Morbid Angel: Garden of Disdain – Uma análise sobre o horror cósmico e o descarte dos deuses

Se você procura novidade requentada, não tem. Este texto é sobre Morbid Angel, especificamente sobre o videoclipe de “Garden of Disdain”, faixa do álbum Kingdoms Disdained.

Muita gente vai perguntar por que resolvi dissecar um clipe que já tem alguns anos de estrada. A resposta é curta: aqui no Véi do Blogue o tempo não é ditado apenas por algoritmo, mas pela minha própria obsessão. Não sou portal de notícias; escrevo sobre o que me atinge. Resolvi falar de Garden of Disdain hoje porque hoje ele resolveu não sair da minha cabeça. Se o Death Metal do Morbid Angel é atemporal, a minha análise também pode ser.

Ficha Técnica:

Para quem gosta de nomes, datas e o rigor técnico que sustenta o pesadelo, aqui está o mapa da obra:

ItemDetalhes
BandaMorbid Angel
MúsicaGarden of Disdain
ÁlbumKingdoms Disdained (2017)
Direção e ArteNader Sadek (artista egípcio conhecido por trabalhar com efeitos práticos e estética de horror visceral)
Lançamento do Clipe8 de maio de 2018
Line-up na GravaçãoSteve Tucker (Vocal/Baixo), Trey Azagthoth (Guitarra), Scott Fuller (Bateria)
Conceito VisualInspirado em iconografia suméria, horror cósmico e o desdém pelas estruturas de controle humano.

Morbid Angel — “Garden of Disdain” de 2017

Existe uma categoria específica de coisa que te assombra não pelo medo, mas pela densidade. Quando algo carrega simbologia demais para ser digerida de uma vez, quando cada cena gera uma camada nova de interpretação que empurra a anterior para baixo sem destruí-la — você não descansa. Você fica voltando. Repassando. Rolando o vídeo de volta num estado que é quase meditativo e quase compulsivo ao mesmo tempo.

Foi assim que o clipe de Garden of Disdain me pegou.

Assisti uma vez. Fechei a aba. E a estrela preta metálica atravessando o espaço ficou comigo pelo resto do dia — e do seguinte. Assisti de novo. Passei dias carregando aquele universo dentro de mim como quem carrega uma pedra estranha no bolso — você esquece que ela está lá, mas a mão sempre volta para sentir o peso.

O que torna essa experiência tão inescapável é o modo como a imagem é soldada à massa sonora. O Death Metal praticado aqui pelo Morbid Angel abandonou qualquer pretensão de velocidade gratuita para se tornar pura gravidade. As guitarras de Trey Azagthoth não estão apenas entregando riffs; elas estão rastejando sobre o ouvinte. É um som lamacento, visceral, que parece ter a mesma consistência daquela cera vermelha que escoa pelo rosto do ser no trono.

Uma nave espacial piramidal de pedra e metal, com textura antiga e detalhes geométricos, flutuando em um cosmos vibrante e detalhado com nebulosas coloridas em azul, laranja e vermelho, e milhares de estrelas nítidas.
Uma nave espacial de pedra e metal, com textura antiga e detalhes geométricos, flutuando em um cosmos vibrante e detalhado com nebulosas coloridas em azul, laranja e vermelho, e milhares de estrelas nítidas.

Cada nota arrastada e cada batida de bumbo batem como o pulso mecânico de uma máquina de tortura muito antiga. Não é apenas música; é uma atmosfera opressiva para se habitar. Você sente o vácuo do espaço e o cheiro de ferrugem dos ganchos em cada distorção. É o Death Metal em seu estado mais litúrgico, onde o ritmo dita a velocidade com que você afunda naquela lama metafísica que o clipe de Garden of Disdain desenha com tanta precisão.


I. O Trono e o Prato de Ouro

No interior da estrela — que já é, por si só, uma anomalia: uma nave que não parece tecnológica nem orgânica, mas mineral, como se o universo tivesse coagulado ali num nódulo de intenção — existe um trono. E no trono existe uma coisa.

Chame de Enki se quiser. Chame de demiurgo. Chame de aquilo que cria porque precisa, não porque ama. O corpo é vermelho e derretido como cera escorrendo no sentido errado do tempo, os chifres pretos como obsidiana, o rosto numa expressão que só é reconhecível como rosto porque você é humano e o seu cérebro trabalha horas extras para encontrar humanidade mesmo onde não existe nenhuma.

Ele tem na frente um prato. Dourado com uma chama flamejante. E derrama nele algo que parece sangue mas é preto, espesso, com a textura de matéria-prima do universo — como se o cosmos tivesse uma bile e este ser a estivesse usando como pigmento, como feitiço, como o primeiro gesto de uma liturgia sem nome.

“Tudo que ele toca vira extensão do próprio corpo. Inclusive você.”


