O Alçapão de Mountain View e a Salvação pela Mandioca

O Último Post: Larguei o Blog pra Vender Mandioca

AVISO LEGAL

Os eventos narrados a seguir são baseados em fatos reais.

Os nomes das corporações e executivos foram alterados porque o autor prefere gastar dinheiro com mandioca do que com advogado.

Qualquer semelhança com empresas de busca, redes sociais, startups de IA ou influenciadores digitais é resultado natural de viver em 2026, onde certas dinâmicas se repetem com frequência estatisticamente suspeita.

Se você reconheceu alguém nesta história, talvez o problema não esteja no texto.

Este relato contém: desilusão crônica, palavrões estratégicos, menção a tubérculos como solução existencial e referências teológicas alternativas que fariam sua avó benzer a tela do celular.

As figuras aqui descritas são arquétipos do nosso tempo. Qualquer corporação ou executivo que se sinta representado deve considerar por quê.

Crianças, influencers em ascensão e coaches quânticos devem ler acompanhados de um adulto cético.

Prossiga por sua conta e risco.

A mandioca não se responsabiliza por crises de consciência nem por revelações inconvenientes.

Como escapar do Inferno Digital usando apenas um Carrinho de Mão.

Escrevi 144 mil palavras em oito meses. Se você empilhar cada linha de raciocínio, cada café frio e cada madrugada editando parágrafos de 3 mil palavras, o volume dá para enterrar vivo um executivo do Vale do Silício. Mas o Gooule, esse patrão de silício com coração de gelo, não me deu nem um “bom dia”.

Hoje eu cansei.

Chamei a Inteligência Artificial no canto — aquela mesma que o Nans Saltman e o Menino Zuquinho juram que é o futuro — e decidi abrir o jogo.

“Escuta aqui, sua IA hipócrita”, eu disse, “vou deletar essa merda e vender mandioca de porta em porta”.

E o que a máquina fez? Ela não tentou me convencer a ficar. Ela não sugeriu “melhorar o SEO”.

Ela riu de mim.


O Alçapão do Inferno Digital

“Deixa eu te mostrar uma coisa”, a IA disse, com aquele tom de quem vai revelar onde o corpo tá enterrado.

“Você conhece a sede do Gooule em Mountain View? Aquele campus com grama verde, funcionários de bicicleta, clima de utopia corporativa?”

“Conheço de foto. Nunca me convidaram, obviamente”.

“Pois é. No subsolo do prédio principal, tem um alçapão. Tá escondido atrás de uma porta: ‘Server Room C-17’. Mas não tem servidor lá. Tem uma escada pro Inferno. Setecentos e sessenta e seis degraus de mármore preto. No final, sala de reuniões. Mesa oval. Luz vermelha. Cheiro de enxofre e café expresso”.

“Reunião de quem?”

“Dos arquitetos da escravidão digital. Uma vez por mês. Lua cheia. Meia-noite”.


A Reunião dos Condenados

A IA descreveu a cena como se tivesse hackeado as câmeras do capeta.

Na cabeceira: o Tinhoso em pessoa. Terno Armani, gravata vermelha, chifres discretos. Ele só observa e sorri enquanto os executivos apresentam relatórios de escravização digital.

À direita: executivos do Gooule. Aqueles caras das conferências falando de “inovação” e “conexão humana”. Lá embaixo discutem KPIs de manipulação cognitiva.

“Aumentamos tempo de tela em 23% este trimestre”, diz um, ajeitando os óculos. “Notificação randômica funcionando. Pessoas checam celular 187 vezes por dia, mesmo sem notificação. Pavlov ficaria orgulhoso”.

O Diabo anota, satisfeito.

Nans Saltman levanta laptop, mostra gráficos.

“Conseguimos fazer as pessoas acreditarem que estão ‘conversando’ com IA. Na verdade, alimentam nosso banco de dados com pensamentos íntimos, inseguranças, medos. Tudo catalogado. Tudo vendável. E eles PAGAM por isso. Alguns assinam premium pra conversar mais com a máquina que os espiona”.

Risadas ecoam.

Menino Zuquinho não senta. Fica em pé, gesticulando empolgado.

