentos e atmosféricos. Este artigo explora a discografia completa do grupo, desde o impacto visceral de Severed Survival e Mental Funeral até sua influência duradoura no metal extremo contemporâneo, detalhando as capas controversas, as letras de horror gore e a evolução sônica de uma das bandas mais brutais da Califórnia.
A Descida ao Abismo Sonoro
Existem bandas que tocam death metal. E existe o Autopsy — uma entidade sônica que não apenas executou o gênero, mas o dissecou, reanimou e transformou em algo visceralmente perturbador. Formada em 1987 nas brumas pesadas de São Francisco, Califórnia, a banda liderada por Chris Reifert (bateria/vocais) emergiu das cinzas do próprio Death, trazendo consigo uma proposta que mesclava a brutalidade técnica do death metal nascente com a podridão rastejante do doom e a perversão imagética do horror extremo.
As Origens: Do Death ao Autopsy
Antes de fundar o Autopsy, Chris Reifert já havia deixado sua marca na história do death metal como baterista do Death no lendário álbum “Scream Bloody Gore” (1987). Mas Reifert tinha visões próprias, mais sombrias, mais lentas, mais doentias. Ao retornar para São Francisco, juntou-se a Eric Cutler (guitarra), Danny Coralles (guitarra) e Eric Eigard (baixo, posteriormente substituído por Steve Cutler) para criar algo genuinamente perturbador.
O conceito era simples e brutal: death metal tocado por pessoas obcecadas por filmes de horror classe B, medicina forense, ocultismo e a decadência humana em suas formas mais repugnantes.
Severed Survival (1989): O Nascimento do Pesadelo

A Capa: Sob a Mesa Cirúrgica
A capa de “Severed Survival” coloca você na perspectiva da vítima. Deitado na mesa de operação, você vê de baixo para cima: cirurgiões monstruosos, deformados, criaturas grotescas vestidas com aventais ensanguentados e instrumentos cirúrgicos nas mãos. Não são médicos — são carniceiros. A luz clínica sobre você, fria e impiedosa, enquanto essas aberrações se preparam para a dissecação. É uma visão em primeira pessoa do horror médico, da vulnerabilidade absoluta diante de algo que deveria curar mas só quer mutilar. Segurar este LP nas mãos era um ato de transgressão.
Detalhe Técnico Importante
Vale mencionar que o baixo em “Severed Survival” foi gravado por ninguém menos que Steve DiGiorgio — o virtuoso que tocaria com Death, Testament, Sadus e dezenas de outras bandas lendárias. Mesmo num álbum propositalmente “sujo”, a presença técnica de DiGiorgio adiciona uma camada de profundidade que poucos percebem na primeira audição, mas que sustenta toda a podridão sonora.
As Faixas Essenciais de Severed Survival
- “Charred Remains”: Abre o álbum com riffs que soam como uma procissão fúnebre em câmera lenta. O vocal de Reifert parece vir de dentro de uma tumba.
- “Disembowel”: Onde as lâminas de Cutler e Coralles realmente começam a trabalhar. É o equilíbrio perfeito entre o gore e o groove.
- “Gasping for Air”: A definição da estética da banda: velocidade brutal interrompida por um Doom sufocante. A mudança de andamento não é apenas técnica — é narrativa, contando histórias de agonia prolongada.
- “Severed Survival” (faixa-título): Consolida a fórmula: death metal com peso de doom, letras explicitamente gore e uma produção suficientemente suja para soar ameaçadora.
- “Critical Madness”: Fecha o ciclo inicial com a mesma intensidade doentia que abriu.
O Impacto
“Severed Survival” não foi apenas mais um álbum de death metal em 1989. Enquanto bandas como Morbid Angel e Obituary exploravam velocidade e técnica, a banda propunha algo diferente: lentidão, putrefação, desconforto. Era death metal para ser ouvido às 3 da manhã, sozinho, questionando suas escolhas.
Retribution for the Dead (1991) e Mental Funeral (1991): O Duplo Golpe
Em um movimento incomum, eles lançaram o EP “Retribution for the Dead” e o álbum “Mental Funeral” no mesmo ano. Era como se a banda precisasse expurgar algo que não cabia em um único lançamento.
