Poucos sabem o nome. Todo mundo na época já ouviu a música. Esta é a história da Vandenberg — e de um guitarrista que se recusou, por mais de 40 anos, a deixar sua chama se apagar.
Era 1982. Uma banda de quatro caras da Holanda entrou num estúdio na Inglaterra que pertencia a Jimmy Page — sim, aquele Jimmy Page — e gravou um álbum que ninguém esperava. O resultado? Uma balada chamada “Burning Heart” que chegou ao Top 40 americano, colocou a Vandenberg para abrir shows de Ozzy Osbourne e KISS, e deixou os críticos coçando a cabeça: de onde diabos vieram esses caras?
A resposta era simples e surpreendente ao mesmo tempo: dos Países Baixos. De um país que o mundo do rock dificilmente associava a riffs pesados e guitarras que sangram. Mas Adrian van den Berg — o guitarrista por trás de tudo isso — nunca ligou muito para o que o mundo esperava.
“Poucos álbuns de estreia de metal dos anos 80 são tão subestimados quanto o primeiro disco da Vandenberg.”
— AllMusic
Antes da Fama: Um Guitarrista Obcecado e uma Banda Chamada Teaser
A história começa em 1976, quando Adrian ainda era Adriaan van den Berg e fundou a Teaser — não a banda de hard rock britânico, a holandesa. Por cinco anos, ele e seus companheiros percorreram o circuito de bares e casas de show do Benelux e da Alemanha, aprendendo na prática o que nenhuma escola ensina: como segurar um público que mal sabe quem você é.
Não foi tempo perdido. A revista holandesa Muziekkrant Oor elegeu Adrian entre os dez melhores guitarristas do país — ao lado de Jan Akkerman, do Focus, um dos maiores guitarristas da Europa nos anos 70. Esse detalhe diz muito sobre o nível técnico e musical que Adrian já havia atingido antes mesmo de o mundo saber seu nome.
A virada veio em 1981. Com uma nova formação — o vocalista Bert Heerink, o baixista Dick Kemper e o baterista Jos Zoomer —, Adrian gravou uma demo. Ela chegou ao empresário Kees Baars, que enxergou no material algo raro: uma banda europeia com som americano, mas com alma própria. Baars assinou com a Atlantic Records nos EUA. A Teaser virou Vandenberg. E o jogo mudou.
O Estúdio de Jimmy Page e o Álbum que Ninguém Viu Chegar
Gravar nos Sol Studios — o estúdio pessoal de Jimmy Page, em Plumpton Place, na Inglaterra — não era detalhe decorativo. Era um sinal de que a Atlantic levava a sério o que tinha nas mãos. O álbum homônimo Vandenberg (1982) foi produzido pelo próprio Adrian com o engenheiro britânico Stuart Epps, e o resultado soou exatamente como deveria: grande, limpo, com aquele peso certo que não afasta o ouvinte casual mas tampouco envergonha o fã de metal.
As capas dos dois primeiros álbuns, aliás, foram pintadas pelo próprio Adrian — não por um designer contratado. Ele simplesmente se sentou, pegou os pincéis, e fez. Esse é o tipo de detalhe que conta uma história inteira sobre quem é esse homem.
⚡ O momento em que tudo mudou “Burning Heart” entrou no Billboard Hot 100 na posição 39. Para uma banda holandesa estreante, em 1982, isso era o equivalente a ganhar na loteria sem nem ter comprado o bilhete. A música abriu portas que normalmente levam anos para se abrir — ou nunca se abrem.
Com o single no bolso, a Vandenberg foi escalada para abrir shows de Ozzy Osbourne e do KISS em turnê pelos Estados Unidos. Imagina a cena: quatro holandeses no palco, antes dos reis do metal americano, com a missão de esquentar plateias que mal sabia como soletrar o nome deles. E funcionou.
Em 1984, a banda fez uma turnê independente no Japão — e descobriu um público que os adotou com uma lealdade que dura até hoje. O DVD desse show no Japão, lançado décadas depois, ainda vende.
Discografia: Três Álbuns, Trinta e Cinco Anos de Silêncio, e Dois Retornos

1982: Vandenberg
Estreia gravada no estúdio de Jimmy Page. “Burning Heart” no Top 40 americano.

1985: Alibi
Não emplacou. Heerink saiu. A banda se desmanchou sem alarde.

2020: 2020
Retorno com Ronnie Romero (ex-Rainbow) nos vocais. 35 anos de espera valeram.

