Um Show do Ratos de Porão em 1992!!! A orelha direita latejava. Não de dor — de volume. O baixo do Ratos martelava no peito como um coração que decidiu trabalhar fora do horário e sem aviso. Era 1992, e eu, Junior e Roberto tínhamos 16 anos e nenhum bom senso. Exatamente a combinação certa para aquela noite.
O começo da coleção de discos: o presente da Folha de S.Paulo
A porta de entrada foi o Junior. Mais especificamente, o irmão dele, que trabalhava na Ilustrada, o caderno de cultura da Folha de S.Paulo. Para o adolescente faminto por música, isso era o equivalente a ter um parente que trabalhava na casa da moeda.
O cara tinha pilhas de discos de vinil, todos carimbados com aquele “amostra grátis” dourado que as gravadoras mandavam pros jornalistas. Para a gente, era um tesouro pirata com nota fiscal. Ele emprestava, a gente gravava em fita K7 — aquelas fitas Maxell que a gente revertia com lápis BIC para aproveitar os dois lados até a morte —, e ainda vendia os repetidos por preço de banana. Foi ali que minha coleção começou: discos carregados de história, cheirando a redação de jornal e a cigarro barato de jornalista.
Cada faixa soava como um visto num passaporte para um mundo que não era o da escola nem o da família.
O começo da coleção de discos: o presente da Folha de S.Paulo
O irmão do Junior não parava nos discos. Ele tinha também ingressos de shows, que nos passava por trocados ou de presente quando a consciência pesava. E assim, mesmo sem barba na cara, vimos coisas incríveis naquela época: Iron Maiden no Parque Antárctica em 1992, Metallica lançando o Black Album, Sepultura no auge do Arise, shows do Viper, do DeFalla e — não pergunte como — até do Luciano Pavarotti. Dezesseis anos, e achávamos que já tínhamos entendido o mundo.
Era outra configuração de show. Não tinha grade de segurança gigante separando o público do palco como se fosse zoológico. Não tinha área VIP com camarote para quem pagou mais para ficar longe da música. O público era uma massa viva, um organismo com vontade própria. E a gente lá, no meio, tentando fingir que sempre soube o que estava fazendo.
O ápice: o show do Ratos de Porão na Casa Britannia
E então chegou a noite que não sai da cabeça até hoje.
Show do Ratos de Porão na Casa Britannia, Vila Mariana. A banda estava divulgando o Anarkofobia, lançado em 1991, e o clima era de violência sonora pré-combinada — todo mundo sabia que ia machucar e todo mundo tinha comprado ingresso para isso. João Gordo não cantava: cuspia palavras no microfone como se estivesse acertando um soco na boca de quem lhe devia dinheiro. A banda descia riffs que mais pareciam contas para cobrar.
No ingresso, com uma fonte de tamanho razoável: Proibido para menores de 18 anos. Ignoramos com a eficiência característica de quem ainda acredita em invencibilidade. Com o passaporte providenciado pelo nosso contato e a cara de pau que só funciona antes da vida te ensinar o contrário, entramos como se fôssemos donos do lugar — e do alvará de funcionamento.
O ambiente era um caldeirão com gente se jogando de bom grado nele. Punk, metal, careca, metaleiro, tudo junto numa sopa que não tinha cardápio. O público suava, se jogava, caía, levantava, eventualmente pisava em quem tinha caído e seguia em frente. Era caos de alta eficiência. Era a diferença entre ouvir o RDP em casa e estar no RDP — o mesmo abismo que existe entre ler sobre afogamento e estar se afogando.
O Sepultura já era sucesso mundial e alavancava bandas pesadas brasileiras no circuito. Mas o RDP tinha sua própria galera, gente que não queria internacionalização nem capa de revista — queria barulho e verdade suja. Brasil e Anarkofobia eram discos que faziam a gente bater cabeça até cansar, e então continuava batendo. A gente se jogava na roda, saía suado com hematomas de procedência incerta, e achava que aquilo era a forma mais honesta de sentir qualquer coisa.
João Gordo gritava: “Beber até morrer essa é a solução, o tédio te domina a vida não dá tesão.”
