Ayrton Mugnaini Jr.: Músico, escritor e radialista. Do encarte do Língua de Trapo até a Rádio Matraca da USP FM

Conheci Ayrton Mugnaini Jr. por acaso, lendo os encartes dos discos do Língua de Trapo. Depois, ele me conquistou de vez com o humor afiado e as histórias musicais únicas do Rádio Matraca, na USP FM. O cara é uma figura que transita entre a pesquisa séria e a zoeira genial, sempre com uma paixão desmedida pela música.

Se você já riu de uma vinheta afiada ou devorou um livrinho de banca sobre seu ídolo musical, provavelmente já cruzou com o trabalho dele. Vamos mergulhar na trajetória desse cara que é músico, escritor, radialista, pesquisador e, acima de tudo, uma mente inquieta que não para de criar.


Primeiros Encontros: O Nome nos Encartes e Livros de Banca

Tudo começou com aqueles encartes dos discos, sabe? Naquela época em que a gente comprava o disquinho, sentava com calma e lia cada letrinha enquanto ouvia a música. O encarte era uma experiência. E lá estava ele: Ayrton Mugnaini Jr., um nome que não passava despercebido nas fichas técnicas do Língua de Trapo. Ele aparecia nos créditos, nas notas de rodapé, como autor de letras ou arranjos. Era como se ele fosse um personagem onipresente, mas invisível, por trás daquele som debochado e inteligente que o grupo entregava. Lembro-me de ler as letras de “Conformática” ou “O homem da minha vida” e de ver o nome dele associado àquela irreverência que só o Língua de Trapo tinha.

Não demorou para eu perceber que o mesmo nome também aparecia em outros lugares. Nos anos 90, eu era viciado em comprar aqueles livrinhos de banca, daqueles que custavam o preço de um lanche e contavam a história de bandas e artistas. Tinha de tudo: Raul Seixas, Roberto Carlos, Rita Lee, Elis Regina, e até uns gringos como o Queen.

E quem assinava essas pérolas? Ele de novo, o Mugnaini. O texto era simples, mas cheio de alma, com aquele jeito de quem conta uma história boa no bar, sem firula, mas com um monte de curiosidades que grudavam na cabeça. Era um estilo jornalístico popular, que democratizava o acesso à história da música. Ele não se preocupava em usar jargões acadêmicos, e sim em cativar o leitor com uma narrativa envolvente, cheia de detalhes interessantes sobre a vida e a obra dos artistas.

Naquele momento, eu não fazia ideia de quem era o cara por trás do nome. Só sabia que ele parecia obcecado por música e por histórias, e isso já era o suficiente para me deixar curioso. Ele era um tipo de guia informal para a história da música, um curador de informações que conseguia tornar qualquer biografia mais divertida do que uma aula de história.


De todas a mais panaca… Rádio Matraca

O verdadeiro “estalo” veio com o Rádio Matraca, um programa que era um oásis no dial da USP FM nos anos 90 e começo dos 2000. Apresentado por Laert Sarrumor, Alcione Sanna e o próprio Ayrton Mugnaini Jr., o Matraca era uma mistura improvável de humor escrachado, pesquisa musical profunda e uma pitada de sátira que cutucava sem dó. Era como se o programa dissesse: “Música é coisa séria, mas ninguém precisa levar tão a sério assim”.

O que tornava o Matraca tão especial era a química entre os apresentadores. Eles não eram críticos cheios de jargões. Falavam de música como se fosse uma conversa entre amigos, mas com um nível de conhecimento que te fazia querer anotar tudo. Eles contavam histórias que ninguém mais contava: bastidores de gravações obscuras, conexões entre artistas que você nunca imaginaria e até umas fofocas que davam um tempero extra. Eu me pegava rindo alto com as tiradas e, ao mesmo tempo, aprendendo sobre a MPB, o rock brasileiro, o samba, o punk — tudo misturado, sem preconceito.

E as vinhetas? Meu amigo, as vinhetas eram um show à parte. Muitas delas eram criações do próprio Mugnaini, que tinha um talento absurdo para transformar músicas conhecidas em paródias hilárias. Uma das minhas preferidas era a versão de “Her Majesty”, dos Beatles, que virou “A Rainha é uma dama legal”. Imagina só a audácia: pegar uma música de 23 segundos, quase um segredo escondido no final do Abbey Road, e transformar em uma piada que grudava na cabeça. Era o tipo de coisa que só alguém com um pé na música e outro no humor podia fazer.