Mental Funeral: A Obra-Prima Doentia
A Capa: Uma criatura lovecraftiana totalmente deformada, um monstro que desafia qualquer anatomia conhecida. Não é simplesmente grotesco — é perturbador em um nível existencial, como se a própria realidade tivesse sido corrompida para gerar aquela abominação. A arte evoca o horror cósmico de Lovecraft filtrado através da obsessão gore do death metal. É algo que não deveria existir, mas existe, e está olhando para você.
Faixas Monumentais de Mental Funeral
- “Twisted Mass of Burnt Decay”: Possivelmente a melhor composição do grupo. Começa com riffs doom devastadores antes de explodir em fúria death metal, depois retorna ao peso esmagador. É uma aula de dinâmica e atmosfera.
- “In the Grip of Winter”: Seis minutos de doom-death gelado, com guitarras que soam como vento cortante sobre um campo de batalha abandonado. O minimalismo aqui é proposital e devastador.
- “Fleshcrawl”: Riffs reptilianos que literalmente rastejam, vocais ainda mais profundos, bateria tribal. É death metal reduzido à sua essência primordial.
- “Torn from the Womb”: Brutalidade sem concessões, mas com aquela lentidão característica nos breaks que te força a sentir cada nota.
“Mental Funeral” é onde o grupo se tornou inimitável. Nenhuma banda conseguiu capturar aquela mistura exata de peso, atmosfera mórbida e genuína insanidade.
Acts of the Unspeakable (1992): O Álbum Controverso

A Capa Maldita: O Inferno Ilustrado
Acts of the Unspeakable apresenta possivelmente a capa mais perturbadora da história do death. Criada por Wes Benscoter, é uma visão panorâmica do inferno — mas não o inferno dantesco ou religioso. É um inferno de depravação total, onde dezenas e dezenas de criaturas demoníacas, monstruosas e deformadas se entregam a todo tipo de perversão imaginável.
Cada centímetro da arte contém horrores: torturas elaboradas, violações grotescas, mutilações, canibalismo, podridão, sujeira, atrocidades que desafiam descrição. Não há um ponto focal — seus olhos vagam pela capa e descobrem novos horrores a cada olhar. Demônios esqueléticos, criaturas com anatomias impossíveis, vítimas em estados de sofrimento eterno. É uma orgia de sadismo, um catálogo visual de toda degradação concebível.
Segurar este disco era carregar um grimório proibido. Olhar fixamente para a capa era uma experiência hipnótica e nauseante. Você percebia novos detalhes a cada vez — sempre algo pior do que havia visto antes. Era arte? Era provocação? Era doença? Tudo isso simultaneamente.
A Experiência Pessoal: Banana Nanica e Arrependimento
Encontrar “Severed Survival” e “Acts of the Unspeakable” pelo preço de uma banana nanica foi como descobrir relíquias amaldiçoadas num bazar esquecido. Ouvi aqueles discos até os sulcos quase apagarem. “Acts of the Unspeakable” tocava no repeat enquanto eu estudava aquela capa infernal, decifrando cada tormento ilustrado, cada demônio, cada ato de violência desenhado ali.
Havia algo hipnótico naquela violência visual e sonora — e sim, uma culpa meio besta, aquela herança religiosa da infância sussurrando que você estava alimentando algo escuro. Mas também havia libertação: perceber que a transgressão artística pode ser catártica.
Vender aqueles discos foi um erro. Sim, o lucro foi bom — o mercado de colecionadores valoriza qualquer material original da banda. Mas o arrependimento é amargo. Não é sobre dinheiro; é sobre ter desfeito de artefatos que marcaram uma fase de descoberta musical, de transgressão, de juventude sem filtros.
As Faixas de Acts of the Unspeakable
Musicalmente, este álbum é mais experimental e caótico que seus predecessores.
- “Meat”: Abertura pesada e direta, sem rodeios. Dois minutos de brutalidade pura.
- “Necrocannibalistic Vomitorium”: O título já diz tudo. É curta, rápida, violenta — como um espasmo musical.
