Sinister Slaughter (1993) — O Grande Álbum Proibido do Macabre

Como uma banda de Chicago transformou a fascinação humana pelo crime em obra-prima do death metal


Prólogo: O que você está prestes a ouvir não deveria existir

Existe um tipo de álbum que só pode surgir em determinado lugar, em determinado momento, criado por determinado tipo de lunáticos com talento musical acima da média e zero interesse em agradar qualquer pessoa. Sinister Slaughter, lançado em 13 de abril de 1993 pelo selo Nuclear Blast, é exatamente esse álbum.

Vinte e um faixas. Vinte e um assassinos. Quarenta e poucos minutos de death metal, thrash, grindcore e humor negro que até hoje divide opiniões — e que, justamente por isso, nunca saiu do radar de ninguém que já o ouviu. Bem-vindo ao segundo álbum de estúdio do Macabre.


A Banda: Três Maníacos de Chicago

Integrantes da banda Macabre em ambiente rústico de madeira com mesa à frente e atmosfera sombria
Os integrantes do Macabre posam em cenário de estética rural e iluminação dramática, reforçando a identidade provocativa e teatral da banda.

O Macabre existe desde 1985, formado em Chicago por três músicos que nunca mudaram de ideia sobre o que queriam fazer com suas vidas. Em quase quatro décadas, a formação original permanece intacta — uma raridade absurda no metal extremo.

Corporate Death (Douglas Jonhnson) — guitarra e vocais principais. O sujeito por trás da maior parte das composições e da visão conceitual da banda. Seu nome artístico já diz tudo sobre o que o Macabre pensa da sociedade.

Nefarious (Charles Lescewicz) — baixo e vocais. Coautor das letras e responsável por boa parte da dimensão mais sombria e lírica da banda.

Dennis the Menace (Dennis Ritchie) — bateria. Um dos bateristas mais subestimados do death metal americano. Sua capacidade de alternar entre blast beats devastadores, grooves de thrash e passagens quase jazzísticas é o que dá ao Macabre sua identidade rítmica única.

Antes de Sinister Slaughter, o Macabre havia lançado Grim Reality (1987, demo) e o álbum de estreia Gloom (1989). Eram trabalhos que já apontavam para a obsessão da banda com crimes reais, mas foi com Sinister Slaughter que a visão se tornou totalmente realizada.


Trinta e oito anos de banda. Mesma formação. Mesmo assunto. Sem desculpas.


Chicago, 1992: A Última Gravação num Estúdio Lendário

O álbum foi gravado e mixado no Universal Studios de Chicago, Illinois, em setembro e outubro de 1992. Há uma nota de rodapé histórica extraordinária nesse detalhe: Sinister Slaughter foi a última gravação jamais realizada naquele estúdio antes de seu fechamento. Um álbum sobre morte gravado num lugar que estava morrendo.

A produção ficou a cargo de Jeff Cline (creditado como “The Max Mixer”), que também programou os efeitos de Synclavier espalhados pelo álbum — os samples e texturas que dão à obra sua atmosfera de true crime documentary sonorizado por uma banda de metal. Cline não era do mundo do metal; era um produtor de Chicago com experiência eclética, e isso se sente no resultado final. Sinister Slaughter soa diferente de qualquer outro disco de death metal de 1993 — mais tridimensional, mais cinematográfico.

O produtor executivo foi Markus Staiger, fundador da Nuclear Blast, que apostou no Macabre numa época em que a banda ainda era um nome underground de nicho.


A Capa: Pop Art com Sangue nas Mãos

Antes mesmo de dar o play, Sinister Slaughter já declara guerra às convenções com sua capa — uma paródia direta de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), o álbum mais icônico dos Beatles. Enquanto os Beatles reuniram celebridades e figuras históricas ao redor da banda na capa original, o Macabre substitui essas figuras por assassinos em série e assassinos em massa reais.

Mas o que torna a capa genial não é só a troca de personagens. É o contraste proposital entre a forma e o conteúdo.