Outra vinheta que me marcou foi “Amélia in the Sky”, criada pelo Laert Sarrumor, que pegava a letra de “Ai! Que Saudade da Amélia” e colocava na melodia psicodélica de “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles. Imagina só a genialidade: misturar o samba nostálgico de Ataulfo Alves com o som lisérgico de Lennon e McCartney! Era o tipo de coisa que só o Matraca podia entregar, com aquela mistura de reverência e irreverência que era a cara do programa.


A Multiplicidade de Mugnaini: Músico, Escritor e Pesquisador

O que sempre me impressionou no Ayrton Mugnaini Jr. é que ele nunca se contentou em ser “só” uma coisa. Ele é daqueles caras que parecem ter 48 horas no dia e uma energia inesgotável para criar.

Como Músico

Ayrton não era só o cara dos bastidores; ele tocava baixo (e, por vezes, guitarra e voz). Esteve com o Língua de Trapo nos anos 80, ajudando a criar aquele som irreverente que misturava MPB, rock e humor. Sua composição para o grupo já mostrava seu estilo eclético, que ele descreve como uma mistura de “rock com samba e xaxado com canção renascentista”. Depois, ele tocou com a lendária banda Magazine, de Kid Vinil, entre 1998 e 2004, trazendo sua pegada para o rock nacional. Sua participação na volta da banda foi um tributo à cena do rock dos anos 80, com shows que reviviam clássicos como “Tic Tic Nervoso”.

Como se não bastasse, ele ainda criou o TONQ – Tosqueira ou Não Queira, um projeto cujo nome já entrega o nível de zoeira e criatividade. O TONQ era uma banda que misturava humor, música e uma dose de “bregaragem” e “frevo de garagem”, termos que o próprio Mugnaini inventou para descrever sua fusão de estilos.

Ayrton também tem uma carreira solo prolífica. Lançou 16 fitas cassetes entre 1984 e 2000, muitas vezes gravadas com equipamentos caseiros, e em 1992 lançou o LP A Coragem de Ayrton Mugnaini Jr., que misturava humor, crítica social e referências musicais diversas. Desde 2000, ele lançou nove CDs, incluindo coletâneas que resgataram material de suas fitas. Faixas como “Onanimidade” (do CD de 2021 Da Sertório à Oratório) estão disponíveis em plataformas de streaming, provando que o cara sempre esteve à frente do seu tempo.

Ele também foi gravado por outros artistas, como Falcão e Pato Fu. Um fato curioso: seu primeiro “show pago” foi em 1975, em um diner em Lins, onde ele cantava paródias em troca de… um suco de graça! Em 1978, ele usou o cachê de um show em Sorocaba para comprar uma camisa para sua mãe, provando que a música “poderia colocar uma camisa nas costas de alguém”.

Como Escritor

Dos livrinhos de banca que marcaram minha adolescência até obras mais encorpadas, Mugnaini escreveu de tudo. Suas biografias populares sobre Raul Seixas, Roberto Carlos, Rita Lee e Elis Regina eram portas de entrada para quem queria conhecer esses ícones. Mais tarde, ele foi além: publicou a Enciclopédia da Música Sertaneja (2001), um esforço pioneiro que mapeou a história do gênero em uma época em que ele ainda lutava por respeito acadêmico. Ele também publicou livros como A Jovem Chiquinha Gonzaga e Breve História do Rock (2009, revisado em 2022). Seu livro mais recente, Breve História do Rock Brasileiro (2023), é um guia indispensável da cena, das orquestras dos anos 50 aos Mutantes e ao rock oitentista.

Como Pesquisador

Mugnaini nunca foi de ficar só na superfície. Ele trabalhou como consultor da Enciclopédia da MPB (ART/Publifolha), ajudando a documentar a história musical do Brasil. Foi curador do Arquivo do Rock Brasileiro na Associação Cultural Dynamite, preservando o legado do gênero. Ele também conduziu o primeiro grande estudo global sobre a relação entre música e circo para o Centro de Memória do Circo. É o tipo de cara que não só ama música, mas quer garantir que as próximas gerações também tenham acesso a ela.


