Black Metal Farofa é como eu chamo aquela fase onde o metal extremo trocou a garagem mofada pelo teclado de formatura e o visual de vampiro de shopping. Se você busca o melodic black metal raiz, gravado no liquidificador, errou de bueiro; aqui o papo é sobre o poserismo assumido e as produções cristalinas que dominaram os anos 90. Eu uso o termo Black Metal Farofa porque ele define perfeitamente o equilíbrio entre o som sinfônico épico e a breguice comercial que os puristas amam odiar, mas que todo mundo ouve escondido. Ajeite sua maquiagem… quer dizer, seu “Corpse paint”, porque vamos listar os 10 discos que provam que o capiroto também sabe ser um poser de respeito.
Quando o Underground Saiu da Caverna e Foi Pro Shopping Center
Ah, meus queridos amigos adoradores do som verdadeiro™, chegou a hora de falar sobre o elefante na sala de ensaio: aquela fase em que o Black Metal norueguês trocou a gravação em fita K7 vagabunda pelo ProTools, o corpse paint artesanal pelo maquiador profissional, e o porão fedorento pelo estúdio com ar-condicionado.
Era meados dos anos 90. A galera que queimava igreja na Noruega começou a perceber que dava pra ganhar uma grana e viajar o mundo sem precisar roubar o busão. E aí, meu filho, foi ladeira abaixo ou seria ladeira acima? Depende se você é um purista chato ou alguém que curte um refrão chiclete enquanto o capeta desce nos teclados.
Farofa, no contexto deste humilde blogue, não é apenas melodia açucarada não. É o kit completo da poseragem: teclado de formatura de colegial, produção mais limpa que chão de hospital alemão, visual de vampiro que frequenta balada gótica no Mercado Livre, e aquela vontade nada sutil de aparecer na MTV em vez de ficar gravando demo na garagem do primo.
Então respira fundo, guarda teu purismo no bolso junto com aquela demo do Transilvanian Hunger, e vem comigo nessa jornada pelo suprassumo do poserismo black metal. Porque, convenhamos: todo mundo que fala que só ouve Darkthrone tem pelo menos um disco do Dimmu escondido na pasta “Nova Pasta (2)”.
Os 10 Discos Mais Farofa Que o Capiroto Já Produziu
1. Dimmu Borgir – Enthrone Darkness Triumphant (1997)
O Marco Zero da Farofagem Escandinava. Uma das Colunas principais do Black Metal Sinfônico

Se existe um disco que colocou teclado de abertura de novela mexicana no mapa do Black Metal, foi esse aqui. Os noruegueses do Dimmu literalmente disseram “foda-se o underground, vamo ganhar dinheiro” e contrataram um tecladista de verdade. O resultado? Riffs que grudavam na cabeça igual chiclete na sola do tênis, orquestração mais pomposa que casamento de rico, e uma produção tão limpa que dava pra comer no chão do estúdio. Os puristas infartaram, claro, mas enquanto isso o Dimmu tava enchendo arena na Europa. Mourning Palace é tão pegajoso que até tua vó conservadora ia balançar a cabeça. Farofa? Meu amigo, isso aqui é a moqueca capixaba do poserismo: elaborada, saborosa e sem vergonha de ser o que é.
Dica do Véi: Se quiser ter o Enthrone Darkness Triumphant na coleção, o link abaixo é o caminho mais curto.
2. Cradle of Filth – Cruelty and the Beast (1998)
Vampiro de Novela da Record Encontra Orquestra Sinfônica

Os ingleses nunca tiveram papas na língua: desde o começo já queriam ser o Iron Maiden do Black Metal, e nesse disco conseguiram. Conceitual sobre a Condessa Bathory (porque claro, né), o álbum soa como se o Andrew Lloyd Webber tivesse resolvido fazer a trilha de um filme da Hammer produzido pela Nuclear Blast. Dani Filth gritando igual gato sendo pisado, guitarras afiadas, e teclados que soam como órgão de igreja anglicana assombrada. A produção é tão caprichada que até os blastbeats parecem ter passado pelo salão de beleza. É brega? Demais. É poser? Absoluto. É delicioso? Pode apostar teu coturno de fivela que sim. O tipo de disco que você ouve no fone fingindo que tá ouvindo Burzum.
Opção do Véi: Para quem quer o auge do vampirismo inglês, o Cruelty and the Beast está disponível aqui.
3. Old Man’s Child – The Pagan Prosperity (1997)
A Farofa Mais Bem Comportada da Noruega