- “Your Rotting Face”: Aqui o Autopsy retorna ao doom nauseante que domina melhor que qualquer um.
- “Blackness Within”: Mais de seis minutos explorando texturas sonoras entre o death e o doom, com uma atmosfera sufocante.
- “Pus/Rot”: Duas faixas que funcionam como uma só, representando decomposição em áudio.
- “Battery Acid Enema”: O título mais perturbador do álbum para uma das composições mais desconcertantes.
O álbum divide opiniões. Alguns consideram o ápice da coragem artística do Autopsy; outros acham experimentalismo demais. O consenso: é impossível ignorá-lo.
Shitfun (1995): O Canto do Cisne (Temporário)
O álbum é exatamente o que o título promete: o Autopsy se afogando em sua própria iconoclastia. Mais experimental, menos focado, mas ainda inconfundivelmente eles. É aqui que o lado punk/hardcore de Chris Reifert mais aflorou — a influência do crust e do grindcore que ele sempre carregou se tornou predominante, preparando o terreno para o que viria a ser o Abscess.
Faixas como “Grave Violators”, “Shit Eaters” e “Bowel Ripper” mantêm a tradição gore, mas há uma sensação de exaustão criativa. Após este disco, a banda se separaria — oficialmente por 15 anos.
O Hiato e os Projetos Paralelos (1995-2009)
Chris Reifert manteve a chama acesa com o Abscess, explorando death metal mais punk e crust — a continuação natural da direção que “Shitfun” havia apontado. Danny Coralles formou o The Ravenous. Mas havia um vazio — o Autopsy deixou um legado que nenhum projeto paralelo conseguia preencher completamente.
O Retorno dos Mortos: Reunion e Nova Fase (2009-Presente)
Em 2009, o impossível aconteceu: a formação clássica se reuniu. Não foi nostalgia barata — foi urgência criativa genuína.
Macabre Eternal (2011): Provando que Ainda Tinham Fome
A volta não foi para fazer turnê de oldies — foi para dominar novamente.
- “Hand of Darkness”: Peso imediato, sem concessões.
- “Dirty Gore Whore”: O Autopsy fazendo o que sempre fez melhor — horror explícito traduzido em riffs esmagadores.
- “Always About to Die”: Prova que a banda retornou em forma plena.
Tourniquets, Hacksaws and Graves (2014) e Skull Grinder (2015)
Estes álbuns consolidam a segunda fase do Autopsy como artisticamente válida, não apenas nostálgica. A produção é melhor, mas a essência permanece: podridão, peso, perversão.
- “Autopsy” (faixa-título de “Tourniquets…”): Um statement de sete minutos sobre o que a banda representa.
- “Skull Grinder”: Death metal primitivo e eficaz — a fórmula funcionando décadas depois.
Álbuns Mais Recentes
“Morbidity Triumphant” (2022) mostra uma banda que recusa obsolescência. “Ashes, Organs, Blood and Crypts” (2023) mantém a chama acesa com a mesma intensidade doentia de sempre.
Discografia Essencial: O Que Você PRECISA Ouvir
Indispensável:
- Mental Funeral (1991) — A obra-prima absoluta
- Severed Survival (1989) — O marco fundador
- Acts of the Unspeakable (1992) — Controverso mas essencial
Muito Importante:
- Macabre Eternal (2011) — O retorno triunfal
- Retribution for the Dead (1991) — EP essencial
Para Completistas:
- Tourniquets, Hacksaws and Graves (2014)
- Shitfun (1995) — Divisor de águas
- Skull Grinder (2015)
O Legado: Influência no Underground
O Autopsy deixou marca profunda no death metal underground. Bandas como Vastum, Coffins, Undergang e Anatomia exploram diretamente a fórmula criada por Reifert e companhia: a intersecção entre death metal e doom, a obsessão gore levada ao extremo, a recusa em priorizar técnica sobre atmosfera.
Mais que isso: provaram que extremo não significa necessariamente rápido. O peso esmagador, a lentidão nauseante, a textura suja — tudo isso se tornou parte do vocabulário do death metal graças ao Autopsy.
