A história de Scott Weiland é o registro de um dos maiores arquitetos melódicos do rock alternativo, cuja trajetória entre o Stone Temple Pilots e o Velvet Revolver foi marcada por um talento vocal camaleônico e uma autodestruição pública. Do topo da Billboard com o disco Purple ao isolamento terminal em um ônibus de turnê em Minnesota, Weiland viveu o paradoxo de ganhar Grammys enquanto era escoltado pela polícia para gravar em estúdio. Ele não foi apenas um ícone do grunge; foi o último frontman perigoso de uma era que trocou a alma pelo funcionamento da indústria.
Era o erro sistêmico mais bonito do rock dos anos 90. Conseguia reger uma multidão com o megafone na mão esquerda e um passado inteiro de merda na direita. Cinquenta milhões de discos. Dois Grammys. Cinco prisões. Um ônibus parado no frio de Minnesota.
Esse texto não é obituário. É acerto de contas.
| Dado | Fato | Status |
|---|---|---|
| Nome real | Scott Richard Kline | — |
| Nascimento | 27/10/1967 — San Jose, CA | — |
| Morte | 03/12/2015 — Bloomington, MN | Overdose acidental |
| Bandas | Stone Temple Pilots, Velvet Revolver | Demitido das duas |
| Discos vendidos | +50 milhões | No topo das paradas |
| Grammys | “Plush” (1994), “Slither” (2005) | Em colapso simultâneo |
| Prisões documentadas | 1995, 1997, 1998, 2003, 2007 | Preso, ressurgido, preso |
| Autobiografia | Not Dead & Not For Sale (2011) | Spoiler ruim no título |
Dezembro de 2015. Bloomington, Minnesota. Temperatura negativa de fazer doer os ossos.
Dentro de um ônibus de turnê estacionado num hotel, Scott Weiland foi encontrado morto no quarto do fundo. Ao redor: cocaína, anfetamina, e o silêncio de quem estava sozinho quando não devia estar.
Tinha 48 anos. Cinquenta milhões de discos vendidos. Dois Grammys. Demitido de duas bandas. Preso cinco vezes. Internado em tantas clínicas de reabilitação que contar cansa. Filhos que praticamente não conheciam o pai.
E o mundo acordou na manhã seguinte, abriu o Spotify, colocou “Plush” novamente pra tocar, e começou o ritual.
Esse texto não é parte do ritual.
A voz que não tinha endereço: como Scott Weiland virou outro cantor três vezes no mesmo corpo
A voz do Weiland não era técnica. Era um esconderijo.
Em Core (1992), ele cantava como se estivesse tentando convencer o mundo de que era o herdeiro legítimo do Jim Morrison. Voz grave, articulação pesada, uma escuridão que soava violenta mesmo quando era claramente emprestada de Seattle. A crítica chamou de plágio. De pastiche. De Pearl Jam lite. E não estava completamente errada — mas o disco vendeu oito vezes platina e “Plush” ganhou um Grammy, então a crítica teve que engolir a opinião junto com o troféu.
Era só um cara de 25 anos tentando achar um timbre que segurasse o tranco do sucesso.
Quando chegou em Tiny Music… Songs from the Vatican Gift Shop (1996), ele mandou o grunge para o inferno. A voz subiu, ficou psicodélica, cheia de uma elegância britânica que o Pearl Jam nunca sonhou em ter. Não estava mais cantando para a multidão — estava cantando para os fantasmas do Bowie e do T. Rex que moravam na cabeça dele. Era o mesmo sujeito que havia latido em “Sex Type Thing” três anos antes, agora soando como se tivesse saído de um LP de 1972 esquecido numa prateleira de sebo.
E no disco solo, 12 Bar Blues (1998), o cara simplesmente chutou o balde. Bossa nova. Jazz experimental. Letras introspectivas. Arranjos que não tinham nada a ver com o cara das rádios alternativas. Era o tipo de disco que afasta o fã casual e prende quem está prestando atenção de verdade.
Slash resumiu com uma precisão rara: disse que Weiland tinha uma qualidade à la John Lennon, com um toque de Jim Morrison e algo próximo de Bowie. Pra quem conhece o histórico de Slash distribuindo elogios, isso não é cortesia. É laudo técnico.