O layout de Sgt. Pepper’s é colorido, alegre, quase circense — estética psicodélica que remete a alegria e celebração coletiva. Ao mantê-la intacta e apenas trocar os ídolos culturais por Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer, o Macabre expõe uma verdade desconfortável: a sociedade já trata assassinos como celebridades. A banda não inventou esse fenômeno — apenas tirou a máscara de seriedade que cobre o entretenimento macabro mainstream e mostrou o que sempre esteve por baixo.

Os membros posam no centro rodeados por monstros reais com a mesma displicência que os Beatles posaram cercados por seus heróis. O artista Dan Schneider executou o conceito desenvolvido por John Martin e Nefarious com fidelidade perturbadora ao original.

Esse sarcasmo visual é o primeiro sinal do que Sinister Slaughter vai fazer com você nos próximos quarenta minutos. Alguns varejistas se recusaram a expor o álbum. Isso só confirmou que a provocação havia funcionado.


A Música: O Gênio no Caos

Sinister Slaughter é um álbum difícil de classificar — e isso não é acidente. É política.

O Macabre nunca foi puramente death metal. A banda incorpora thrash metal, hardcore punk, grindcore, e até elementos melódicos e acústicos que surgem onde você menos espera. Quando o Metal-Archives e a Wikipedia chamam isso de “murder metal,” o termo é mais preciso do que parece — porque o que define o gênero do Macabre não é uma técnica, é um tema.

Cada faixa de Sinister Slaughter muda de estilo para se adequar à história que conta. Uma faixa sobre um assassino frenético e impulsivo recebe blast beats de grindcore. Uma faixa sobre um criminoso calculista e metódico pode ter um riff thrash mais lento e pesado. Uma faixa sobre um crime perturbadoramente banal pode trazer elementos acústicos que criam um contraste ainda mais sombrio do que qualquer distorção conseguiria. A música não apenas acompanha a narrativa — ela é a narrativa.

Isso significa que Sinister Slaughter só existe como álbum de murder metal. Tirando os assassinos, você teria uma coleção de músicas incategorizáveis. Com eles, você tem uma obra com lógica interna inquebrável.


Vinte e um casos. Vinte e um estilos. Zero concessões.


Os Vocais: Teatro de Horrores

A primeira barreira para quem ouve o Macabre pela primeira vez são os vocais de Corporate Death. Não existe categoria fácil para o que ele faz. Não é um gutural profundo como o de Chris Barnes, não é o berro cortante de Tom Araya. O que Corporate Death faz é histrionismo puro — uma performance vocal que pertence mais ao teatro expressionista do que ao metal extremo convencional.

Num mesmo verso ele pode soar como um narrador maníaco descrevendo uma cena de crime, saltar para um grito que simula o frenesi do assassino no momento do ataque, e recuar para uma entonação quase sarcástica, como se estivesse zombando da vítima, do criminoso e do ouvinte ao mesmo tempo. É perturbador porque é bom. Não é incompetência — é escolha deliberada.

Pense num ator de Grand Guignol que aprendeu death metal. Esse é Corporate Death.

Os growls graves de Nefarious entram como um segundo personagem nesse teatro de horrores — mais viscerais, mais animais, criando um diálogo entre o narrador e o monstro dentro da mesma faixa. Para quem está acostumado com o gutural padrão do death metal da Florida ou a aspereza do black metal norueguês, os vocais do Macabre soam fora de lugar. E é exatamente esse desconforto que é a mensagem.

A Bateria de Dennis the Menace

Dennis the Menace é o coração do álbum. Ele consegue executar blast beats de grindcore e logo em seguida entrar num groove de thrash que faz a cabeça balançar involuntariamente. Em faixas mais longas como “Zodiac” (3:46) e “Vampire of Dusseldorf” (2:43), ele demonstra controle dinâmico raramente associado ao metal extremo da época.

A Guitarra: Riffs como Armas

Corporate Death é um guitarrista de escola thrash que entrou para o death metal sem abandonar o que o fez apaixonar pela guitarra. Os riffs de Sinister Slaughter são grudantes, pesados e, em muitos momentos, surpreendentemente melódicos. Não há showmanship gratuito — cada riff serve à narrativa da faixa.