Galder, o mastermind por trás do projeto, teve uma sacada genial: “E se eu pegar o Black Metal melódico e deixar tudo redondinho?”. E assim nasceu essa joia do poserismo escandinavo. Riffs mais trabalhados que pão caseiro, teclados atmosféricos que não saem do lugar, produção impecável cortesia do Peter Tägtgren (o cara que transformou o Hypocrisy numa máquina de guerra). O resultado é um disco que agrada gregos e troianos: metal o suficiente pros puristas não te expulsarem da roda, melódico o suficiente pra tocar no carro sem assustar a sogra. É a farofa gourmet: tem os mesmos ingredientes da farofa de boteco, mas vem num pratinho bonitinho e custa o triplo.
4. The Kovenant – Nexus Polaris (1998)
Quando o Black Metal Descobriu a Ficção Científica e as Máquinas de Fumaça

Antes de virarem uma banda industrial esquisita, os noruegueses do Kovenant (ex-Covenant, mudaram por causa de processo) fizeram esse monumento à excentricidade poser. Imagina só: Black Metal com teclados espaciais, samples eletrônicos, produção futurista e um visual que mistura vampiro com personagem de anime cyberpunk. The Sulphur Feast abre o disco com tanta pompa que você espera ver fogos de artifício. É kitsch? Óbvio. É over the top? Tanto que passa da estratosfera. Mas é exatamente esse exagero desavergonhado que faz desse disco uma experiência única. Os caras literalmente pegaram o Black Metal e enfiaram num liquidificador junto com sintetizadores Korg e delírios de grandeza. Resultado: farofa espacial, meu consagrado.
5. Emperor – IX Equilibrium (1999)
Quando Até Os “Sérios” Caíram na Tentação

Olha, o Emperor sempre foi a banda que os puristas toleravam porque “ah, mas eles são técnicos”. Só que nesse disco aqui os noruegueses capricharam tanto na produção e nos teclados que ficou impossível negar: eles queriam soar enormes. E conseguiram. A orquestração é densa, os riffs são complexos mas grudam, e tudo soa majestoso demais pra ser “true”. Ihsahn claramente tava mais preocupado em fazer uma sinfonia extrema do que em manter a credibilidade underground. E sabe de uma coisa? Funcionou perfeitamente. É a farofa dos intelectuais: você pode ouvir num volume absurdo e ainda assim argumentar que “é arte, meu caro”. Mas não se engane: continua sendo teclado de formatura por baixo das camadas de complexidade.
Sugestão do Véi: O IX Equilibrium é a prova de que a farofa pode ser técnica. Garanta o seu exemplar.
6. Stormlord – At the Gates of Utopia (2001)
Italianos Fazem a Farofa com Sotaque Mediterrâneo

Quando os italianos resolvem fazer Black Metal sinfônico, o resultado é previsível: exagero operístico elevado à décima potência. O Stormlord pegou a fórmula do Cradle of Filth, adicionou ainda mais teclados (é possível? sim!), coral feminino, e aquela pegada épica que só quem cresceu rodeado de ruínas romanas consegue ter. Cada música soa como a trilha sonora de um filme de gladiador classe B, mas num bom sentido. É excessivo, é teatral, é completamente sem vergonha. A produção brilha mais que cromado de Fusca rebaixado. E sabe qual o melhor? Os caras nunca fingiram ser outra coisa. Farofa alla romana: servida em dose generosa, com queijo parmesão e nenhum pudor.
7. Graveworm – Scourge of Malice (2001)
Austríacos Provam Que Dá Pra Ser Poser em Alemão

O Graveworm é aquela banda que você mostra pro amigo dizendo “é tipo Old Man’s Child, mas com teatralidade austríaca”. E é exatamente isso mesmo. Pega tudo que é farofa, teclados dramaticíssimos, vocais agudos irritantes, guitarras melódicas demais, e joga numa produção tão polida que tu consegue ver teu reflexo. Scourge of Malice não reinventa nada, mas executa a fórmula com competência de relojoeiro suíço (ok, são austríacos, mas você entendeu). Tem até uns riffs que lembram o Dissection, só que com teclado de baile de debutante por cima. É o tipo de disco que envergonha e agrada ao mesmo tempo: você sabe que é brega, mas caramba, eu meio que gosto.
8. Limbonic Art – The Ultimate Death Worship (2002)
Noruegueses Metem Teclado Até No Café da Manhã

Se tem uma banda que nunca teve vergonha de ser tachada de “muita atmosfera, pouco peso”, é o Limbonic Art. Esse disco aqui é praticamente um álbum de música ambiente com blastbeats jogados no meio. Os teclados dominam completamente a paisagem sonora, parece trilha de jogo de RPG dos anos 90, daqueles de PS1. Produção limpa, arranjos elaboradíssimos, zero apego ao conceito de “cru” ou “underground”. E olha, funciona perfeitamente se você curte esse lance de Black Metal cinematográfico. É a banda sonora perfeita pra fingir que você tá num castelo medieval enquanto toma cerveja Skol no teu apartamento de dois cômodos. Farofa new age satânica.
9. Catamenia – Eskhata (2002)
Finlandeses Pegam Emprestado (Leia-se: Copiam) a Fórmula