Quem tenta rotular Scott Weiland como “cantor de grunge” não entendeu nada. Ele era um ator que mudava o roteiro no meio da peça porque não aguentava mais ser o mesmo personagem por trinta minutos. Em Contraband (2004), a voz voltou gutural e urgente — Iggy Pop em dia ruim, gravada com policial na porta do estúdio. E no Blaster (2015), seu último disco, o que saiu foi um fantasma tentando imitar a si mesmo. Nasalado, fora de controle, perdido. Weiland tentando ser Weiland.
Tinha ainda o megafone. Todo mundo lembra do megafone — aquele cilindro de plástico que ele usava em “Crackerman” e em outras músicas ao vivo, pressionado contra o microfone para criar aquele som comprimido, distorcido, como voz vindo de dentro de uma lata.
Muita gente achava afetação. Gimmick de front man querendo parecer mais interessante do que era.
Não era.
O megafone era a barreira entre Weiland e o mundo, materializada em plástico. Quando ele cantava através daquele negócio, não estava fazendo efeito — estava sendo honesto sobre a distância que sentia entre si mesmo e tudo ao redor. O instrumento que parecia artifício era o único momento de autenticidade não filtrada.
Num show do SXSW em março de 2015, meses antes de morrer, um crítico descreveu a cena: “O megafone sempre foi um gimmick, mas Weiland o vendia com categoria. Agora parece ridículo, porque Weiland parece que ele mesmo se sente ridículo segurando.”
Como Weiland transformava bossa nova em hit de rádio: a genialidade que os obituários ignoram
Weiland era um arquiteto melódico extraordinário — e os obituários apressados não sabem o que fazer com isso.
Os irmãos DeLeo — Robert no baixo, Dean na guitarra — eram a espinha dorsal do Stone Temple Pilots. Robert trazia progressões que misturavam jazz e bossa nova dentro de estruturas de rock. Dean construía riffs de uma elegância que não soava bem descrita no papel mas era impecável quando tocada.
Era uma harmonia sofisticada que a maioria dos vocalistas de rock teria simplesmente seguido, cantando por cima do óbvio.
Weiland não fazia isso.
Ele recebia as progressões dos DeLeo e criava melodias vocais que às vezes iam contra a harmonia da guitarra — não por acidente, mas por instinto de compositor que sabia exatamente onde a tensão precisava morar.
O caso mais documentado é “Interstate Love Song”: Robert DeLeo escreveu a música num estacionamento de hotel em Atlanta, numa guitarra de nylon barata, num estilo que ele mesmo chamou de bossa nova. Quando tocou para Weiland, o vocalista começou a cantarolar — e em vez de seguir o intro que DeLeo havia imaginado, transformou aquilo num refrão completamente diferente, que empurrava contra a progressão de acordes em vez de descansar nela.
O resultado ficou quinze semanas consecutivas em número um no Billboard Mainstream Rock. Recorde na época.
Dean DeLeo resumiu: “Não posso dizer o suficiente sobre Scott. O cara era brilhante em todos os níveis — lírica, melodia, e quando estávamos no palco juntos, era simplesmente extraordinário.”
Era. Quando estava presente.
🎵 Seis faixas para entender Scott Weiland
Big Bang Baby — Tiny Music (1996) A música que prova que Weiland estava longe de ser um clone de Seattle. Abre com um riff que parece saído de um bar de Los Angeles em 1971, e a voz soa quase divertida — o que é perturbador quando você sabe o que estava acontecendo com ele naquele período. Não é hit. É o cara respirando.
Creep — Core (1992) Não confunda com a do Radiohead. Essa é mais suja, mais lenta, mais honesta sobre solidão do que qualquer coisa que tocou em rádio alternativa naquele ano. Weiland ainda estava achando a própria voz aqui — e talvez por isso soe tão verdadeira.
Sucker Train Blues — Velvet Revolver: Contraband (2004) Ninguém cita essa. Todo mundo cita “Slither”. Mas é aqui que você entende o que Slash e Weiland podiam fazer juntos quando paravam de se odiar por tempo suficiente. Riff de dar inveja, vocal no limite do controle — exatamente no ponto onde o limite é o ponto.