Dezesseis anos e aquilo fazia todo sentido do mundo.

A batida policial: quando a diversão vira problema
is que, no auge do frenesi, entram os homens de farda e cara fechada. Polícia civil, armada, revistando todo mundo com aquela intimidade constrangedora que só a farda autoriza. A cena era digna de um filme B — exceto que a gente estava dentro do filme e sem direito a crédito no final.
Nos pegaram sem drama: três moleques de 16 anos num evento proibido para menores, com cara de culpados antes mesmo de abrir a boca.
Não fomos presos. Fomos expulsos — jogados na madrugada fria da Vila Mariana, sem dinheiro, sem ônibus, sem celular (o celular ainda era coisa de novela), e sem o mínimo de estratégia de saída. O que tínhamos era suor frio, o cheiro de cerveja barata impregnado na camisa, e o barulho do show ainda soando dentro da cabeça como um zumbido com letra.
A saga da caminhada: da Vila Mariana à Lapa
A saída foi caminhar. Não por escolha filosófica — por falta de alternativa.
Saímos da Britannia e começamos a atravessar São Paulo a pé, às madrugada, que é quando a cidade para de fingir que é civilizada. A Avenida Paulista naquele horário não era a Paulista de cartão postal. Era uma faixa de asfalto sob prédios que, sem a correria do dia, pareciam coisa de outro planeta — concreto e vidro em silêncio absoluto, vigiando a gente de cima com a indiferença de quem já viu coisa pior.
Descemos até o Pacaembu pela calçada do cemitério do Araçá. Passos ecoando. Um ou outro carro que aparecia e sumia rápido demais para ser reconfortante. Na Praça Charles Miller, o vento frio batia forte, e toda sombra tinha potencial de ser coisa ruim — um ladrão, um careca mal-encarado, outro camburão pronto para transformar a noite em problema burocrático.
Quando chegamos ao Minhocão, o silêncio era do tipo que faz a gente inventar sons. A bota do Roberto ecoava no concreto como trilha sonora de filme de terror italiano de segunda categoria. A cada esquina, um olhar trocado — o tipo de olhar que não precisa de legenda, porque a mensagem é sempre a mesma: você também está com medo ou sou só eu? Piadas nervosas que ninguém achava graça. A certeza crescente de que qualquer coisa podia acontecer e de que a gente não estava preparada para nenhuma das opções.
Foi aí que levamos o susto. Uns moleques encapuzados pichando a lateral de um prédio pequeno. Eles nos viram. A gente os viu. Ficamos parados, os três, calculando se aquilo era perigoso — e claramente eles fizeram o mesmo cálculo sobre a gente. O medo foi mútuo e ridículo. Eles largaram tudo e saíram em disparada, como se tivéssemos chegado com mandado judicial. No chão, ficou perdido um pé de chinelo. Só um. Testemunha muda do encontro mais inútil da noite.
O corpo já pedia arrego. A fome era daquele tipo que fica roendo nas bordas. A exaustão pesava mais que as mochilas. Mas quando a coragem começava a se transformar em desespero de verdade, avistamos ao longe um sinal de vida: a Lapa acordando. E o barulho inconfundível de motor de ônibus. Aquilo foi como ver terra firme depois de nadar no escuro.
Entramos no coletivo ainda suados, fedendo a cerveja e cigarro alheio, com a expressão de quem não sabe se quer rir ou dormir. Não tínhamos no bolso nem o suficiente para uma coca-cola. Mas carregávamos algo que não tinha preço de tabela: a certeza de que aquela noite já era uma das melhores histórias da nossa vida — e a bronca dos pais no dia seguinte seria só o preço de admissão cobrado com atraso.
A trilha sonora da nostalgia
Hoje, quando coloco o disco RDP Vivo, gravado justamente na Casa Britannia em 1992, tento ouvir minha própria voz perdida no meio da multidão. Não acho. Mas a sensação volta inteira de um jeito que nenhuma qualidade de áudio consegue reproduzir: suor, medo real, barulho que machuca, e a amizade que só existe quando as coisas dão errado do jeito certo.
