
Encarnação do Demônio é o terceiro e último filme da Trilogia do Zé do Caixão, dirigido por José Mojica Marins — o cineasta paulistano que inventou o horror brasileiro quase do zero — e encerra um ciclo iniciado em 1964 com À Meia-Noite Levarei Sua Alma e continuado em 1967 com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Quarenta e um anos separam o nascimento do personagem do seu desfecho. Esse intervalo não é um detalhe biográfico. É parte constitutiva da obra.
Existe um tipo de filme que só pode existir porque alguém esperou. Não por covardia, não por falta de oportunidade — mas porque o tempo era parte do projeto. Mojica passou quatro décadas sem dirigir um longa-metragem, e quando voltou, em 2008, com R$ 1,8 milhão captados via leis de incentivo — o maior orçamento da sua vida —, não voltou para fazer qualquer coisa. Voltou para cumprir uma promessa feita em preto e branco, numa São Paulo que já não existia mais.
Encarnação do Demônio é o terceiro e último filme da Trilogia do Zé do Caixão, dirigido por José Mojica Marins — o cineasta paulistano que inventou o horror brasileiro quase do zero — e encerra um ciclo iniciado em 1964 com À Meia-Noite Levarei Sua Alma e continuado em 1967 com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Quarenta e um anos separam o nascimento do personagem do seu desfecho. Esse intervalo não é um detalhe biográfico. É parte constitutiva da obra.
Existe um tipo de filme que só pode existir porque alguém esperou. Não por covardia, não por falta de oportunidade — mas porque o tempo era parte do projeto. Mojica passou quatro décadas sem dirigir um longa-metragem, e quando voltou, em 2008, com R$ 1,8 milhão captados via leis de incentivo — o maior orçamento da sua vida —, não voltou para fazer qualquer coisa. Voltou para cumprir uma promessa feita em preto e branco, numa São Paulo que já não existia mais.
Cinema de Horror Brasileiro: O Que Mojica Construiu Antes de Encarnação do Demônio
Para entender o peso de Encarnação do Demônio, é preciso entender o que veio antes — e em que condições veio.
Em 1964, quando À Meia-Noite Levarei Sua Alma chegou às telas, o Brasil praticamente não tinha cinema de terror. Mojica inventou um gênero quase do zero, com dinheiro de nada e uma convicção que beirava o fanatismo — o mesmo tipo de fanatismo, aliás, que habita Zé do Caixão. O filme existiu. O personagem nasceu: o coveiro de cartola, unhas longas e olhos de brasa que não acredita em Deus nem no Diabo — e parece ser os dois ao mesmo tempo.
Em 1967, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver levou a mitologia mais longe. Mais ambicioso, mais sombrio, com uma sequência no inferno filmada em cores dentro de um filme em preto e branco — uma ruptura visual que sugeria que aquele universo era grande demais para caber num único registro. E então Zé do Caixão voltou a dormir. Por quatro décadas.
Quando Encarnação do Demônio chegou aos cinemas, Mojica tinha mais de setenta anos. O Brasil era outro país. O cinema era outra indústria. Mas Zé do Caixão era exatamente o mesmo — e é precisamente essa imutabilidade que o torna aterrorizante. O mundo mudou ao redor dele. Ele não mudou nada.
Elenco e Produção: O Retorno de Mojica com o Maior Orçamento de sua Carreira

R$ 1,8 milhão captados através de leis de incentivo cultural. Para qualquer padrão internacional, um valor modesto. Para Mojica Marins, o maior orçamento que ele jamais administrou — e aqui reside um dos paradoxos mais fascinantes dessa obra: o homem que construiu uma mitologia inteira com quase nada agora tinha recursos reais.
Mojica Marins reprisou o papel de Zé do Caixão pela última vez com a mesma ferocidade física e gestual que marcou os dois primeiros filmes. Ao seu lado, Milhem Cortaz compõe um dos personagens de suporte mais perturbadores da trilogia — seus fanáticos, os devotos que esperam Zé do Caixão na porta depois da soltura, têm nele uma âncora de normalidade corrompida que torna tudo mais inquietante. Jece Valadão, veterano do cinema brasileiro e presença marcante nos filmes anteriores da série, retorna para fechar seu próprio arco dentro da mitologia. Adriano Stuart também integra o elenco neste encerramento.