Slither — Velvet Revolver: Contraband (2004) Certo, é o óbvio. Mas é óbvio porque funciona. Gravada com policial esperando do lado de fora. Ganhou o Grammy. Soa como alguém que não tem nada a perder — porque não tinha.
Interstate Love Song — Purple (1994) Robert DeLeo escreveu num estacionamento de hotel em Atlanta numa guitarra de nylon barata. Weiland ouviu e jogou o refrão inteiramente contra a harmonia. Ficou quinze semanas em número um. É a música que mais deixa claro que havia um compositor real ali dentro, não só um vocalista de aluguel.
Big Empty — Purple (1994) / trilha de The Crow É a mais lenta. A mais nua. Weiland segurando a voz onde ela dói. Tem gente que ouve isso e pensa em carro, noite, estrada vazia. Tem gente que pensa em coisa pior. O Weiland sabia das duas possibilidades quando gravou.
A rachadura que veio antes do dilúvio: infância, trauma e o vício que já existia antes da fama
San Jose, Califórnia, 1967. O pai biológico saiu cedo. O padrasto adotou — o sobrenome Weiland ficou. Uma mudança para Ohio transformou o menino de coro em adolescente deslocado num estado que não era o dele.
Aos 12 anos, foi abusado sexualmente por um jovem mais velho. Levaria décadas para tornar isso público, na autobiografia Not Dead & Not For Sale (2011).
Ele próprio conectou esse evento à sua relação com as drogas. Não como desculpa — como arqueologia. A diferença importa. Ele não estava pedindo absolvição. Estava tentando entender o próprio buraco.
É aqui que a maioria dos textos sobre Weiland erra feio: trata o vício como consequência da fama, como se a indústria tivesse criado o monstro do zero. Não criou. A fama só jogou dinheiro e disponibilidade em cima de algo que já existia. O que havia dentro de Weiland antes de qualquer contrato era uma dor que ele aprendeu, ainda jovem, a anestesiar.
A heroína não chegou com o sucesso. Chegou antes. O sucesso só pagou a conta.
Em meados dos anos 80, já em San Diego, ele e os amigos foram a um show e ficaram impressionados com um baixista chamado Robert DeLeo. Foram atrás dele. Os primeiros nomes cogitados para a banda incluem “Shirley Temple’s Pussy” e “Sticky Toilet Paper”. Escolheram Stone Temple Pilots porque mantinha as iniciais STP. Igual ao adesivo de óleo de motor. Ninguém planejou muito isso.
Stone Temple Pilots e o sucesso que a crítica jurou que não ia durar

Core foi chamado de pastiche de Pearl Jam — e a crítica não estava completamente errada. Mas quatro hits do mesmo disco e um Grammy depois, a discussão ficou acadêmica.
Purple (1994) foi onde a banda encontrou o próprio som. Mais pesado, mais urgente, Weiland menos interessado em soar como Seattle. “Vasoline” e “Interstate Love Song” são músicas que você ouve hoje e ainda funcionam no estômago.
Tiny Music (1996) foi o disco mais corajoso — o que provava que havia um artista real operando ali dentro, não apenas uma persona de grunge bem construída.
Os irmãos DeLeo descreveram em entrevistas separadas o mesmo cenário desse período: ansiedade constante antes de cada show. Não sobre a performance — sobre se o vocalista estaria de pé.
Robert DeLeo disse que chegou a um ponto em que simplesmente não sabia mais se queria continuar. Dean DeLeo, anos depois, teve a honestidade de admitir que ele próprio estava usando drogas naquele período — e que pediu desculpas a Weiland por ter sido hipócrita ao julgá-lo.
É raro isso. Vale registrar.
Velvet Revolver: o policial, os 500 dólares por dia e o disco gravado em liberdade vigiada

Quando Slash, Duff McKagan e Matt Sorum saíram do Guns N’ Roses, chamaram Weiland. Músicos que tinham sobrevivido ao caos de Axl Rose querendo trabalhar com o front man mais imprevisível do rock alternativo. A RCA assinou 8,5 milhões de dólares para três álbuns.
Dias depois de assinar, Weiland foi preso por posse de drogas.
🚔 O Kit de Sobrevivência de US$ 500 por dia
Weiland foi mandado para reabilitação, mas com permissão judicial de sair algumas horas por dia para gravar.
