O mistério da pintura mediúnica de Luiz Gasparetto

Luiz Gasparetto, psicólogo e médium, e sua pintura mediúnica sempre foram um nó na cabeça da lógica. Escrevi este artigo com um objetivo sagrado: ser totalmente respeitoso, até porque eu gostava de verdade da figura magnética que ele era.

Neste mergulho nostálgico, você vai ver:

  • Pés de Ouro: Como ele reproduzia obras de arte mediunicamente usando o pincel entre os dedos dos pés.
  • O Transe: Programa sobre paranormalidade e espriritualidade na TV chamado Terceira Visão. Sessões de pintura mediúnica no bairro Ipiranga lá nos anos 1980.
  • O Mistério: Um resumo sincero sobre fenômeno da pinttura mediúnica e a carreira de palestrante.

Tire os sapatos e entre nessa galeria espiritual


O VÉI DO BLOGUE NO MULTIVERSO: LUIZ ANTONIO GASPARETTO, CARL SAGAN E O BUG NA MATRIZ

Tem coisas que a gente guarda na gaveta do “não sei explicar e não quero dar uma de Padre Quevedo”. Em 1989, eu era um moleque de 13 anos, já devidamente batizado pelo Metal e pelo Cinema B, quando minha mãe — que sempre foi do time dos livros da Zíbia e da filosofia da família Gasparetto — me arrastou até o Ipiranga. O destino? O Espaço Vida e Consciência.

Eu esperava um sermão espírita. Aquele cheiro de mofo moral que as casas espíritas carregam, com palestra monótona, cadeira de plástico e aquela sensação de que Deus estava com preguiça de aparecer. O que recebi foi outra coisa. Foi um espetáculo de ficção científica com pitadas de horror corporal que eu não pedi e nunca esqueci.


Quem Foi Luiz Antônio Gasparetto? O Médium que Virou Fenômeno Cultural no Brasil

Luiz Antônio Gasparetto nasceu em São Paulo em 1949 e morreu em 2018, de câncer no pulmão. Entre essas duas datas, ele construiu uma das carreiras mais fascinantes da história do esoterismo brasileiro — e olha que a concorrência é pesada.

Filho de Zibia Gasparetto, escritora espírita com dezenas de livros publicados e uma legião de leitoras fiéis que incluía a minha mãe, ele cresceu mergulhado numa tradição espírita que levava a comunicação com os mortos a sério. Mas enquanto a mãe se dedicava à literatura psicografada — romances sentimentais canalizados de entidades que, convenhamos, tinham um talento narrativo suspeito demais pra serem almas errantes —, Luiz Antônio foi por outro caminho. Um caminho mais selvagem.

Ele pintava. Mas não do jeito que a palavra “pintar” sugere.

Gasparetto ficou famoso por produzir pinturas em transe mediúnico com uma velocidade e uma qualidade que desafiam qualquer explicação confortável. Quadros no estilo de Renoir, Picasso, Toulouse-Lautrec, Cézanne — executados em minutos, às vezes simultaneamente, às vezes de cabeça pra baixo, às vezes com os pés. Não como truque de circo. Como algo que parecia emanar de fora do corpo.


O Programa Terceira Visão: Quando o Ocultismo Brasileiro Tinha Estética de Pesadelo Bom

O programa Terceira Visão, exibido pela Band nos anos 80
O programa Terceira Visão, exibido pela Band nos anos 80

Antes de eu o ver ao vivo, já o conhecia pela televisão. O programa Terceira Visão, exibido pela Band nos anos 80, era um objeto cultural singular que hoje não existiria em nenhum canal do mundo — e a ausência disso nos empobrece.

O programa tinha aquela estética esfumaçada da TV aberta brasileira dos anos 80: câmeras de tubo, luz chapada, apresentadores com ternos que brilhavam mais do que deveriam. Mas o conteúdo transbordava. Gasparetto aparecia em transe ao vivo, pintando, falando com vozes diferentes, discorrendo sobre filosofia espírita com uma articulação que contrastava violentamente com o contexto kitsch ao redor.

Era o tipo de coisa que você assistia às onze da noite e ficava com a sensação de que a realidade tinha rachado ligeiramente. Não de medo. De estranhamento. A mesma sensação de ler Poe antes de dormir sendo adolescente — aquela coceira na nuca que diz: existe algo que eu não estou enxergando.

O programa foi, de muitas formas, minha primeira escola de que o mundo é mais poroso do que nos ensinam.


A Noite no Ipiranga: O Palco Azul, a Trilha de Cosmos e o Moleque de 13 Anos

Logo do Espaço Vida e Consciência

Mas ver na televisão é uma coisa. Ver ao vivo é outra dimensão — e uso a palavra sem ironia.

O Espaço Vida e Consciência era um auditório que a família Gasparetto mantinha no Ipiranga, bairro de São Paulo onde o clima já tem uma melancolia industrial que predispõe ao místico. Minha mãe chegou animada. Eu cheguei de braços cruzados, com a cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar — de preferência num cinema passando alguma coisa com monstro.

E então o ambiente me desarmou antes mesmo de Gasparetto entrar.

O palco estava banhado por luz azulada. Não a luz morna de vela das sessões espíritas de bairro. Uma luz fria, quase siderúrgica, que fazia o espaço parecer a ante-sala de outra coisa. E as caixas de som? Tocavam a trilha sonora de encerramento de Cosmos, a série de Carl Sagan. Aquela melodia do Vangelis — Alpha— que começa devagar, se expande pelo espaço como névoa e te faz sentir simultaneamente grandioso e insignificante.

Eu travei.

Porque aquilo era uma contradição linda e perturbadora — mas eu só ia entender isso muito depois.