II. Os Casulos e a Eucaristia Invertida

Do prato nascem casulos. Brancos, translúcidos, com aquela qualidade de casinha provisória que a natureza constrói quando quer empacotar uma metamorfose. Dentro deles, formas que parecem crianças — seres novos, vulneráveis, carregando na estrutura corporal toda a ingenuidade que o universo reserva para os recém-chegados.

Os Casulos e a Eucaristia Invertida
Os Casulos e a Eucaristia Invertida

Eles saem. Chegam até ele. Reverenciam — e aqui o clipe faz seu primeiro golpe baixo filosófico, porque a reverência e a fome têm a mesma postura, a mesma aproximação, o mesmo olhar de cima para baixo em direção à fonte. E então eles comem. Mordem os braços derretidos do ser. Bebem da carne que é a mesma substância do sangue preto que os gerou.

Isso é uma inversão da Eucaristia que me fez parar o vídeo e ficar olhando pro teto. Na missa cristã, você come o corpo do deus para receber vida, salvação, pertencimento. Aqui, as criaturas comem o corpo do deus porque têm fome — e o deus sangra, e não faz nada, e isso parece parte do plano. A criação não foi feita para durar. Foi feita para se alimentar por um tempo suficiente para ser colhida.


III. As Correntes Hellraiser e o Ciclo Fechado

Saciados, os seres dormem. E então ele lança correntes — e aqui a referência ao universo de Hellraiser é direta e deliberada, ganchos que dilaceram, que puxam, que não distinguem punição de apetite. Ele os devora. E enquanto devora, as feridas fecham. A carne dos filhos sela os buracos que os filhos fizeram.

É um ciclo fechado de energia com uma elegância termodinâmica que é, ao mesmo tempo, bela e nauseante. Nada entra, nada sai. Ele cria do próprio sangue, alimenta com a própria carne, destrói para recuperar a própria forma. A criação é um processo digestivo. Os filhos são enzimas. O universo é um estômago muito, muito antigo.

Fiquei pensando em quantas cosmologias isso toca sem citar nenhuma diretamente: o Ouroboros que se devora sem começo nem fim; o Demiurgo gnóstico que cria o mundo material como uma armadilha para as almas; Saturno devorando seus filhos para não ser destronado; o deus que precisa de sacrifício não por vaidade, mas por sobrevivência metabólica.


IV. A Cápsula, a Semente e o Planeta Azul

Antes de partir, o ser faz algo que parece um gesto menor mas que ressignifica tudo que vem depois: ele pega os restos das criaturas que devorou — os fragmentos, os ossos moles, os pedaços de casulo que sobraram — e os embala numa cápsula. A cápsula é lançada pelo espaço.

E a cápsula chega a um planeta azul.

A implicação é perturbadora na sua simplicidade: os seres que habitam aquele planeta vieram daí. São o produto de um descarte. O que chamamos de origem da vida — aquela hipótese da panspermia cósmica, do DNA viajando pelo espaço em meteoritos, da faísca primordial chegando de fora — aqui é recontada como a história de um ser que jogou fora os ossos do jantar e, por acidente ou cálculo, semeou um mundo inteiro.

Somos os resíduos de um deus que estava com fome. Isso é poético de um jeito que dói.

"A adoração e a fome têm a mesma postura. O mesmo olhar. A mesma aproximação em direção à fonte.
“A adoração e a fome têm a mesma postura. O mesmo olhar. A mesma aproximação em direção à fonte.

Então a estrela negra chega de volta. E os habitantes adoram — porque é da natureza dos resíduos reconhecerem de onde vieram, mesmo sem saber que estão fazendo isso. Eles se aproximam do ser com a mesma reverência das criaturas dos casulos. E comem da sua carne. E o ciclo fecha.

Mas então o planeta explode.

A leitura imediata é parasitismo: o ser colhe o que plantou e descarta o recipiente. Mas há algo mais específico e mais cruel aqui. A religião que se formou em torno dele — essa adoração coletiva, esse sistema de crenças construído sobre o contato com a divindade — é a bomba. Não é o ser que destrói o planeta: é a própria fé que os habitantes construíram. A estrutura religiosa que prometia sustento e pertencimento foi, desde o início, o mecanismo de destruição. O que eles chamavam de salvação era o detonador.

Não é difícil segurar essa imagem sobre o mundo que conhecemos e sentir o peso dela.


V. A Hierarquia que não Tem Topo

O clipe termina com o protagonista — o ser do trono, que até então parecia o vértice de toda a cadeia — chegando a uma estrela maior. Entrando. E caminhando em direção a outro trono onde senta outro ser: andrógino, com chifres mais grosseiros maiores, presença mais densa.

O que me prendeu nesse segundo ser não foi o tamanho ou o poder. Foi o rosto.