Um policial o escoltava entre a clínica e o estúdio NRG, em Los Angeles — todos os dias, no horário combinado com o juiz.
Custo: aproximadamente US$ 500 por dia, por policial.
O manager do grupo disse à imprensa com uma tranquilidade que resume a indústria inteira:
“É só o preço de se fazer negócio com Scott Weiland.”
Contraband saiu desse caos. Número um no Billboard 200. Três milhões e meio de cópias. Grammy. O sujeito gravou parte do próprio álbum em liberdade vigiada e entregou um dos maiores discos de rock de 2004.
Isso é perturbador de um jeito que a maioria dos textos sobre ele não sabe nomear.
O Velvet Revolver foi a última vez que o rock perigoso de verdade chegou ao topo da Billboard — antes do domínio total do indie polido e do pop calculado. Slash queria aquela instabilidade que havia tornado o Guns incontrolável e inesquecível. Weiland entregou. O preço foi alto demais pra todo mundo ao redor. Mas ele entregou.
Weiland vs. Matt Sorum: três rounds de ódio, um choro ao vivo e um empate póstumo
A relação de Weiland com o baterista Matt Sorum foi, nas palavras do próprio Weiland, “horrorosa”. Ele disse sem rodeio que os dois quase foram às vias de fato tantas vezes que era ridículo.
🥊 Round 1 — Glasgow, março de 2008
No palco, Weiland anunciou pro público que aquela seria a última turnê do Velvet Revolver. Sem avisar a banda. Sem combinar nada. Simplesmente pegou o microfone e comunicou o fim da própria banda como se estivesse pedindo uma pizza.
🥊 Round 2 — O blog com 200 leitores que virou bomba
Sorum foi pro hotel, não conseguiu dormir, escreveu um post se desculpando com os fãs no blog pessoal dele — que tinha 200 leitores habituais. O post foi pro Blabbermouth. Então teve alguns milhões de leitores.
Sorum aproveitou e disparou: “Scott Weiland é um cara magrinho daqueles que vai passando de carro e grita merda pra você, aí tem três amigos dentro do carro — e foge. Se eu o encontrasse agora, ele estaria provavelmente correndo por um beco. Ele sabe que sou o dobro do tamanho dele.”
🥊 Round 3 — O contra-ataque com “Release the Kraken”
Weiland respondeu com um comunicado que é obra-prima do vitimismo rock. Lembrou a Sorum que era a primeira banda de verdade do baterista, enquanto ele, Weiland, estava no nono disco da carreira. Disse que havia mantido “um nível de profissionalismo independentemente de quantas drogas ingeri no meu sistema.” Ameaçou revelar os motivos pelos quais Sorum havia cancelado uma turnê na Austrália. Assinou: “Release the Kraken? Serve… Volley!”
O Velvet Revolver o demitiu em 1 de abril de 2008. Weiland respondeu chamando os membros da banda de “junkies e vagabundos tentando fingir que são São Francisco de Assis.”
🤝 Resultado: empate póstumo
Era uma banda de cinco pessoas com histórico coletivo de dependência química tentando funcionar como empresa de 8,5 milhões de dólares. E funcionou — até o dia em que parou.
Anos depois, os dois fizeram as pazes. Quando Weiland morreu, Sorum chorou ao vivo na rádio Sirius XM. Disse que parecia ter perdido um familiar. Que havia amor, mesmo depois de tudo. É o tipo de coisa que você fala sobre alguém que te causou problema de verdade — não sobre conhecido distante.
Shows que viraram lenda pelo motivo errado: caindo, mumblando, mandando fãs à merda
📍 Phoenix, 2008. Um vídeo filmado por fã registra Weiland abrindo o show com “Big Empty”, cambaleando pelo palco e caindo em cima da bateria de Eric Kretz por volta do 1:20 da música. Está na internet até hoje. Não é boato.
📍 Houston, 2007. Chegou atrasado para o show no Cynthia Woods Mitchell Pavilion e abriu o set com um discurso bêbado e arrastado, admitindo ao público que havia voltado a beber depois da morte do irmão mais novo. A turnê foi cancelada em seguida.
📍 Detroit, turnê de reunião do STP. Um repórter da SPIN descreveu a cena depois do show: Weiland sendo conduzido pela saída dos fundos do teatro, cabeça coberta com toalhas, curvado como uma vírgula, jovens atrás pedindo autógrafo. O cantor assinou alguns, ergueu a cabeça e disse baixinho: “Desculpa. Preciso entrar agora. Está frio.”