Um Legado para Além das Caixinhas

O que faz Ayrton Mugnaini Jr. tão especial para mim é essa habilidade de misturar o erudito com o popular, o sério com o debochado. Ele nunca tratou a música como algo intocável, daqueles que só os “entendidos” podem apreciar. Pelo contrário: ele pegava o universo da música — com toda a sua riqueza, história e complexidade — e transformava em algo que qualquer um podia curtir. Era como se ele dissesse: “Relaxa, vem comigo que eu te mostro como isso é legal.”

Essa abordagem me marcou desde os encartes do Língua de Trapo, que eu lia com um sorriso no rosto, até os livrinhos de banca, que me apresentaram artistas que eu nem sabia que precisava conhecer. Mas foi no Rádio Matraca que ele realmente brilhou. Aquela voz, aquele jeito de contar histórias, aquela capacidade de fazer você rir e pensar ao mesmo tempo — era único. Até hoje, quando ouço o nome Ayrton Mugnaini Jr., penso naquele cara que conseguia transformar um papo sobre música em uma aventura inesquecível.

Hoje, suas obras continuam por ai em livros, músicas e arquivos digitais, e seu espírito segue inspirando quem acredita que a cultura pode ser divertida e profunda ao mesmo tempo. Ele valoriza a liberdade criativa, dizendo: “Prefiro dizer o que quero para dez pessoas que ouvem com atenção do que dizer o que não quero para um milhão.” É o tipo de pensamento que define sua carreira e sua abordagem.

Se você nunca ouviu o Rádio Matraca ou leu um dos livrinhos de Mugnaini, procure por aí. Talvez você encontre uma faixa perdida no streaming ou um exemplar empoeirado em um sebo. E, quem sabe, sinta um pouco da magia daquele cara que transformava qualquer papo musical em uma celebração.


A obra de Ayrton Mugnaini Jr.

Para quem quiser mergulhar mais a fundo na produção do Mugnaini, aqui vai um apanhado do que ele andou aprontando ao longo das décadas:

📚 Livros e biografias

Nos anos 80 e 90, ele escreveu biografias populares vendidas em bancas de revista, que ajudaram muita gente a conhecer artistas nacionais e internacionais. Entre elas:

  • Raul Seixas
  • Roberto Carlos
  • Rita Lee
  • Elis Regina
  • Adoniran Barbosa
  • Chiquinha Gonzaga
  • John Lennon
  • Queen

Mais tarde, vieram trabalhos mais densos e de referência, como:

  • Enciclopédia da Música Sertaneja (2001)
  • A Jovem Chiquinha Gonzaga
  • Breve História do Rock
  • Adoniran: dá licença de contar… (2002)

🎶 Música e bandas

Além de escrever, Mugnaini também tocou baixo em bandas importantes:

  • Língua de Trapo (anos 80)
  • Magazine, na volta com Kid Vinil (1998–2004)
  • TONQ – Tosqueira ou Não Queira

E como artista solo lançou, entre outras coisas:

  • LP “A Coragem de Ayrton Mugnaini Jr.” (1992)
  • Faixas avulsas e coletâneas que hoje podem ser encontradas até em plataformas digitais.

📻 Rádio e pesquisa

No Rádio Matraca (USP FM), Mugnaini era mais que um apresentador: ele criava vinhetas geniais, como a paródia de “Her Majesty” dos Beatles, e trazia curiosidades que transformavam cada programa numa aula divertida. Fora do rádio, ele deixou sua marca como:

  • Foi apresentador e criador de vinhetas no programa Rádio Matraca (USP FM), onde unia informação musical e humor.
  • Atuou como consultor da Enciclopédia da MPB.
  • Organizou o Arquivo do Rock Brasileiro na Associação Cultural Dynamite.

Ayrton Mugnaini Jr. - vídeo no YouTube

Notas Finais do Véi do Blogue

Escrever sobre o Mugnaini é como tentar resumir um festival de música: tem tanta coisa acontecendo que é difícil escolher o que destacar. Ele é a prova de que dá para ser sério sem ser chato e que a música é grande demais para caber em rótulos. Que tal você buscar uma das músicas dele no streaming ou um dos livros? Tenho certeza de que você vai se surpreender. Qual é a sua história com o Mugnaini? Conta aí nos comentários, que eu quero saber!

Links sobre a persona

Veja também nosso artigo sobre o Falcão

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