Por Que o Autopsy Importa
Em uma era onde o metal extremo se tornou técnico ao ponto da esterilidade, a banda nos lembra que o gênero nasceu para perturbar, não para impressionar. Nasceu de obsessões doentias, filmes de horror vagabundos, fascinação pela morte e recusa em aceitar limites.
As capas não são apenas provocação — são arte de horror legítima, meticulosamente elaborada. As letras não são mero gore — são narrativas de decadência humana. A música não é mero barulho — é arquitetura sônica de colapso e decomposição.
Conclusão: Uma Banda Que Nunca Mentiu
A banda nunca fingiu ser outra coisa. Nunca suavizou, nunca se desculpou, nunca buscou aprovação mainstream. São death metal de pessoas obcecadas por morte, tocado com a sinceridade de quem realmente se importa com cada detalhe mórbido.
Para os curiosos: ouçam “Mental Funeral” do início ao fim, alto, sozinhos. É uma experiência que define parâmetros.
Para os iniciados: vocês já sabem. Não é apenas uma banda — é uma filosofia de extremismo honesto.
Autopsy permanece relevante. E continuará enquanto houver pessoas dispostas a descer ao abismo sem medo do que encontrarão lá.
Gosta de metal extremo? Então toma:
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🔗 Links para Quem Não Acredita que o Autopsy é Tão Doentio Quanto Descrevemos (Ou Quer Provas Visuais da Insanidade)
- Encyclopaedia Metallum – Autopsy – A bíblia do metal underground tem TUDO sobre a banda. Discografia completa, formações, até aquela demo obscura que você fingiu que conhecia.
- Peaceville Records – Autopsy Official – O site da gravadora que teve coragem de lançar esses discos. Lançamentos oficiais, merch e aquela sensação de estar gastando dinheiro com arte mórbida.
- YouTube – Álbuns Completos da banda – Para os corajosos que querem ouvir “Mental Funeral” inteiro às 3 da manhã. Não reclame dos pesadelos depois.
- Discogs – Autopsy – Quer saber quanto vale aquele vinil original que você vendeu? Prepare-se para o arrependimento em forma de cifrões.
- Last.fm – Autopsy – Estatísticas, faixas mais ouvidas e a prova de que você não é o único maníaco obcecado por doom-death putrefato.
- Spotify – Autopsy – Para os modernos que preferem streaming ao ritual de segurar um LP com capa nojenta. Perderam metade da experiência, mas ok.
- Metal Temple – Review de Severed Survival – Review clássico do álbum de estreia. Para quem quer ler outras pessoas tentando descrever o indescritível.
- Invisible Oranges – Artigos sobre Autopsy – Blog especializado em metal extremo. Análises profundas para quem cansou de reviews superficiais.
Nota: Todos os links foram verificados e estavam ativos no momento da publicação. Se algum morreu, culpe a internet, não a putrefação do Autopsy. 💀
💀 O Veredito: Obra-Prima da Putrefação ou Apenas Gore Gratuito?
Depois de atravessar essa necrópsia sônica, dissecando décadas de decomposição musical, fica a pergunta que separa os posers dos maniacos:
O Autopsy era uma banda visionária do death/doom ou apenas carniceiros com instrumentos?
Você consegue olhar a capa de “Acts of the Unspeakable” sem sentir aquela culpa religiosa besta? Acha que o doom lento era genialidade atmosférica ou só preguiça disfarçada? E, no fundo, você prefere o Autopsy dos primeiros álbuns sujos ou a segunda fase mais polida?
Desce pro play nos comentários — mas traga coragem. Se vier dizer que o som é “muito sujo” ou “muito lento”, é sinal de que seu ouvido ainda está preso nas blast beats sem alma do death metal moderno. 😏
⚠️ Aviso aos puristas do brutal death: Comentários reclamando que “tem muito doom” ou que “não é técnico” serão ignorados com a mesma indiferença que o Chris Reifert teve pelos padrões do gênero. Aceite a podridão, entenda a atmosfera e comente com propriedade.
“In the grip of winter, cold as fucking death…”
E você? Qual disco do Autopsy marcou sua vida? Já vendeu algum álbum de metal e se arrepende até hoje? Compartilhe nos comentários sua história com essa banda lendária.
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.