É uma das imagens mais tristes que existem sobre esse cara.
📍 SXSW, Austin, março de 2015. Meses antes de morrer, tocou com o The Wildabouts no Parish. O crítico que cobriu o show foi torcer pra estar errado. Não estava. “O que obtive foi joyless e workmanlike.” O megafone apareceu. A voz saiu nasalada e fora de controle. O cara que havia vendido 50 milhões de discos parecia se sentir ridículo em cima do próprio palco.
📍 Boston, março de 2015. Meet-and-greet de 150 dólares por pessoa. Os fãs que pagaram foram a um fórum contar o que encontraram: Weiland mal olhava pra quem estava na frente. Quando um fã tentou dizer que havia sido fã por 20 anos, Weiland cortou: “Tá, corre logo, não quero ouvir isso.” Em algum momento da noite, virou pra alguém e disse: “Vamos mamar um pau.”
Dias depois, se desculpou no Facebook. Disse que havia agido como “um completo babaca” e que estava exausto.
Alguns fãs aceitaram. Outros nunca mais voltaram.
O frio de Minnesota e o silêncio do megafone: a morte de Jeremy Brown e o fim anunciado
Em março de 2015 — mesmo mês do SXSW, mesmo mês de Boston — Jeremy Brown, guitarrista do The Wildabouts e amigo próximo de Weiland por sete anos, morreu em casa, em Venice, Califórnia. Trinta e quatro anos. Causa não revelada.
A banda ia fazer o show de lançamento do Blaster naquela noite. Brown não apareceu no ensaio. Uma hora depois, a família ligou.
Weiland escreveu no Facebook: “Recebi uma ligação hoje sobre meu amigo Jeremy Brown que me abalou até o núcleo. Ele é um dos meus melhores amigos, um amigo verdadeiro e um dos guitarristas mais dotados que já conheci. Um gênio de verdade.”
Brown havia escrito a maioria dos riffs do disco. Morreu um dia antes do lançamento do álbum que os dois haviam construído juntos.
Weiland morreu oito meses depois.
Cara bacana ou filho da puta? A pergunta que os obituários têm medo de fazer
As duas coisas. Em proporções que variavam conforme o dia, a substância, e o quanto de esperança ainda havia no reservatório de quem estava do lado.
Dean DeLeo disse ao Classic Rock: “Não posso dizer o suficiente sobre Scott. O cara era brilhante em todos os níveis.” Robert DeLeo, depois de mais de vinte anos de parceria, disse que amava Weiland mas não conseguia mais conviver com ele — e que aprendeu a separar as duas coisas. Vinte anos é tempo suficiente pra desistir sem culpa. Ele não desistiu.
Duff McKagan passou pelo próprio inferno com álcool nos anos 90, quase morreu, se recuperou, ficou décadas sóbrio — e depois passou anos ao lado de Weiland tentando ajudar. Quando Weiland morreu, disse que mesmo nos momentos mais sombrios, todos ainda tinham esperança nele.
Esperança é diferente de admiração. Esperança é o que você tem quando já desistiu de entender, mas ainda não desistiu da pessoa.
E havia o outro lado. O meet-and-greet de Boston. Os shows cancelados sem aviso. O irmão Michael, que morreu em 2007 — os dois passaram anos usando juntos, raramente sóbrios ao mesmo tempo, e Weiland nunca conseguiu estar no mesmo lugar sóbrio com o irmão antes que o irmão fosse embora. As músicas do Libertad sobre isso doem de um jeito específico quando você sabe o contexto.
E havia Chester Bennington.
Quando o Stone Temple Pilots demitiu Weiland em 2013, contratou Bennington — profissional, confiável, que aparecia nos ensaios. Pra muitos fãs, e provavelmente pro próprio Weiland, foi a confirmação de que a banda tinha virado uma empresa que precisava cumprir agenda, e ele não cabia mais nesse modelo. Trocaram a alma pelo funcionamento.
Bennington morreu em 2017. Dois anos depois de Weiland. O mesmo demônio com outro nome.
O rock tem um jeito particular de consumir exatamente as pessoas que o tornam possível.
