Legião Urbana vs Paralamas do Sucesso: Como Meu Gosto Musical Inverteu Completamente Aos 50 Anos

Como o gosto musical muda com a idade

Existe algo perturbador e libertador em descobrir que seus gostos musicais fizeram uma inversão completa ao longo das décadas. Na adolescência, eu era devoto incondicional da Legião Urbana e simplesmente não gostava dos Paralamas do Sucesso. Não consigo precisar exatamente o motivo — não era questão de achar comercial ou superficial. Simplesmente não conectava, não me tocava, não despertava interesse.

Hoje, aos 50 anos, o cenário é exatamente oposto. A Legião permanece no meu imaginário como algo que foi importante, que moldou minha formação, mas que raramente me desperta o desejo de revisitar. Admiro ainda, reconheço seu valor histórico e emocional, mas não sinto saudade de colocar para tocar.

Os Paralamas, por outro lado, foram ganhando espaço progressivamente. Meus ouvidos — ou melhor, meu cérebro — passaram a absorver aquela música de forma completamente diferente. Cada nova audição revelava camadas que eu não percebia antes. O que não me dizia nada na juventude hoje faz todo sentido. E são eles que permanecem vivos no meu cotidiano sonoro.

Essa reversão completa não aconteceu por rebeldia ou desejo de ser diferente. Foi o resultado natural de um ouvido que amadureceu, que desenvolveu novos critérios e que aprendeu a ouvir de outra forma — mais atenta, mais sensível a nuances que antes me escapavam completamente.

Legião Urbana: do coletivo ao confessional

Os primeiros discos: observação social e poesia universal

Nos primeiros discos, a Legião tinha visão panorâmica, quase sociológica. “Geração Coca-Cola” criticava o conformismo juvenil com ironia afiada. “Índios” explorava memória, identidade e relações sociais com profundidade incomum para o rock brasileiro oitentista.

Em “Tempo Perdido” e “Quase Sem Querer”, a poesia equilibrava observação externa e reflexão íntima, permitindo que qualquer ouvinte encontrasse sua própria história nas entrelinhas.

A virada intimista: quando Renato se tornou o centro

Esse equilíbrio se desfaz progressivamente. A partir do As Quatro Estações (acho muito bom este ainda), o foco migra da observação social para o universo pessoal de Renato Russo.

Em V, O Descobrimento do Brasil e A Tempestade, a transformação está completa: as letras mergulham sem pudor em sua intimidade — saúde deteriorada, conflitos de sexualidade, amores turbulentos, mágoas acumuladas.

Diários musicais: a fase confessional

Músicas como A Via Láctea, Clarisse, Aloha e Esperança funcionam como páginas de um diário, onde o ouvinte vira apenas espectador de uma agonia privada. No meio desse tom de lamento pessoal, Perfeição surge como uma exceção bacana ao resgatar a crítica social, mas é um ponto fora da curva. O foco do Renato já estava fechado em seus próprios dramas, deixando pouco espaço para quem buscava a conexão universal dos primeiros discos.

O que antes convidava à identificação agora documenta uma vida específica, com seus dramas particulares e obsessões pessoais.

Esse mergulho no ego do Renato acaba se tornando claustrofóbico. Cada disco passa a girar em torno de suas feridas e dramas pessoais — um legado artisticamente corajoso, mas que se torna emocionalmente exaustivo para quem está do lado de fora (pelo menos para mim).

Paralamas do Sucesso: a força da coesão

Musicalidade acima de virtuosismo

Enquanto a Legião se voltava para dentro, os Paralamas do Sucesso seguiam outra filosofia: pensar como banda, não como projeto de um frontman. Herbert Vianna nunca teve uma voz tecnicamente impressionante, mas compensa com musicalidade instintiva e uma guitarra que respira.

Cada solo, cada frase melódica revela sensibilidade rara — não é técnica pela técnica, é expressão genuína.

A base rítmica impecável de Bi Ribeiro e João Barone

Bi Ribeiro e João Barone completam essa equação com precisão. O baixo desenha linhas sofisticadas que vão além da mera sustentação harmônica, enquanto a bateria constrói grooves que parecem simples até você tentar reproduzi-los.

São detalhes que ouvidos jovens raramente captam: a economia de notas que diz mais que solos virtuosísticos, o espaço usado como elemento compositivo, a dinâmica sutil entre os instrumentos.

Consistência artística através das décadas

A discografia dos Paralamas mantém notável consistência. De Cinema Mudo a Sinais do Sim, passando por O Passo do Lui e Selvagem?, cada álbum oferece diversidade sem perder identidade.

“Alagados” une crítica social a melodia memorável. “Lanterna dos Afogados” equilibra melancolia e esperança. “Meu Erro” transforma insegurança romântica em hino geracional. “Óculos” e “O Beco” demonstram maturidade lírica sem solenidade.

Narrativa aberta vs narrativa fechada

Mesmo quando Herbert escreve sobre experiências pessoais, isso não sequestra a essência da banda. A narrativa permanece aberta, musicalmente rica, permitindo múltiplas camadas de interpretação. Não é tudo sobre ele — é sobre a música que os três criam juntos.

A trajetória de superação de Herbert após o acidente aéreo adiciona outra dimensão. Ele retornou não apenas para coletar aplausos nostálgicos, mas mantendo criatividade e qualidade.