As Faixas: Um Museu de Horrores

Sinister Slaughter conta a história de 21 casos criminais reais através de 21 faixas. É uma obra conceitual, mas não no sentido grandioso e progressivo do rock — é conceitual como um arquivo de fichas criminais musicadas. Cada nome no encarte é real. Cada crime aconteceu. Cada faixa é um dossiê.


“Night Stalker” abre o álbum com um sample cinematográfico antes de explodir em thrash pesado sobre Richard Ramirez, o serial killer californiano que aterrorizou Los Angeles entre 1984 e 1985. Satanista autodeclarado, arrombador de residências, estuprador e assassino em série, Ramirez entrou pela janela de mais de 25 casas antes de ser preso por uma vizinhança que o reconheceu na rua e o deteve com as próprias mãos antes da polícia chegar. O Macabre começa o álbum pelo terror mais recente da memória americana e já entrega a proposta do disco: nenhuma ficção necessária.

“The Ted Bundy Song” é uma das mais curtas do álbum (1:19) e mais diretas. Ted Bundy — provavelmente o serial killer mais midiatizado da história americana — recebe um tratamento quase caricato, o que é, de certa forma, o comentário mais inteligente possível sobre como a mídia construiu Bundy como celebridade. Enquanto todo o complexo industrial do true crime transforma Bundy em ícone sinistro e sedutor, o Macabre dá a ele pouco mais de um minuto e passa para o próximo.

“Sniper in the Sky” trata de Charles Whitman, o atirador da Torre da Universidade do Texas em 1966 — um dos primeiros mass shootings televisionados da história americana. Veterano e estudante de engenharia, Whitman subiu ao topo da torre com um arsenal e abriu fogo durante 96 minutos, matando 16 pessoas e ferindo dezenas. Uma nota que ele deixou antes do ataque revelou que ele próprio não compreendia o que o movia a agir. A necrópsia revelou um tumor no cérebro — detalhe que alimenta discussões até hoje sobre responsabilidade criminal e neurologia. O Macabre não resolve essa questão. Só documenta.

“Montreal Massacre” é uma das faixas mais carregadas politicamente do álbum. Em 6 de dezembro de 1989, Marc Lépine entrou na École Polytechnique de Montreal com um rifle semi-automático, separou homens de mulheres numa sala de aula e atirou nas mulheres declarando que estava lutando contra o feminismo. Quatorze mulheres mortas. O Macabre não edita, não suaviza e não contextualiza além da narrativa — e essa decisão, por si só, já é uma posição.

“Zodiac” é a faixa mais longa do álbum (3:46) e uma das mais elaboradas musicalmente. Um detalhe fascinante: partes das letras foram extraídas dos próprios textos criptografados que o Zodiac Killer enviou à imprensa nos anos 60 e 70 — documentos reais de um criminoso que nunca foi identificado. O Macabre usou o material de alguém que ainda pode estar vivo enquanto o álbum foi gravado. É uma decisão artística que cruza a linha entre documentação e arte de forma genuinamente perturbadora.

“Jack Graham” trata de um dos casos mais frios da história criminal americana. Em 1955, Jack Gilbert Graham colocou uma bomba na bagagem do avião em que sua própria mãe viajava para receber o seguro de vida dela. United Airlines Voo 629. 44 mortos. Graham foi executado em 1957 sem demonstrar arrependimento perceptível. O Macabre tem um apreço especial por casos em que a motivação é tão banal quanto o dinheiro — o que de certa forma é mais perturbador que qualquer patologia elaborada.

“Howard Unruh” documenta o que muitos historiadores do crime consideram o primeiro mass shooting moderno americano. Em setembro de 1949, Howard Unruh saiu de casa em Camden, Nova Jersey, e matou 13 vizinhos em 12 minutos numa caminhada que ficou conhecida como “Walk of Death”. Veterano da Segunda Guerra, Unruh nunca foi julgado por insanidade mental — foi internado num hospital psiquiátrico e morreu lá em 2009, aos 88 anos. Nunca foi a julgamento. Nunca foi condenado formalmente.