Por que em 2026 você ainda precisa ouvir Scott Weiland — e o que nenhuma IA vai replicar
A voz ficou. O repertório ficou.
“Interstate Love Song” ainda tem aquela tensão no refrão que você não consegue nomear mas sente no peito. O Purple inteiro ainda é um documento de como fazer rock pesado com inteligência melódica. “Slither” ainda é um dos riffs mais satisfatórios dos anos 2000. “Plush” ainda levanta cabelo de braço no momento certo.
E tem as menos conhecidas — “Still Remains”, “Tumble in the Rough”, “Pretty Penny” — que provam que havia um artista de verdade trabalhando ali dentro, não apenas uma persona bem construída.
Em 2026, quando qualquer software consegue gerar uma voz de barítono com inflexão grunge em trinta segundos, o que Weiland deixou é exatamente o que não se replica: a imperfeição carregada de história. A nota levemente fora do tom que esconde uma vida inteira. A melodia que vai contra os acordes porque o compositor sabia, por instinto e por dor, onde a tensão precisava morar.
IA não tem trauma de infância. Não tem irmão que morreu antes de você conseguir estar sóbrio com ele. Não tem policial esperando na porta do estúdio. Não cai em cima da bateria do Eric Kretz em Phoenix e levanta pra terminar o show.
A indústria que pagava 500 dólares por dia pro policial escoltar o artista nunca resolveu o problema de fato, porque o artista no palco valia mais do que o homem tratado. O público comprou ingresso pra ver o declínio. A indústria continuou vendendo. E o artista continuou subindo porque era o único lugar onde ainda sabia quem era.
Scott Weiland foi o último dos grandes frontmen que não pedia licença pra subir no palco. Não queria ser seu amigo. Não queria ser exemplo. Queria ser o Bowie, o Morrison, o Iggy Pop, tudo ao mesmo tempo — enquanto o próprio corpo tentava ser apenas um ônibus parado no frio.
No final, a voz venceu o homem. Mas a música é o que nos impede de esquecer que, por um momento, ele foi o dono do mundo.
O que você faz com isso é problema seu.
Leia tambem:
Scott Weiland: Stone Temple Pilots, Velvet Revolver e o Charme do Caos
Rock Farofa dos Anos 80: Glam Metal, Hard Rock e Mais
Blondie e Debbie Harry: A História da Banda que Uniu o Punk ao Pop
Alguns links a referenciar:
Rolling Stone: Scott Weiland – The Lost Interview
Mary Forsberg Weiland: “Don’t Glorify This Tragedy” (Ensaio Pessoal)
The Estate of Scott Weiland: Biografia Oficial e Legado
Loudwire: 10 Momentos Inesquecíveis de Scott Weiland
Ultimate Classic Rock: Detalhes sobre a morte em Minnesota
🟣 O VEREDITO: Scott Weiland foi o último gênio perigoso ou só um cara que a gente amava ver descarrilar?
Depois de ler sobre Grammys ganhos em liberdade vigiada, melodias de Bossa Nova disfarçadas de Grunge e um megafone que servia mais de escudo do que de instrumento, fica aquela pergunta:
A gente sente falta do artista ou da nossa própria juventude que ele ajudou a queimar no altar do “sexo, drogas e rock n’ roll”?
Você consegue ouvir “Interstate Love Song” hoje sem pensar no frio de Minnesota? Acha que o Scott camaleônico dos anos 90 teria sobrevivido a essa era de artistas “limpinhos” no Twitter, ou ele ia mandar o algoritmo à merda no primeiro show?
Desce nos comentários e solta o verbo — mas sem nostalgia barata, que o Véi aqui não tem paciência pra clichê. 🤘
Um megafone de plástico. Uma voz que mudava de CEP a cada disco. Cinquenta milhões de cópias vendidas e uma solidão que não cabia na Billboard.
E aí, qual é a sua? Qual música do STP é aquela que você coloca no talo pra lembrar que o rock já teve perigo de verdade? Já tentou explicar pra algum “Z” por que o Scott Weiland era mais relevante que dez bandas de indie-pop juntas?
A caixa de comentários é sua. Tenta não ser chato.
Véi do Blogue — Cultura musical e cinematográfica para mentes fora da faixa.
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.