Ele também está derretendo — mas de um jeito diferente. Líquidos escorrem pela face agelical e ao mesmo tempo deformada, mas não apenas em queda: eles parecem se mover em duas direções ao mesmo tempo, como maré que sobe e desce. Partes do rosto estão se dissolvendo; outras estão se reconstituindo. Há um traço angelical emergindo por baixo da cera que escoa, como se aquela forma grotesca fosse tanto a destruição quanto o nascimento de algo que já foi — ou ainda será — belo. É instável e doloroso e, estranhamente, esperançoso de um jeito que não tem nada de reconfortante.

Ambos estão em dissolução permanente. Existências que precisam desesperadamente de novos sacrifícios, de novo consumo, de novas criaturas para manterem uma forma que nunca será estável.

O protagonista reverencia.

E o vídeo acaba.

Não tem resolução. Não tem explicação. Tem apenas a confirmação de que o que você acabou de assistir — toda aquela cosmologia de criação e descarte e semente cósmica e explosão planetária — é apenas um nível intermediário de uma hierarquia que provavelmente não tem topo. Ou se tem, é tão distante que é funcionalmente indistinguível do infinito.

Isso me assombrou mais do que qualquer outra coisa. A ideia de que o horror não é a exceção mas a estrutura. Que o que parecia um monstro é apenas um funcionário. Que toda divindade é, em algum ponto acima dela, uma criatura com fome — e com um rosto que ainda tenta, contra tudo, se recompor.


Coda — Por que Isso Ficou

capa do album Kingdoms Disdained (2017) da banda de Death Metal Morbid Angel
Album Kingdoms Disdained (2017) da banda de Death Metal Morbid Angel

Não sei precisar exatamente o que faz um vídeo ficar. Imagino que seja a combinação de estranheza visual suficiente para não caber num conceito já existente com densidade simbólica suficiente para que cada assistida acrescente uma camada em vez de esclarecer. Garden of Disdain tem isso em quantidade industrial.

O Morbid Angel sempre operou nesse território onde death metal encontra ocultismo hermético e sai do outro lado como algo que não é exatamente música e não é exatamente filosofia mas é precisamente os dois ao mesmo tempo. Kingdoms Disdained, o álbum de onde vem a faixa, tem no título mesmo essa tese: reinos desdenhados, estruturas de poder que olham para baixo para tudo que criaram e sentem não amor, não orgulho, mas desdém.

O clipe é o desdém visualizado. A cápsula com os restos lançada pelo espaço é o gesto que define tudo: não foi amor que nos criou. Foi descuido. Ou estratégia. Ou fome ainda não saciada esperando o momento certo de voltar.

E eu ainda estou carregando essa pedra estranha no bolso.

Veja Garden of Disdain na íntegra

MORBID ANGEL – Garden Of Disdain (Official Video)

🖤 O Veredito: Garden of Disdain é um dos videoclipes mais densos do death metal — ou a gente ainda não entendeu o que o Morbid Angel colocou na tela?

Depois de mergulhar numa estrela preta que é nave, altar e estômago ao mesmo tempo — num demiurgo de cera que cria porque precisa consumir, semeia mundos com os ossos do jantar e reverencia algo ainda mais antigo e instável do que ele mesmo —, fica a pergunta que separa quem assistiu de quem realmente viu:

Garden of Disdain é a cosmologia mais honesta já colocada num videoclipe de metal — ou a gente nunca parou de verdade para entender o que está acontecendo em cada cena?

Você consegue assistir aquele ser de cera derramar o sangue preto no prato dourado, ver os casulos nascerem, as crianças comerem a carne que as gerou — e ainda assim sentir aquela coisa que o grande horror tem e que nenhum orçamento milionário consegue fabricar? Acha que a cápsula lançada pelo espaço é metáfora, acidente ou aviso? E, no fundo, o segundo ser com o rosto se refazendo te parece mais perturbador do que qualquer vilão que o cinema convencional inventou?

Desce nos comentários com a sua leitura — mas chegue preparado. 🖤

Uma estrela negra mineral. Um trono dentro do vazio. Um prato dourado com sangue que não é vermelho: tudo o que precisava para entender como criação e consumo são a mesma coisa — sem manual, sem redenção, sem filtro.

E você? Qual foi a primeira imagem do clipe que entrou na sua cabeça e não saiu mais? Já mostrou Garden of Disdain pra alguém sem avisar do que se tratava e ficou esperando a reação? Já tentou explicar por que uma cápsula com restos de criaturas devoradas virou a origem mais perturbadora que já vi para a vida num planeta azul — e ainda assim faz você entender criação e religião melhor do que muita aula de filosofia? Compartilha nos comentários.

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Álbum de retorno da formação clássica de Morbid Angel, lançado em 2017 e considerado por muitos fãs uma retomada da agressividade tradicional da banda após anos de silêncio em estúdio.

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