2023: Sin
Com Mats Levén no vocal e nova formação sólida. Prova que a história ainda não acabou.
O Whitesnake, David Coverdale e as Músicas que o Mundo Inteiro Conhece
Quando a Vandenberg se desmanchou em meados dos anos 80, Adrian não desapareceu — ele simplesmente foi parar em um lugar ainda maior. David Coverdale, vocalista do Whitesnake, o convidou para integrar a banda em 1987. O álbum que veio em seguida vendeu mais de oito milhões de cópias só nos Estados Unidos.
Adrian está creditado na composição de dois dos maiores hits do disco:
- “Here I Go Again” — uma das baladas de rock mais tocadas da história das rádios
- “Is This Love” — chegou ao número 2 nas paradas americanas
Aqui cabe uma nota de honestidade: devido a uma lesão no pulso, Adrian não gravou todas as partes de guitarra do álbum — esse trabalho foi feito por John Sykes. Mas sua contribuição como compositor foi real, e seu nome está ali para provar.
“Burning Heart pode ter sido o começo. Mas ‘Here I Go Again’ é o que faz o mundo reconhecer o nome Adrian Vandenberg.”
A Briga Judicial que Quase Roubou o Nome da Banda
Em 2012, a história tomou um rumo que ninguém esperava — e que revela muito sobre o que acontece quando ex-membros de uma banda acham que têm direito a algo que nunca foi deles.
Os membros originais Bert Heerink, Dick Kemper e Jos Zoomer tentaram, via processo judicial, tomar o controle do nome “Van Den Berg” de Adrian. A lógica — se é que havia alguma — era que o sobrenome era de todos. O tribunal discordou. O nome ficou com quem sempre o carregou: o guitarrista que fundou tudo, batizou tudo e construiu tudo.
Ironicamente, a disputa só reforçou a determinação de Adrian de continuar. Em vez de guardar o nome na gaveta, ele foi em frente.
O Comeback de 2020: Melhor Tarde do que Nunca
Em janeiro de 2020, Adrian Vandenberg anunciou o retorno da banda com uma formação que fez as sobrancelhas dos fãs dispararem. Para os vocais: Ronnie Romero, o mesmo cara que Ritchie Blackmore escolheu para cantar no Rainbow reformado. Atrás da bateria: Brian Tichy (ex-Whitesnake). No baixo: Rudy Sarzo, um veterano que tocou com Ozzy Osbourne e Quiet Riot.
Era uma formação de all-stars — e o álbum 2020, lançado em maio daquele ano, soou exatamente como isso sugeria: pesado, melódico, sem disfarces modernos. Rock clássico feito por gente que sabe do que está falando.
Em 2021, o vocalista sueco Mats Levén assumiu o microfone — e ficou. Em 2023, com Levén, o baterista Koen Herfst e o baixista Randy van der Elsen, a banda lançou Sin. A chama que quase se apagou em 1985 estava, de novo, intacta.
Por que Você Deveria Se Importar com a Vandenberg Hoje
Existe uma razão simples para a Vandenberg ser relevante em 2025: eles nunca tentaram ser outra coisa. Em um mercado musical que recompensa a adaptação constante, Adrian Vandenberg passou 40 anos fazendo exatamente o que queria — hard rock com guitarra, melodia e alma — sem pedir licença para ninguém.
Isso é raro. E é por isso que “Burning Heart” ainda emociona, que fãs japoneses ainda guardam os ingressos do show de 1984, e que um cara de mais de 60 anos consegue montar uma nova banda e lançar um álbum que vale a pena ouvir do começo ao fim.
- Se você gosta de hard rock dos anos 80, os três primeiros álbuns são obrigatórios
- Se você só conhece “Burning Heart”, ouça Heading for a Storm inteiro — você vai se surpreender
- Se você acha que bandas velhas não têm mais o que dizer, ouça Sin (2023) e reveja sua opinião
- Se você é guitarrista, estude o estilo de Adrian Vandenberg: técnica a serviço da emoção, sem exibicionismo