“Is It Soup Yet?” trata do caso de Daniel Rakowitz, que em 1989 matou sua namorada em Nova York e, segundo as acusações, cozinhou partes do corpo e serviu em um abrigo para sem-teto no Tompkins Square Park. O título é uma das coisas mais perturbadoras e ao mesmo tempo mais absurdamente negras do álbum — e é exatamente aí que o Macabre opera com mais desenvoltura: no limite impossível entre o humor e o horror.

“Mary Bell” é provavelmente o caso mais desconfortável de todo o disco — e isso é muito dizer, considerando a vizinhança. Em 1968, em Newcastle, Inglaterra, Mary Bell tinha 11 anos quando matou duas crianças pequenas, de 3 e 4 anos. Foi condenada por homicídio culposo e solta aos 23. O Macabre não poupa os casos que desfazem qualquer narrativa simples de “monstro adulto”. Uma criança matando outras crianças é o tipo de horror que não cabe em nenhuma categoria fácil — e a banda sabe disso.

“Patrick Sherrill” documenta o massacre postal de Edmond, Oklahoma, em 1986. Patrick Sherrill, funcionário dos Correios prestes a ser demitido, chegou ao trabalho armado e matou 14 colegas antes de se suicidar. O episódio foi tão marcante que originou a expressão “going postal” no vocabulário americano — uma frase que entrou na linguagem cotidiana como eufemismo para explodidão de raiva no ambiente de trabalho. O Macabre tem um talento particular para escolher casos que deixaram marcas na cultura popular americana sem que a maioria das pessoas saiba a origem.

“Gacy’s Lot” é dedicada a John Wayne Gacy, o “Killer Clown” que enterrou 33 vítimas sob sua casa em Chicago — a mesma cidade do Macabre. Há algo diferente nessa faixa. Chicago aparece algumas vezes no álbum, mas Gacy operou no mesmo território onde a banda cresceu. Isso não é nostalgia. É outra coisa.

“What’s That Smell?” aborda Jeffrey Dahmer, cujos crimes foram revelados ao público apenas em 1991 — dois anos antes do álbum. O Macabre capturou Dahmer no momento em que ele era a história de horror mais fresca do imaginário coletivo americano, antes que o verdadeiro ciclo industrial do true crime o transformasse em camiseta e série da Netflix.

“Peter Kurten” — o “Vampiro de Düsseldorf” — é um dos casos mais antigos do álbum. Serial killer alemão ativo nos anos 20, Kurten foi responsável por uma série de assassinatos e ataques em Düsseldorf que aterrorizaram a República de Weimar. Executado em 1931, sua última fala relatada é um dos documentos mais perturbadores da psicopatologia criminal — ele perguntou ao carrasco se conseguiria ouvir seu próprio sangue jorrando depois que a guilhotina caísse. O Macabre tem uma fascinação particular por Kurten que aparece em outros álbuns da banda também.

“Edmund Kemper Had a Horrible Temper” é uma das favoritas dos fãs — o título já é uma obra de arte em si, e a faixa entrega exatamente o que promete: velocidade, raiva e um riff que gruda na cabeça de forma vagamente perturbadora. Kemper matou sua avó e avô aos 15 anos, foi internado, liberado, e depois matou mais 8 pessoas incluindo sua própria mãe. Em entrevistas, demonstrou inteligência e articulação que desconcertaram investigadores. O FBI usou suas entrevistas para desenvolver técnicas de perfilamento criminal. Kemper ajudou a criar a metodologia que seria usada para caçar pessoas como ele.

“Richard Speck” assassinou 8 estudantes de enfermagem em Chicago em uma única noite, em julho de 1966. Entrou num dormitório e, ao longo de horas, levou cada vítima a um quarto separado enquanto as demais esperavam sem saber o que acontecia. Uma sobreviveu — escondida debaixo de uma cama, conteve a respiração a noite inteira. Seu testemunho foi o que condenou Speck. Outro caso de Chicago. O álbum está cheio deles.