A fotografia ficou a cargo de Dib Lutfi — o mesmo Dib Lutfi do Cinema Novo, o homem que filmou Glauber Rocha — e encontra aqui uma linguagem que honra os filmes anteriores sem os imitar. As cenas em preto e branco intercaladas com o presente colorido não são nostalgia: são a memória de Zé do Caixão funcionando como um registro literal de realidade paralela. O passado não é flashback — é substância. É matéria viva dentro do filme.
O resultado foi selecionado para o Festival de Veneza de 2008, na mostra Midnight Movies — reconhecimento que o cinema de arte europeu, com sua longa relação com o gênero radical, soube dar antes do Brasil.
O Personagem que Nunca Foi Vilão

Para entender por que a Trilogia do Zé do Caixão importa, e por que Encarnação do Demônio é seu encerramento necessário, é preciso parar e encarar de frente o que Zé do Caixão realmente é — e o que ele não é.
Ele não é um vilão de slasher, aquele mecanismo de morte sem rosto que existe para punir adolescentes imprudentes. Ele não é um monstro sobrenatural que habita a margem da sociedade. Zé do Caixão é um cidadão. Um coveiro. Um homem com uma profissão, uma casa e uma visão de mundo articulada e coerente — que é simplesmente a visão de que não existe nenhuma força no universo, divina ou moral, capaz de se impor sobre a vontade de um homem superior.
É uma filosofia. Uma filosofia monstruosa, é verdade. Mas uma filosofia.
Desde À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Mojica apresenta um homem que não acredita em Deus — e que passa o filme inteiro sendo confrontado por uma realidade que parece refutar isso, e continuando a não acreditar. Em Encarnação do Demônio, essa filosofia finalmente encontra sua confirmação metafísica. E aí o filme se transforma em algo mais estranho e mais rico do que qualquer terror convencional poderia ser.
Zé do Caixão Sai da Prisão “Mentalmente Restaurado”
A premissa de Encarnação do Demônio é carregada de ironia pesada: Zé do Caixão foi preso, processado, passou pelo ritual de punição e reabilitação que a sociedade reserva para seus monstros — e foi devolvido ao mundo declarado curado. Mentalmente restaurado.
Mojica filma isso com um humor negro quase bertoltiano. A “restauração mental” de Zé do Caixão significa que ele agora é mais articulado, mais calmo, mais estratégico. O que em qualquer outro contexto chamaríamos de progresso aqui é apenas predação refinada. Ele não foi domesticado. Foi afiado.
Os fanáticos que aparecem na sua porta logo depois da soltura são um dos elementos mais perturbadores e subestimados do filme. Eles não são servos comuns, não são apenas capangas funcionais. São crentes. Devotos. Pessoas que construíram uma identidade ao redor da figura de Zé do Caixão durante os anos em que ele estava preso — que esperaram por ele como se esperaria por um messias. Mojica está dizendo algo muito específico sobre como a maldade carismática gera adoração em vez de repulsa, sobre como certos tipos de violência e desafio às normas se tornam culto. É um comentário que envelheceu de forma particularmente inquietante.
Elena, a Cigana: O Portal Metafísico de Encarnação do Demônio
A cigana Elena é o pivô metafísico do filme — e uma das personagens femininas mais interessantes que Zé do Caixão já encontrou ao longo da trilogia, precisamente porque ela não é apenas vítima.
Elena o conhece. Sabe quem ele é. E possui uma capacidade que ele precisa: ela pode falar com espíritos. Para Zé do Caixão, um homem que sempre negou qualquer realidade além da física, a existência de Elena é uma provocação ontológica. Ela é a prova viva de que há algo mais além da matéria — e ao mesmo tempo é profundamente atraente para ele. É a tensão entre essas duas coisas que torna a relação entre os dois tão carregada.
A sequência em que Zé do Caixão e Elena fazem sexo rodeados dos cadáveres das tias dela — que ele acabou de matar — é um dos momentos mais perturbadores de toda a trilogia, e não por razões gratuitas. É perturbador porque é coerente. Dentro da lógica de Zé do Caixão, a morte e a geração de vida são faces da mesma moeda. Ele está literalmente cercado pela morte que causou enquanto gera vida. É a expressão mais literal possível da sua filosofia.
E então ele tem a visão.
O Mistificador: Quando Encarnação do Demônio Enfrenta o Infinito
O que acontece quando o personagem mais obstinadamente materialista e anti-religioso do cinema brasileiro é forçado a encarar o sobrenatural de frente? Quando a porta se abre e ele vê — de verdade, sem metáfora, sem alucinação — que há um além?