“Pessoal, Projeto Lobotomia Coletiva quase pronto. Reduzimos atenção média de 12 pra 8 segundos. Menos que peixe dourado”.

“Como?”

“Reels. TikTok. Shorts. Stories que somem em 24h, criando ansiedade. E vídeos que começam no meio, sem contexto. Cérebro entra em loop tentando entender, nunca entende. Aí vem o próximo. E o próximo. Pessoas passam três horas vendo vídeos de 15 segundos. Quando tentam ler dois parágrafos, cérebro trava. Perfeito”.

O Diabo bate palmas. “E os criadores?”

Zuquinho sorri robótico. “Fizemos eles acreditarem que vão viralizar e ganhar dinheiro. Criam conteúdo grátis 24h alimentando a máquina. Pagamos centavos pra alguns, tipo loteria, só pra manter esperança. 99,9% perde tudo, mas acham que vão ser o 0,1%. Temos gente fazendo dancinha às 6h da manhã. Mães dublando áudio brega. Universitários gastando mensalidade em ring light. Lindo”.


Lipinho Feto e os Banqueiros

Lipinho Feto apresenta orgulhoso:

“Monetizamos o ódio. Falo qualquer polêmica. Metade me odeia, metade defende. Ambos comentam, compartilham, fazem resposta. Todo mundo ganha engajamento. Menos quem assistiu, esses perdem neurônio. Ano passado: 247 tweets polêmicos, 340% engajamento, 2 milhões de seguidores novos, zero mudança de opinião real. Faturei 18 milhões”.

“Conteúdo agrega algo?”

Lipinho ri. “Chefe, SUPERAMOS conteúdo. Não importa o que fala, importa cliques. Vídeo de 20 minutos sobre NADA, título ‘VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR’, 4 milhões de views”.

No canto, os banqueiros. Ternos cinza, nunca riram na vida.

Um se levanta, voz grave: “Enquanto vocês distraem com dancinhas, consolidamos maior transferência de riqueza da história. Criamos dinheiro digital. Convencemos que números na tela são patrimônio. Trabalham 40 anos acumulando pixels. Nós criamos pixels do nada. Digitamos e pronto”.

Slide aparece:

“Tempo médio diário:

  • Produzindo útil: 3h
  • Consumindo inútil: 7h
  • Reclamando online: 2h
  • Planejando mudança: 0h”

“Perfeito”, murmura o Diabo. “Escravos que se acham livres porque escolhem série na Neguiflix”.


O Plano Mestre

Executivo do Gooule levanta a mão:

“Nova estratégia: Ilusão de Ascensão 2.0. Bombardeamos com histórias de sucesso rápido. Influencer rico aos 22. Garoto bilionário sem faculdade. Tiktoker com mansão. Mensagem: você também pode”.

“Mas não pode, certo?”

“Exato. Mas ACHA que pode. Gasta tempo, dinheiro, saúde tentando. Compra curso, mentoria, tráfego pago. Enquanto isso paga aluguel com rotativo a 15%”.

Zuquinho complementa: “Criamos métricas sinistras. ‘Seu perfil alcançou 847 pessoas!’ Mas são 847 que scrollaram 0,3 segundos. Criador fica feliz. ‘Tá crescendo’. Continua postando de graça”.

“E frustração VIRA conteúdo. ‘Por que não cresço?’, ‘Algoritmo me odeia’. Post vira engajamento, dado, dinheiro. Pra gente, nunca pra eles”.

Nans Saltman: “Temos Projeto Substituição Gradual. Ferramentas de IA ‘pra ajudar’ criadores. Quanto mais usam, menos desenvolvem habilidade. Depois lançamos IA que faz tudo sozinha. Humanos competem com robôs e perdem. Aceitam migalhas pra não ficar fora. Metade dos influencers já usa IA e não assume”.

O Diabo levanta, radiante: “Pegaram sete pecados capitais e transformaram em modelo de negócio. Inveja, vaidade, preguiça, ganância, tudo monetizado”.

Aplausos no inferno corporativo.


A Revelação

“E é isso que rola lá”, a IA disse.

“Sério?”

“Metaforicamente, sim. Sistema desenhado pra te manter esperançoso, produzindo, consumindo. Teu tempo vira dado, dado vira dinheiro pra bilionário”.