“Bela Kiss” é um dos casos não resolvidos do disco — e o Macabre claramente tem um apreço por criminosos que escaparam da justiça. Kiss era um húngaro que no início do século XX preservava corpos de suas vítimas em barris de metal no quintal, com gás. Quando as autoridades foram investigar a propriedade em 1916, ele havia desaparecido. Nunca foi encontrado. Nunca foi capturado. Há relatos não confirmados de avistamentos em diferentes países por décadas. É o tipo de caso que não tem encerramento, e o Macabre não tenta inventar um.

“Albert DeSalvo” — o “Estrangulador de Boston” — foi condenado como responsável por 13 mortes entre 1962 e 1964, embora sua culpa tenha sido questionada por investigadores e pesquisadores por décadas. DeSalvo nunca foi julgado pelos assassinatos em si — foi condenado por outros crimes e confessou as mortes de forma que muitos especialistas consideram inconsistente com as evidências. Em 2013, testes de DNA finalmente ligaram ele a uma das vítimas, parcialmente resolvendo uma controvérsia de cinquenta anos. O Macabre gravou a faixa quarenta anos antes desse resultado.

“Charlie Chop-Off & The Vampire of Sacramento” é uma das raras faixas que empacota dois casos num único título. “Charlie Chop-Off” foi o apelido dado a um atacante não identificado de crianças no Harlem no início dos anos 70 — o caso nunca foi totalmente resolvido. Richard Chase, o “Vampiro de Sacramento”, foi um serial killer californiano de 1977-1978 com um histórico de doença mental grave que nunca deveria ter tido acesso a armas. O Macabre junta os dois num único bloco e segue em frente — às vezes o arquivo criminal não tem espaço para cerimônias.

“Helter Skelter” trata de Charles Manson e a família — tecnicamente não um serial killer solitário, mas uma seita que cometeu os assassinatos Tate-LaBianca em 1969, em parte inspirada por uma interpretação delirante de músicas dos Beatles. O Macabre expandiu o escopo do álbum além do perfil clássico de assassino em série, e Manson cabe nesse arquivo como um caso especial: o assassino que não matou pessoalmente, mas organizou. Um dos poucos casos no disco que é sobre poder e manipulação tanto quanto sobre violência.

“Albert Was Worse Than Any Fish in the Sea” fecha o álbum com Albert Fish, um dos casos mais perturbadores da história criminal americana — um homem cujos crimes desafiam qualquer tentativa de compreensão racional. Ativo nas primeiras décadas do século XX, Fish era um avô aparentemente inofensivo que abusou, torturou e matou crianças por décadas sem ser detectado. Suas cartas para as famílias das vítimas são documentos que nenhum arquivo criminal deveria ter que conter. O Macabre escolheu encerrar o álbum com o caso mais pesado de todo o disco. Não há resolução. Não há catarse. O arquivo simplesmente… fecha.


O Contexto: 1993 e a Obsessão com True Crime

Sinister Slaughter chegou num momento específico da cultura americana. 1991 havia revelado Jeffrey Dahmer ao mundo. John Wayne Gacy seria executado em 1994. O true crime estava se tornando mainstream muito antes dos podcasts — pelos tabloides, pelos programas de TV sensacionalistas, pelos livros de crime verdadeiro que lotavam as prateleiras das livrarias americanas.

O Macabre fez o que artistas sérios fazem: pegou uma obsessão cultural e a devolveu ao público em forma mais honesta. Enquanto a mídia vendia Dahmer e Bundy como entretenimento disfarçado de jornalismo, o Macabre colocou os assassinos num álbum de death metal e deixou claro o que estava fazendo. A diferença moral entre o Dateline NBC de 1993 e Sinister Slaughter é menor do que parece.


A Recepção: Cultuado, Não Compreendido

Na época do lançamento, Sinister Slaughter circulou principalmente nos circuitos underground do metal extremo. A Nuclear Blast era ainda uma label alemã em expansão, e o álbum encontrou audiência principalmente na Europa e nos EUA entre fãs de death metal que buscavam algo diferente do Cannibal Corpse e do Death.

O Metal-Archives registra 8 reviews com média de 96% — um número extraordinário para qualquer álbum, e especialmente para um álbum tão polarizador.

