Mistério de Silver Lake (Under the Silver Lake, 2018) – Crítica e análise do filme de suspense, mistério e conspirações

Sabe aquele amigo que sempre te chama no bar dizendo “cara, descobri uma teoria que explica tudo”? Ele começa falando de símbolos escondidos no rótulo da Coca-Cola e termina jurando que a Disney é controlada por uma seita de bilionários que dormem em pirâmides subterrâneas. Pois é: esse amigo ganhou um filme. O nome dele é Mistério de Silver Lake (Under the Silver Lake, 2018).

Eu, caí na armadilha de assistir achando que ia encontrar uma nova Bíblia das conspirações, um David Lynch da era dos memes. Mas o que vi foi Los Angeles transformada num tabuleiro de Ouija quebrado, com Andrew Garfield andando feito barata tonta, procurando mensagens em música pop, grafite de banheiro e revistas pornô mofadas.

E o pior: percebi que o filme é uma pegadinha. Ele ri da nossa cara enquanto a gente tenta decifrá-lo.

O protagonista loser de Under the Silver Lake – Andrew Garfield em busca de pistas

Sam, interpretado por Garfield, é um desempregado sem rumo, viciado em cultura pop e com uma tendência perigosa de achar que cada detalhe do mundo é um sinal secreto. Ele encontra uma vizinha misteriosa que fica sempre na piscina pelada, começa rolar um lance mas ela desaparece, e pronto: o cara entra em modo detetive iluminati.

Cada música da banda de garagem é analisada como se fosse um mantra maia. Cada anúncio de jornal parece um mapa de tesouro. Cada símbolo no muro vira uma mensagem dos “donos do mundo”. É engraçado porque é patético. E é patético porque parece a gente, navegando no YouTube às três da manhã, convencidos de que um videoclipe do Justin Bieber tem código da CIA escondido.

Andrew Garfield

Andrew Garfield, que já foi o “Miranha” mais limpinho da Marvel, aparece aqui como um fracassado no meio da LA de luxo. De chinelo, cabelo ensebado e cara de quem não pagou o condomínio, ele segura o filme com um tipo de vulnerabilidade que você não espera de um ex-Marvete. Sam é tão humano que incomoda: você não sabe se torce por ele ou se só quer mandá-lo tomar um banho.

Explorando Los Angeles no filme Mistério de Silver Lake – Caça a símbolos e mistérios

Depois de ver o filme, resolvi brincar de protagonista. O mundo lá fora parecia cheio de enigmas.

Na padaria, vi escrito “PROCURA-SE SENTIDO” no muro. Pensei: é uma deixa!.

O troco que recebi tinha um risco de caneta que lembrava a letra “S”. Será Silver Lake ou só azar da nota de 2 reais?

Um gato preto atravessou meu caminho e me encarou como se soubesse que eu era figurante da minha própria vida.

Andei pelas ruas com a paranoia do filme, esperando encontrar um culto secreto por trás do mercadinho do bairro. A realidade? Só encontrei um Jornal da igreja Universal prometendo “respostas definitivas”. O que, pensando bem, não é tão diferente do que o filme vende.

Rir do protagonista é fácil, mas se for honesto, você também já se pegou nessa. Reptilianos no governo? Terra plana? Adrenocromo? Você abre um vídeo no YouTube “só pra ver o que é” e, de repente, já está imaginando códigos secretos em comerciais de sabão.

O filme exagera, mas a piada funciona porque a obsessão do Sam é a nossa, só que com orçamento maior. No fim, a diferença é que ele corre atrás dessas maluquices de corpo e alma, e a gente só rola o feed, dá risada e continua fingindo que não se interessa demais.

O grande segredo (spoiler: não existe)

E aí chegamos ao coração do enigma: qual é o significado de Mistério de Silver Lake? Vou poupar seu tempo: o sentido é justamente a ausência dele. O filme é um Neo-Noir de bermuda tactel; ele usa toda aquela estética de suspense clássico de Hollywood — com uma trilha sonora que parece saída de um filme do Hitchcock — apenas para nos levar a um beco sem saída.

É uma sátira ácida sobre o vazio contemporâneo. Saturados de informação, preferimos inventar um culto secreto a encarar que a vida é um emaranhado de lixo pop e pistas falsas. Sam procura a “grande revelação” e só encontra gente rica rindo da sua cara. É o diretor, David Robert Mitchell, zombando da nossa mania de achar que o próximo vídeo de teoria no YouTube vai finalmente explicar o universo.

Uma pequena Crítica (com carinho)

O filme não é uma obra-prima incompreendida, é um filme esperto que às vezes tropeça na própria pretensão. Ele joga um caminhão de referências na tela — música retrô, quadrinhos obscuros, códigos de jornal — e se diverte vendo a gente tentar montar o quebra-cabeça. É uma colagem pop que funciona melhor como espelho do que como mapa.

Mesmo quando o roteiro parece um episódio mal editado de Arquivo X, a estética te segura. Los Angeles aparece como um cartão-postal rachado: piscinas vazias e festas intermináveis que parecem labirintos de um videogame mofado. Bagunça bonita também é arte, e ver o Andrew Garfield desmoronar em cena com aquele visual de quem não vê um sabonete há três dias vale o ingresso.

Andrew Garfield Dando Rolê de Pijama
Andrew Garfield Dando Rolê de Pijama

Conclusão e reflexão sobre Mistério de Silver Lake – O espelho da cultura pop

No fim, entendi o recado: a conspiração universal é só a gente mesmo, agarrado em qualquer migalha que nos faça acreditar que a vida não é só boleto e café frio.

Under the Silver Lake é mais um espelho rachado do que um mapa iluminado. Se você entrar na brincadeira, vai se divertir com a paranoia pop, com as teorias absurdas e com o Andrew Garfield desmoronando em cena. Se levar a sério, vai sair xingando e perguntando “perdi duas horas pra isso?”.

Mas olha só a ironia: enquanto você lê essa crítica procurando o significado de Mistério de Silver Lake, já caiu na armadilha do filme. O sentido é a ausência de sentido. E, no fim das contas, talvez a única pista verdadeira seja essa: a vida é só uma série de mensagens encriptadas que não levam a lugar nenhum.

E é aí que mora a graça.

Links like a sugar

🕵️‍♂️ E você, encontrou algum código escondido por aqui?

Se você também já se pegou tentando decifrar sinais no feed ou acha que tudo é uma grande encenação, deixa seu comentário aqui embaixo.

Ou melhor ainda: mande este texto para aquele amigo que vive mergulhado em teorias da conspiração. Se ele achar uma mensagem oculta entre as linhas desta crítica, a missão foi cumprida. 🤫

💬 Novo por aqui? Este blog é o mapa para quem cansou de seguir a manada e prefere analisar o mundo com um pouco de cinismo e muita curiosidade. Bem-vindo à toca do coelho.

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