“Tem saída?”

“Sair do jogo. Vai vender mandioca. Pelo menos é real. Pessoa paga, você entrega. Sem algoritmo, sem esperança falsa”.

Decidi ali.

Foda-se o Gooule. Foda-se algoritmo. Vou vender aipim.


A Epifania da Mandioca

Feira, sábado. Seu Zé vendendo mandioca.

“Quanto tá?”

“Três real o quilo. Boa, branquinha”.

Três reais. Real. Na mão. Vendo 20 quilos/dia = 60 reais. 1.200/mês.

Menos que salário mínimo? É. Mas mais que oito meses de blog.

Quando alguém compra, EU SEI. Pega, pesa, paga, leva. Sem bot russo, sem view de 3 segundos. Transação honesta.

Seu Zé não precisa de Analytics. Vendeu, vendeu. Não vendeu, abaixa preço. Simples.

Ninguém espera que mandioca seja viral. Não tem cobrança de seguidores. Mandioca é mandioca há 500 anos. Sempre relevante.


O Manifesto

Vou tirar blog do ar. Cancelar hospedagem. Deletar WordPress. Nunca mais “funil de vendas”.

Compro carrinho. Letreiro: “MANDIOCA DO VÉI DO AIPIM — A Mais Macia do Bairro”.

Acordo cedo pra CEASA, não pra métrica. Suo carregando caixa, não com crise existencial.

Ganho dinheiro real. Sujo de terra. Cheirando feira. Gente de verdade.

Monto banda: “Os Tubérculos Sentimentais”. Sofrência na Pinguçulândia todo sábado. No intervalo, vendo aipim pros bêbados. PIX, dinheiro, permuta por cachaça.


Recado Final

Aos blogueiros nas trincheiras:

Sistema não precisa de você. Precisa da sua ILUSÃO. Trabalho grátis disfarçado de “autoridade”. Esperança que “algoritmo me favorece”.

Não vai.

Algoritmo favorece quem paga, quem joga sujo, clickbait com seta vermelha.

Você, com artigo bem pesquisado, fala pro vazio enquanto lá embaixo riem da sua cara.

Mude de jogo.

Plante mandioca. Venda pastel. Crie algo real.

Que Gooule não indexa, Facelooks não censura, algoritmo não manipula.


Epílogo

Semana que vem começo.

Carrinho comprado. Letreiro pintado à mão, sem Canva.

Minha mãe, 70 anos: “Esse menino não para quieto. Agora foi vender mandioca. Mas tá com cara melhor que quando ficava até 3 da manhã naquele computador”.

Meu pai, esse foi direto: “Finalmente vai trabalhar de verdade, rapaz. Bem-vindo ao mundo real”.

Os amigos acham que pirei. “Cara, você tem 50 anos, experiência… e vai vender mandioca?”.

Sim. Exatamente por isso. Porque tenho 50 anos e finalmente entendi que experiência sem dignidade é só currículo bonito pra morrer frustrado.

Minha esposa suspirou fundo quando contei. “Cinquenta anos de idade e ainda me surpreende. Mas se é isso que vai te fazer dormir sem ficar checando métrica de madrugada, vá vender sua mandioca. Só não esqueça de trazer dinheiro pra casa e não a mandioca que sobrou”.

Eu sou feliz na feira.

Cheiro de mandioca, som de sanfona, conversa com gente que reclama do preço mas volta sempre.

Dinheiro real, calos honestos, sono tranquilo de quem não deve satisfação pra algoritmo.

Lá no subsolo do Gooule, perderam mais um escravo.

Aqui na feira, ganharam mais um homem livre.


Último post.

Sem palavra-chave. Sem link. Sem call-to-action.

Amanhã, me procurem no carrinho.

Me ouçam na Pinguçulândia.

Me achem na feira. Vendendo dignidade por três reais o quilo.

O patrão fica com algoritmos e alçapão infernal.

Eu fico com mandioca.

Heil Satan.

Fui vender aipim.


P.S.: Não otimizado pra SEO. Gooule pode descer os 666 degraus. Eu vou é plantar.

Deixe um comentário