Décadas depois, o disco ganhou status de clássico cult. Em 2023, a Nuclear Blast lançou uma edição comemorativa de 30 anos — a “Sinister Splatter Edition” — em vinil, cassete e CD, confirmando que o álbum sobreviveu ao tempo e ao escrutínio.

Banda Macabre tocando em um festival em 2022
Banda Macabre Humor negro SEM LIMITES tocando em algum festival de 2022

O Legado: Por Que Sinister Slaughter Ainda Importa

Sinister Slaughter importa por várias razões que vão além do entretenimento:

É um arquivo histórico. As faixas funcionam como pequenas cápsulas do tempo sobre casos criminais reais. Quem ouve “Montreal Massacre” aprende sobre Marc Lépine e o ataque de 1989 à École Polytechnique. Quem ouve “Vampire of Dusseldorf” encontra Peter Kürten, um criminoso dos anos 1930 que pouquíssimas pessoas fora da Europa central conhecem.

É musicalmente mais rico do que parece. A percepção de que o Macabre faz “música de piada” é um equívoco. Sinister Slaughter exige músicos competentes para ser executado — e a competência está lá, muitas vezes disfarçada pela velocidade e pelo humor.

Antecipou a cultura true crime. Trinta anos antes de My Favorite Murder e de podcasts com milhões de ouvintes dedicados a crimes reais, o Macabre já estava explorando — e questionando, à sua maneira — a fascinação humana pelo mal. A diferença é que o Macabre nunca pretendeu que estava fazendo outra coisa.

Demonstrou que o metal extremo pode ser intelectualmente honesto. O Macabre não romantiza os assassinos — não os torna heróis. As letras descrevem os crimes com distância jornalística ou com escárnio explícito. “James Pough, What the Hell Did You Do?!” não é uma celebração — é uma pergunta.


Notas Finais: O Álbum que Inventou uma Indústria sem Receber Crédito

Sinister Slaughter foi gravado em 1992, lançado em 1993, e soa tão fora de lugar hoje quanto soava então — e isso é um elogio absoluto.

Pense no que existe hoje: podcasts de true crime com dezenas de milhões de ouvintes, séries da Netflix dedicadas a reencenar os crimes de Ted Bundy e Jeffrey Dahmer com atores famosos, livros de curadoria de assassinos que vendem em aeroportos, merchan de serial killers. A obsessão humana pelo mal se transformou num modelo de negócio bilionário.

O Macabre estava fazendo exatamente isso em 1993. Sem algoritmo. Sem patrocinador de colchão. Sem apresentador carismático explicando por que é moralmente aceitável se fascinar com atrocidades. Eles simplesmente pegaram 21 assassinos, escreveram uma música para cada um, e pediram que o ouvinte se confrontasse com o fato de que já sabia quem eram Ted Bundy e Jeffrey Dahmer antes de colocar o disco para tocar.

Sinister Slaughter não envelheceu porque a matéria-prima de que é feito — a fascinação humana pela violência extrema — é atemporal. O que mudou foi apenas a embalagem. O Macabre nunca se importou com embalagem.

O Macabre sempre foi sua própria coisa. Uma banda que não tentou encaixar em nenhuma subcena, que não mudou de direção para agradar críticos, e que nunca fingiu ser mais profunda ou mais superficial do que é.

É um álbum sobre morte que pulsa de vida. É um álbum sobre monstros feito por pessoas que claramente adoram música de verdade. É perturbador, hilário, pesado, inteligente e único.

E foi a última gravação feita num estúdio de Chicago que não existe mais.

Há uma poesia nisso que o Macabre provavelmente aprecia.