Esse contraste é revelador: enquanto a Legião afundava na autoabsorção progressiva de Renato, os Paralamas se fortaleciam na musicalidade coletiva.

Ego e narrativa: estruturas diferentes

O monólogo musical de Renato Russo

A diferença fundamental não é de talento — ambos tinham de sobra. É de estrutura narrativa. Renato Russo fez de sua experiência pessoal o centro gravitacional da Legião, resultando em álbuns onde ele é protagonista quase exclusivo.

Sexualidade, doença, relacionamentos complexos, rancores e paixões aparecem com intensidade crescente, criando um monólogo musical poderoso mas concentrado.

A coesão coletiva dos Paralamas

Nos Paralamas, a introspecção existe mas não domina. Herbert também fala de dores e dúvidas, mas essas camadas convivem com observação social, humor e inventividade musical. A banda mantém equilíbrio entre o pessoal e o universal, entre a confissão e a narrativa aberta.

É por isso que os Paralamas envelhecem tão bem aos ouvidos maduros. Você pode apreciar “Vital e Sua Moto” pela história que conta, pelo groove irresistível, pelo diálogo entre baixo e bateria — independente de conhecer ou se identificar com a vida de Herbert.

Já “A Via Láctea” por exemplo, pede cumplicidade direta com a experiência de Renato para revelar todo seu peso.

O que muda no ouvido maduro

Dos 18 aos 50: a evolução da escuta musical

Aos 18 anos, música funciona quase como passaporte social. Curtimos o que está em alta, nos identificamos com movimentos, sentimos necessidade de pertencer. É natural e necessário — faz parte da construção de identidade.

Aos 50, essa urgência desaparece. O ouvido se torna mais exigente e, paradoxalmente, mais livre. Paramos de perguntar “todo mundo gosta?” e começamos a perguntar “isso funciona musicalmente?”.

Percebendo as nuances: o ouvido criterioso

Desenvolvemos capacidade de perceber nuances que antes eram invisíveis: a escolha precisa de um acorde, o silêncio estratégico, a química entre instrumentos.

Nesse estágio, a coesão dos Paralamas se destaca. A expressividade de Herbert, a inventividade de Bi e a precisão de João criam música que resiste ao tempo não por nostalgia, mas por substância.

Cada audição revela detalhes novos — uma virada de bateria inesperada, um contracanto de baixo que reestrutura a harmonia, um bend de guitarra que sintetiza emoção complexa em dois segundos.

A experiência mais estreita da Legião pós-As Quatro Estações

A Legião, especialmente após As Quatro Estações, oferece experiência diferente. Há beleza e coragem em sua vulnerabilidade crua, mas é uma estrada mais estreita.

Exige identificação profunda com a jornada pessoal de Renato para se tornar plenamente significativa. Quando essa conexão acontece, é poderosa. Quando não acontece, pode soar como insistência excessiva em questões alheias.

Liberdade de escolher sem culpa

Reflexão sobre gosto musical e maturidade

Refletir sobre Legião e Paralamas é também refletir sobre como o gosto musical se liberta das amarras sociais. Aos 50 anos, não preciso justificar preferências, não busco validação coletiva, não confundo popularidade com qualidade.

Reconheço o brilho dos primeiros discos da Legião e aceito que, depois dos quatro albuns iniciais, a banda deixou de conversar comigo — não por que era mal feito, mas por mudança de foco narrativo.

Descobertas contínuas nos Paralamas

Os Paralamas, por outro lado, continuam revelando camadas. Cada audição de Selvagem? ou Os Grãos traz descobertas — arranjos que antes pareciam óbvios agora mostram sofisticação, letras que soavam simples revelam ambiguidade intencional.

A maturidade auditiva não é sobre rejeitar o que amávamos antes. É sobre entender por que amávamos e decidir conscientemente se ainda faz sentido.

Música como experiência completa

A música, no fim, se torna experiência sensorial e intelectual completa — não mais muleta para pertencimento, mas fonte genuína de prazer estético.

E nessa jornada, é libertador poder dizer: ‘Agradeço pelo que a Legião representou, mas hoje minha sintonia é com os Paralamas’. Faço essa escolha sem culpa e sem aquela obrigação de ser nostálgico. É apenas a honestidade de um ouvido que aprendeu a preferir o diálogo da música feita em conjunto ao isolamento de um monólogo pessoal.

Além do mainstream: discos que realmente mudaram a minha audição:

Ou não: Walter Franco e os 52 anos do disco da mosca

10 Discos Fundamentais de Música Experimental Brasileira

Para mergulhar nos fatos (e sair um pouco do meu umbigo):

O veredito do meu ouvido (e o seu?)

É claro que tudo o que escrevi aqui passa pelo filtro dos meus próprios instintos e da forma como meus ouvidos aprenderam a selecionar o que faz sentido hoje. Música é, acima de tudo, perspectiva. Sei que, para muitos, o caminho pode ser exatamente o inverso: o conforto no confessional de Renato Russo tornar-se ainda mais essencial com o passar do tempo.

Não existe verdade absoluta quando o assunto é o que bate no peito. Mas e para você? O tempo também mudou sua forma de ouvir essas bandas ou sua fidelidade aos clássicos permanece intacta? Comenta aqui ai no formulário; quero entender como a sua jornada musical tem envelhecido

Deixe um comentário