O Mistificador, ser sobrenatural que Zé do Caixão encontra no Outro Mundo durante a visão provocada por Elena, mostra a ele o catálogo inteiro do sofrimento humano. É uma experiência que mudaria qualquer personagem convencional — que geraria um arco redentor, uma lição aprendida, uma humanidade redescoberta.
Zé do Caixão volta e sequestra mais mulheres.
Essa é a decisão narrativa mais corajosa e mais reveladora de toda a Trilogia do Zé do Caixão. Mojica poderia ter dado ao seu personagem um momento de dúvida, um lampejo de humanidade que o tornasse palatável. Não deu. A resposta de Zé do Caixão ao infinito é a mesma que ele sempre deu ao finito: indiferença absoluta seguida de ação implacável. Ele viu o sofrimento de toda a humanidade e decidiu que esse não era seu problema.
É um niilismo tão radical que transcende o horror e entra em outro território — algo mais próximo da tragédia grega, com personagens que carregam uma hybris tão absoluta que a própria estrutura do cosmos precisa se reorganizar ao redor deles.
O Final de Encarnação do Demônio: O Empalamento Inútil e o Triunfo do Mal
A perseguição final em Encarnação do Demônio é Mojica em estado puro — caótica, densa, iconograficamente saturada. A polícia persegue Zé do Caixão até uma floresta. A floresta leva a um parque de diversões abandonado — um dos ambientes mais carregados que o cinema de terror possui, aquele lugar onde a alegria foi e não voltou mais, onde as estruturas de diversão infantil se tornam, no escuro, instrumentos de angústia.
Quando o padre finalmente empala Zé do Caixão, o momento tem toda a forma de uma resolução narrativa, de um fim merecido. E então o filme revela sua última carta: não adiantou nada.
Porque Zé do Caixão é o Diabo. Não metaforicamente, não como figura de linguagem — literalmente o Diabo. E o Diabo não morre de empalamento. E enquanto o filme fecha, as mulheres que ele sequestrou estão grávidas. A linhagem continua. O projeto está completo.
É uma das vitórias do mal mais perturbadoras do cinema brasileiro — não porque seja gratuita, mas porque é a conclusão lógica e inevitável de tudo que os dois filmes anteriores prometeram. Desde 1964, Mojica mostrava um homem que dizia ser superior a Deus, ao Diabo e à morte. Encarnação do Demônio simplesmente cumpre a promessa.
Ele era.
Quarenta Anos Como Unidade Narrativa
Há algo sobre a dimensão temporal da Trilogia do Zé do Caixão que vai além da análise de filmes individuais e que Encarnação do Demônio torna impossível ignorar.
Quando Mojica voltou ao personagem em 2008, ele tinha vivido toda uma vida desde a última vez que Zé do Caixão havia aparecido. O Brasil tinha atravessado uma ditadura inteira. O cinema brasileiro tinha morrido e renascido várias vezes. A audiência que foi ver Encarnação do Demônio não era a audiência de 1967 — mas carregava, na memória cultural coletiva, o peso de tudo que aquele personagem representou.
E Mojica filmou isso. Não de forma explícita, não em cenas de exposição — mas na textura, na forma como as imagens em preto e branco dos filmes anteriores surgem intercaladas com o presente colorido. O passado está literalmente dentro do filme. O tempo é parte do material com que a obra foi construída.
Isso é muito raro. A maioria das trilogias é planejada de uma vez, filmada em sequência, lançada em janelas calculadas. Esta trilogia aconteceu ao longo da vida de um homem, atravessou décadas de história brasileira, sobreviveu à irrelevância e ao esquecimento — e chegou ao seu fim com uma integridade que só é possível quando o criador nunca recuou, nunca se vendeu, nunca decidiu ser outra coisa do que era.
Por Que Encarnação do Demônio É uma Obra-Prima Imperfeita — e Por Que Isso Importa

Encarnação do Demônio é um filme com imperfeições. Tem momentos de excesso que escorregam do expressionismo para o descuido. Tem escolhas de ritmo que um orçamento maior talvez corrigisse. Tem cenas que vivem no limite entre o ousado e o desnecessário.
E ainda assim é uma das obras mais importantes do cinema de horror brasileiro — e do cinema brasileiro, ponto.
Não apesar das imperfeições. Com elas, através delas, porque elas são parte da voz. Mojica Marins nunca foi um cineasta de acabamento polido. Ele é um cineasta de força bruta, de imagens que grudam, de personagens que não saem da cabeça. E Encarnação do Demônio, com todos os seus excessos e todas as suas audácias, fecha uma trilogia que começou como exercício de gênero e terminou como documento de uma obsessão criativa sem paralelo na história do cinema nacional.