Os finlandeses do Catamenia olharam pro Old Man’s Child e pensaram: “dá pra fazer isso, mas mais genérico?”. E conseguiram! Eskhata é basicamente Black Metal melódico by the numbers: teclados onipresentes, refrões grudento, produção redonda, zero inovação. Mas sabe de uma coisa? Às vezes você não quer inovação. Às vezes você só quer sentar, apertar play e deixar a farofa te levar. É tipo fast food sônico: não é a melhor comida do mundo, mas mata a fome e tem gosto bom. Ninguém vai te julgar por comer Big Mac de vez em quando, assim como ninguém deveria te julgar por curtir um Black Metal fórmula. Farofa de freezer: prática, consistente e sempre disponível.
10. Norther – Dreams of Endless War (2002)
Quando o Children of Bodom Fica Sombrio Demais e Vira Black Metal

Fechando nossa lista farofeira com chave de ouro finlandesa, temos o Norther, que é basicamente o Children of Bodom depois de ouvir muito Cradle of Filth numa fase depressiva. Teclados de sintetizador barato (no bom sentido), melodias que parecem vinhetas de desenho japonês, produção brilhante e aquele vocal rasgado que os nórdicos fazem tão bem. É power metal mascarado de Black Metal? Um pouco. É constrangedor assumir que você gosta? Talvez. Mas aperta o play de Victorious One e tenta não balançar a cabeça. Impossível. É a farofa rave: meio brega, meio nostálgica, totalmente deliciosa quando ninguém tá olhando.
Menção Honrosa (Versão Enxuta)
Children of Bodom – Something Wild / Hatebreeder (1997-1999)
Errei. Children of Bodom tinha que estar na lista principal.

O que é o Bodom? Finlândia, teclado de jogo de fliperama, riffs que grudam igual chiclete, Alexi Laiho gritando igual duende furioso e solando como se o Diabo tivesse tomado café demais. É farofa pura: produção brilhante, refrão de estádio disfarçado de agressividade, e os caras usavam bermuda com camiseta de caveira espacial. Zero vergonha.
Deadnight Warrior (1997) já abre com tecladinho de Donkey Kong. Downfall (1999) tem refrão que qualquer metaleiro de meia-idade canta no trânsito. É brega? É. É poser? Absolutamente. É legal? Eu Gosto.
Bodom é a farofa neon: brilhosa, acelerada e tecnicamente absurda. Merece o pódio ao lado do Dimmu Borgir e do Cradle of Filth. Fim.
Conclusão: Assuma Teu Lado Poser, Caralho
No final das contas, meus queridos amigos, o lance é o seguinte: Black Metal nasceu como rebeldia, mas virou produto. E não tem pra onde correr.
Olha, eu curto pra caralho Venom. Respeito Bathory como quem respeita o pai. Tenho meus discos truezão na estante e sei de cor a discografia inteira do Mayhem. Mas sabe de uma coisa? Tem dias que eu só quero botar algo no som, sentar no sofá com uma cerveja morna e ficar ali, curtindo os teclados óbvios e os riffs “épicos” previsíveis, tipo aqueles tiozinho no bar que fica tocando guitarrinha invisível quando passa Sultans of Swing no radinho.
Não é questão de trair a essência ou vender a alma pro mainstream. É simplesmente reconhecer que nem todo dia você quer comer miojo no escuro ouvindo gravação de fita cassete. Às vezes você quer um prato bem servido, com produção decente, e um refrão que grude na cabeça enquanto você lava a louça.
Esses discos aqui são farofa? São demais. São posers? Absolutamente. Mas são também divertidos, épicos e infinitamente mais interessantes do que ficar ouvindo demo de quinta geração que parece gravação de interfone quebrado.
Então da próxima vez que você botar um desses discos pra tocar, levanta a cabeça, joga o cabelo pro lado (mesmo que seja careca), faz aquela carinha de quem tá degustando vinho fino, e assuma: o capiroto também gosta de uma produçãozinha caprichada de vez em quando. E você também pode tocar aquela guitarrinha invisível sem culpa.
E quem discordar pode voltar pra floresta com o Varg.
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🧛♂️ Agora abre o jogo: qual é o seu segredo sinfônico? Você ouve Black Metal Farofa?
Todo mundo tem aquele disco que esconde dos puristas para não perder a carteirinha de malvado da Escandinávia.
Aqui é o bueiro certo pra você sair do armário gótico.
Eu fui cirúrgico ou deixei passar alguma “pérola” que brilha mais que o teclado de formatura do Dimmu Borgir?
Faltou algum clássico da poseragem ou eu peguei leve demais com esses vampiros de shopping?
Vale xingar o blogueiro, defender sua banda de coração ou listar aquele disco brega que você ouve no fone de ouvido pra ninguém saber.
Desce o comentário e solta a farofa ✍️
Só não vale o papo de “só ouço Darkthrone”, porque aqui a gente sabe que no fundo você também curte um refrão chiclete.
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.