Não tinha playlist pronta. Não tinha like. Tinha fita K7 gravada de LP carimbado, ingresso obtido por contato e cara de pau, e a disposição de atravessar a cidade à pé quando o plano desmoronava.
E no fim das contas, essa é a essência do punk: a rebeldia de viver, de arriscar, de transformar cada noite em aventura e cada retirada de vergonha em história que vale a pena contar. Porque para quem esteve lá, o show do Ratos de Porão em 1992 não foi só um show. Foi um rito de passagem com batida policial inclusa e chinelo perdido como souvenir.

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Links externos
- Ratos de Porão no Last.fm
- Discografia do Ratos de Porão no Discogs
- História do punk em São Paulo
- Notícias e shows do Ratos de Porão
- Setlists históricos do Ratos de Porão
- Ratos de Porão na Wikipédia
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.
Sensacional o teu relato. Ouvi muito esse disco do Ratos na adolescência e sempre ficava imaginando como seria estar no meio daquele show, no meio daquela galera, pois como tu descreveu acima, tinha de tudo: “Punk, metal, careca, metaleiro”, ou seja, o perigo era iminente kkkkk. Eu ficava pensando: quem teria coragem de estar ali presente kkkk. Enfim, foi um show antológico, que resultou em um disco lendário. Eu sempre quis saber de alguém que estava lá, o seguinte: o que se ouve no disco, foi exatamente o que eles executaram no show? Ou seja, realmente Ao Vivo, tinha aquela qualidade do LP/CD? Ou foi trabalhado em estúdio? Dizem que as músicas para o album foram captadas em dois shows diferentes, procede? Valeu, um abraço!!!
Fala, meu velho! Valeu demais pelo comentário. É muito bom saber que o relato fez você viajar no tempo de volta para aquela época.
Sobre a sua dúvida de bastidores, a resposta é: o disco é gravado ao vivo sim, mas o som que está no vinil/CD não é o mesmo som que a gente ouvia dentro da casa de show.
Aqui estão os detalhes técnicos reais sobre como esse disco foi feito:
Dois shows e seleção de faixas: A gravação do RDP Ao Vivo não veio de uma única apresentação. O Ratos de Porão gravou duas noites seguidas na Casa Britannia em 1992. A equipe de áudio captou o sinal direto do P.A. e dos microfones do palco nessas duas noites, e as melhores execuções de cada música foram selecionadas para compor o repertório final do álbum.
Ao vivo vs. LP/CD: O som dentro do galpão da Britannia era uma parede barulhenta e ensurdecedora, com grave tremendo o estômago e agudos embolados pela acústica do lugar. O que você ouve no disco tem uma nitidez que ninguém ouviu na hora: isso acontece porque o som captado em canais separados foi mixado depois em estúdio. No disco, os instrumentos ficam separados e legíveis; no show, era puro caos acústico.
Retoques de estúdio (Overdubs e Mixagem): A performance da banda é 100% real, gravada no calor da hora e na velocidade insana da turnê do Anarkofobia. No entanto, como era padrão na indústria para lançar um disco ao vivo oficial na época, o material passou por pós-produção em estúdio. Isso incluiu ajuste de volumes, limpeza de microfonias excessivas, equalização pesada nas guitarras e edição dos barulhos de fundo e da plateia para dar pressão ao produto final.
Estar ali era exatamente essa mistura de adrenalina com o risco real de levar uma cotovelada na cara a qualquer segundo kkkk. Que bom que a gente sobreviveu para contar!
Um grande abraço e continue acompanhando o blog! 🤘
OLá, blza? Muito obrigado pelos esclarecimentos, pelo retorno. Muito massa ficar sabendo desses detalhes dos bastidores, pois esse disco, até hoje, é um dos meus preferidos, não só do Ratos, mas do Punk/Rock em geral e volta e meia eu coloco pra dar uma ouvida e lembrar daquela época incrível que foram os saudosos anos 90. Um abraço!!!
Valeu demais pela companhia e pela presença aqui no blog. Apareça sempre pra gente trocar mais ideia sobre essas relíquias.
Um grande abraço e vida longa ao som pesado!