Zé do Caixão ganhou. Vai ganhar sempre. E enquanto os filmes existirem, vai continuar ganhando — nas madrugadas de quem os assiste pela primeira vez e sente aquela coisa estranha misturada ao medo, que é o reconhecimento de que existe, ali na tela, algo absolutamente genuíno.
O Diabo não morre de verdade.
Mojica sabia disso desde 1964. Encarnação do Demônio é a prova.
Leia também o Zé do Caixão em: Death Metal, Zé do Caixão e uma noite de terror em São Paulo em 1994
Ainda Não Saciou a Sede de Sangue? Vai Fundo Nessas Leituras
-
Portal Brasileiro de Cinema — Entrevista Completa com Mojica
O próprio Mojica em primeira pessoa: como surgiu Zé do Caixão, os bastidores das brigas com distribuidoras, o pesadelo que originou tudo. Fonte primária indispensável. -
Jornal da USP — Mojica e a Alma do Povo Brasileiro
Análise do professor da ECA-USP sobre como Mojica capturou o medo genuíno do brasileiro simples — e por que isso o tornou subversivo sem querer ser. -
Plano Crítico — Ensaio Aprofundado sobre Mojica Marins
Um dos melhores textos críticos em português sobre a obra completa do diretor. Vai muito além do personagem e enfrenta o cineasta com seriedade. -
NerdCast #124 — A Maldição de Zé do Caixão (gravado em 2008, ano de Encarnação do Demônio)
Entrevista em áudio com Mojica no exato momento do lançamento do terceiro filme. Documento histórico: o homem falando sobre fechar a trilogia enquanto ela acabou de sair. -
UFRJ — Zé do Caixão: A Falsa Subversão (Tese Acadêmica)
Pesquisa acadêmica que desmonta e reconstrói o mito de Zé do Caixão com rigor. Para quem quer entender o personagem muito além da superfície do terror.
⚰️ O Veredito: Obra-Prima Subestimada do Cinema Brasileiro ou Só Exploitation Cult?
Depois de mergulhar em quarenta anos de uma trilogia construída com quase nada e concluída com tudo — um personagem que desafiou Deus em voz alta numa ditadura, um Festival de Veneza conquistado da periferia de São Paulo, e um encerramento que ninguém pediu mas todo mundo precisava —, fica a pergunta que separa os curiosos dos convertidos:
Encarnação do Demônio é o fechamento mais corajoso da história do cinema de horror brasileiro — ou Mojica chegou tarde demais, num país que nunca soube o que tinha nas mãos?
Você consegue assistir Zé do Caixão recusar a redenção depois de encarar o infinito e ainda sentir aquela coisa que o cinema de gênero radical tinha e que ninguém mais consegue fabricar? Acha que Mojica fez a escolha certa ao esperar quarenta anos — ou o Brasil perdeu a janela de ouro para ter seu próprio ícone do horror reconhecido em vida? E, no fundo, prefere a brutalidade crua do primeiro filme ou a maturidade metafísica do Encarnação do Demônio?
Desce pro caixão nos comentários — mas chegue preparado. Se vier dizer que “é coisa velha” ou que “não é cinema de verdade”, é sinal de que você ainda não entendeu que personagens com essa densidade não envelhecem. Eles só ficam mais difíceis de ignorar. 🖤
⚠️ Aviso aos defensores do horror americano: Comentários reclamando que “é primitivo demais” ou que “não tem orçamento” serão ignorados com a mesma elegância com que Zé do Caixão ignora Deus — sem hesitação e com convicção absoluta. Escassez de recursos nunca foi ausência de visão. Nunca foi.
Um homem de São Paulo. Quarenta anos de espera. Uma única missão: provar que o Brasil tinha algo a dizer ao cinema de horror mundial — com unhas longas, cartola e sem pedir licença a ninguém.
E você? Qual foi a primeira cena de Zé do Caixão que entrou na sua cabeça e não saiu mais? Já colocou À Meia-Noite Levarei Sua Alma pra alguém sem avisar do que se tratava e ficou esperando a reação? Já tentou explicar pra um amigo por que um coveiro de bairro se tornou o personagem mais filosófico do cinema nacional — e ainda assim assusta de verdade? Compartilha nos comentários — essa trilogia merece a conversa.
“O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é o amor? É o veneno do desejo. O que é o desejo? É o triunfo do destino.” — José Mojica Marins
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.