Dúvidas sobre a banda
Qual a música mais famosa da Vandenberg?
“Burning Heart”, do primeiro álbum (1982). Chegou ao Top 40 americano e abriu portas que muitas bandas europeias jamais conseguiram nem encostar.
Adrian Vandenberg tocou de verdade no Whitesnake?
Tocou, e ainda compôs dois dos maiores hits do álbum de 1987 — “Here I Go Again” e “Is This Love”. Uma lesão no pulso o impediu de gravar todas as partes de guitarra do disco, mas sua pegada está no DNA das músicas.
A Vandenberg ainda está ativa em 2025?
Está, e com energia. O álbum Sin (2023) mostrou uma banda ainda com muito a dizer. Adrian não tem planos de parar.
Por onde começar a ouvir a Vandenberg?
Comece por “Burning Heart” para entender o apelo imediato da banda. Depois vá direto para Heading for a Storm — é o álbum que os fãs mais antigos consideram o pico criativo da fase clássica.
Citação sobre o Vandenberg aqui no blog: Bandas Obscuras de Hard Rock Anos 80: Os Tesouros Esquecidos da Década de Ouro do Rock
🔗 Links para Quem Não Acredita que a Vandenberg é Tão Boa Quanto Descrevemos (Ou Simplesmente Quer Ouvir “Burning Heart” Às 3 da Manhã sem Culpa)
- Site Oficial da Vandenberg — O quartel-general. Tour dates, músicas, vídeos e a prova de que Adrian Vandenberg, aos 70 anos, ainda parece mais animado com o rock do que você com qualquer coisa na vida. A seção de booking existe por um bom motivo: a agenda está sempre cheia.
- Encyclopaedia Metallum — Vandenberg — A bíblia do metal tem tudo. Discografia completa, todas as formações desde 1981, cada músico que passou pela banda e até o lado B daquele single japonês que você nunca vai encontrar em lugar nenhum mais. Se tem dúvida, aqui tem resposta.
- Encyclopaedia Metallum — Álbum de Estreia (1982) — A página do disco gravado no estúdio de Jimmy Page. Tracklist, lineup, informações de gravação e a nota média dos fãs que, décadas depois, ainda não perdoaram o mundo por ter subestimado esse álbum na época do lançamento.
- Mascot Records — Loja Oficial — Onde você compra Sin (2023) em vinil verde ou CD e finge para si mesmo que vai “só dar uma olhada”. Spoiler: você vai sair com pelo menos dois itens. O vinil assinado some rápido — não diga que não avisamos.
- Discogs — Vandenberg — Todas as prensagens, todas as versões, todos os preços de mercado. E também a prova irrefutável de que você deveria ter comprado o LP original de 1982 pela capa original quando ainda custava o preço de um almoço. Agora chore no Discogs pagando o que o colecionador japonês quer.
- Wikipedia — Vandenberg (banda) — Sim, tem uma página decente. Aprenda que Adrian também tocou com Rush, Scorpions e Michael Schenker Group em turnê, e que a briga judicial de 2012 pelo nome da banda terminou exatamente do jeito que você imagina: Adrian ganhou. O nome sempre foi dele.
- Last.fm — Vandenberg — Estatísticas, faixas mais ouvidas e a comunidade de fãs que scrobblam “Burning Heart” no trabalho em 2025 como se fosse completamente normal. É completamente normal. Não deixe ninguém te dizer o contrário.
- Instagram de Adrian Vandenberg — Guitarras, pinturas, bastidores de shows e a prova de que Adrian é aquele tipo raro de artista que é igualmente talentoso com a guitarra e com o pincel. 30 mil seguidores que sabem muito bem por que estão ali. Você vai entrar para ver uma coisa e sair 40 minutos depois.
- YouTube — Vandenberg “Burning Heart” ao Vivo — Para os corajosos que querem ver a diferença entre o single de 1982 e a versão ao vivo de 40 anos depois — e descobrir que Adrian ainda arranca o mesmo solo com aquela mesma seriedade de quem sabe exatamente o que está fazendo. Boa sorte não ficando por lá por uma hora.
Nota: Todos os links foram verificados e estavam ativos no momento da publicação. Se algum morreu, culpe a internet — a Vandenberg, essa, definitivamente não vai morrer. Quarenta anos de história e ainda em turnê provam isso. 🎸🔥
🎸 O Veredito: Obra-Prima Subestimada do Hard Rock ou Só Mais Uma Banda Europeia dos Anos 80?
Depois de mergulhar em quatro décadas de guitarras que sangram com precisão cirúrgica, um Top 40 americano conquistado de Amsterdã, shows abrindo para KISS e Ozzy, e um comeback que ninguém pediu mas todo mundo precisava, fica a pergunta que separa os curiosos dos convertidos:
A Vandenberg era uma banda que mereceu muito mais do que recebeu — ou chegou na hora errada, no país errado, e simplesmente não teve sorte?
Você consegue ouvir “Burning Heart” pela primeira vez em 2025 e ainda sentir aquela coisa que o hard rock dos anos 80 tinha e que ninguém mais consegue fabricar? Acha que Adrian fez a escolha certa ao entrar no Whitesnake — ou abandonou a própria banda no momento em que ela mais precisava dele? E, no fundo, prefere a urgência crua do primeiro álbum ou a maturidade calculada do Heading for a Storm?
Desce pro play nos comentários — mas chegue preparado. Se vier reclamar que “é coisa do passado” ou que “ninguém mais ouve isso”, é sinal de que você ainda não entendeu que bandas com essa qualidade não envelhecem. Elas só ficam mais difíceis de ignorar. 😏
⚠️ Aviso aos puristas do metal extremo: Comentários reclamando que “é melódico demais” ou que “não é pesado o suficiente” serão ignorados com a mesma elegância com que Adrian Vandenberg executa um solo — sem esforço aparente e com resultado devastador. Melodia e peso não são opostos. Nunca foram.
Quatro caras da Holanda. Quarenta anos de estrada. Uma única missão: provar que a Europa tinha algo a dizer ao hard rock mundial — com guitarra, melodia e sem pedir licença a ninguém.
E você? Qual foi a primeira música da Vandenberg que entrou na sua cabeça e não saiu mais? Já colocou “Burning Heart” pra alguém sem avisar que era de 1982 e ficou esperando a reação? Já tentou explicar pra um amigo por que um guitarrista holandês co-escreveu dois dos maiores hits do Whitesnake e ainda assim a própria banda dele é o capítulo mais interessante da história? Compartilha nos comentários — essa banda merece a conversa.
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.