“Established 1985 — All original members. Delivering quality murderous music from Chicago.”
— Macabre, auto-descrição oficial


Ficha Técnica — Sinister Slaughter (1993)

Banda: Macabre | Lançamento: 13 de abril de 1993 | Gravadora: Nuclear Blast Records | Gravado em: Universal Studios, Chicago, IL (set./out. 1992) | Produção: Jeff Cline e Macabre | Duração: ~41 minutos | Faixas: 21

Veja também: Death Metal, Zé do Caixão e uma noite de terror em São Paulo em 1994 -> a primeira vez que ouvi essa banda sinistra

🔗 Links para Quem Não Acredita que o Macabre é Tão Perturbador Quanto Descrevemos (Ou Quer Provas Sonoras do “Murder Metal”)

  • Encyclopaedia Metallum – Macabre – A bíblia do metal underground tem TUDO sobre a banda. Discografia completa, formações originais e toda a glória do “murder metal” de Chicago desde 1985.
  • Encyclopaedia Metallum – Sinister Slaughter – A página oficial do álbum na enciclopédia. Tracklist completa com todos os 21 assassinos seriais imortalizados, lineup e versões. Nota média de 96% — os fãs não brincam.
  • Bandcamp Oficial – Sinister Slaughter – O próprio Macabre vendendo o disco direto pra você. LP em vinil laranja com splatter branco ainda disponível. Compre antes que os 1100 exemplares sumam e você chore no Discogs pagando o triplo.
  • Discogs – Sinister Slaughter – Todas as prensagens, versões, valores de mercado e a prova irrefutável de que você deveria ter comprado a prensagem original de ’93 quando teve a chance.
  • Last.fm – Macabre – Estatísticas, faixas mais ouvidas e a comunidade de maníacos que scrobblam “Vampire of Düsseldorf” no trabalho como se fosse completamente normal.
  • Wikipedia – Sinister Slaughter – Sim, a Wikipedia tem uma página. Aprenda que a capa é uma paródia do Sgt. Pepper’s dos Beatles e que o disco foi o último gravado nos famosos estúdios Universal em Chicago. Contexto histórico com um toque de loucura.
  • Decibel Magazine – Análise de Sinister Slaughter – Matéria aprofundada com entrevistas dos próprios membros da banda. Para quem quer ler gente séria tentando descrever algo que vai além de qualquer rótulo.
  • YouTube – Sinister Slaughter Completo – Para os corajosos que querem ouvir todos os 21 assassinos seriais em sequência às 3 da manhã. Ted Bundy, Richard Speck, John Wayne Gacy… boa sorte dormindo depois.

Nota: Todos os links foram verificados e estavam ativos no momento da publicação. Se algum morreu, culpe a internet — o Macabre, esse, nunca vai morrer. 🔪💀

🔪 O Veredito: Obra-Prima do “Murder Metal” ou True Crime com Guitarra Desafinada?

Depois de passar por 21 retratos sonoros de serial killers, canções que mesclam thrash, death, grindcore e até jazz sem pedir licença a ninguém, fica a pergunta que separa os curiosos dos convertidos:

O Macabre era uma banda de metal extremo com visão artística única ou apenas três caras de Chicago obcecados com assassinos em série?

Você consegue ouvir uma música sobre o John Wayne Gacy e ainda assim achar genial a forma como eles narram o horror com uma melodia quase infantil? Acha que a mistura de estilos era visão avant-garde ou só falta de foco? E, no fundo, prefere a brutalidade crua do Grim Reality ou a épica sinfonia de assassinos do Sinister Slaughter?

Desce pro play nos comentários — mas chegue preparado. Se vier reclamar que “é estranho demais” ou “mistura coisas que não combinam”, é sinal de que você ainda não entendeu que essa era exatamente a intenção. 😏

⚠️ Aviso aos puristas do death metal ortodoxo: Comentários reclamando que “tem partes engraçadas” ou que “não é sério o suficiente” serão ignorados com a mesma tranquilidade que o Corporate Death teve ao nomear um álbum inteiro com serial killers reais. O humor negro é parte do DNA — se não entendeu o conceito, ouça de novo.

Três caras de Chicago. Trinta anos de carreira. Uma única missão: documentar o pior da humanidade com a melhor das riffs.

E você? Qual foi o primeiro serial killer que você conheceu pela voz do Macabre antes de saber que era real? Já tocou uma faixa do Sinister Slaughter pra alguém sem avisar do que se tratava? Compartilha nos comentários sua história com essa banda absolutamente inclassificável.

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