Na hora, aos 13 anos, era só feeling. A música me pegou pelo estômago antes de qualquer análise: aquela melodia que começa devagar, se expande como névoa e te faz sentir simultaneamente grandioso e insignificante. Eu não sabia o nome. Não sabia de onde vinha. Só sabia que ela mudava o peso do ar no auditório.

Foi anos depois, já adulto, que fui puxar o fio: a música era do programa Cosmos, de Carl Sagan. Composta por Vangelis. E aí a contradição explodiu com força retroativa — Sagan, que dedicou a vida a combater o pensamento mágico com elegância e rigor, cujas frases sobre o universo virariam aforismos do ceticismo pop, era ele quem embalava, sem saber, a entrada do cara que falava com espíritos.

O organizador do evento provavelmente só queria algo que soasse cósmico. Mas o acidente virou poesia.

Eu tinha 13 anos e já sentia que aquele paradoxo era importante, embora não soubesse articular por quê.

Música que tocou no evento no Espaço Vida e Consciência do Gasparetto lá em 1989

Gasparetto em Transe: O que Acontece Quando um Ser Humano Vira Impressora

Quando ele entrou, o auditório esfriou mais um grau. Não de medo coletivo — de atenção. Era uma presença que não precisa de anúncio.

Gasparetto se sentou em frente a uma série de telas em branco dispostas ao redor. Tintas, pincéis e uma coisa que eu não esperava: ele tirou os sapatos.

E aí o negócio mudou de figura.

O que aconteceu nas horas seguintes — porque durava horas, não era truque rápido — foi algo que meu cérebro de moleque metaleiro, já treinado para o ceticismo saudável, não conseguiu encaixar em nenhuma caixa disponível. Em transe, com os olhos fechados ou revirados, Gasparetto trabalhava em múltiplas telas ao mesmo tempo. Com as mãos. Com os pés — um pincel preso entre os dedos de cada pé, atacando telas distintas simultaneamente. De cabeça pra baixo. Sem olhar.

Luiz Antônio Gasparetto realizando pintura mediúnica com os pés em transe, estilo Degas.
Luiz Antônio Gasparetto realizando pintura mediúnica com os pés em transe, estilo Degas.

E o resultado não era arte ingênua. Não era rabisco de transe. Era pintura de qualidade reconhecível — traços que evocavam impressionismo, expressionismo, com a segurança de quem passou décadas dominando o gesto. Exceto que o corpo que executava esses gestos parecia não ser guiado pela mente que habitava aquele crânio.

Isso é o que me assombra até hoje, décadas depois: não é impossível aprender a pintar bem. Mas é praticamente impossível aprender a pintar dois quadros simultaneamente, com pés e mãos, de cabeça pra baixo, em velocidade acelerada, produzindo resultado coerente e esteticamente consistente. A curva de aprendizado desse “truque” consumiria uma vida inteira — e ainda assim seria um truque sem sentido, porque o resultado final não precisaria ser bom.

Era bom. Era perturbadoramente bom.

O moleque de 13 anos foi embora dali com uma certeza que sobreviveu a décadas de ceticismo e explicações lógicas: eu vi algo que eu não consigo explicar. E, sinceramente? Tudo bem não ter uma resposta pronta. Às vezes o mistério é mais honesto que a conclusão.


Medium, Psicólogo e Palestrante: A Trajetória Completa de Gasparetto

O que muita gente não sabe é que Gasparetto não era só o cara dos quadros. Ele tinha formação em psicologia — o que adicionava uma camada extra de ambiguidade fascinante à figura. Esse homem conhecia Freud e Jung tão bem quanto conhecia Kardec. Sabia articular a experiência mediúnica em linguagem clínica sem trair nenhum dos dois territórios.

Durante os anos 80 e 90, ele construiu um império paralelo ao da mãe: palestras, livros próprios, o programa de TV, rádio, apresentações ao vivo pelo Brasil. Era uma agenda de rockstar do invisível. Platéias de milhares de pessoas que iam ver o cara pintar e saíam com a sensação de ter tocado em algo que transcende o cotidiano.

Ele também trabalhava com o que hoje chamaríamos de desenvolvimento pessoal — mas com substância filosófica, enraizado na cosmologia espírita kardecista, que tem uma estrutura de pensamento mais elaborada do que os críticos superficiais costumam reconhecer.

Essa ideia de que o sofrimento tem um propósito e que o amor atravessa dimensões pode até parecer ingênua para alguns. Mas, no fundo, o que o Gasparetto pregava era um sistema mais moderno de causa e efeito muito mais profundo que a raiz do espiritismo: você é o único dono da sua realidade. Como ferramenta para dar sentido à vida e sair do papel de vítima, essa filosofia de autorresponsabilidade é tão sólida quanto qualquer tratado filosófico por aí.


O Declínio do Mistério: Quando o Gasparetto Virou Coach

Gasparetto
Médium, Psicólogo e Palestrante: Luiz Gasparetto

O problema é que o tempo é cruel até com os mutantes.

Em algum momento — difícil precisar quando, mas minha impressão é que foi nos anos 2000, quando o Brasil inteiro pegou a febre do coaching e da autoajuda de aeroporto — o Gasparetto que me fascinava foi sendo gradualmente substituído por outro. Ele enveredou bastante para este lado.

O Gasparetto Coach.

Não que ele tenha abandonado a mediunidade e a psicologia (ele dava boas dicas na rádio Mundial). Mas o centro de gravidade mudou. As palestras passaram a ter mais fórmulas de felicidade e menos mistério cósmico. A profundidade deu lugar a frases mais efetivamente sobre prosperidade.

O mistério virou produto. O palco azul do Ipiranga foi sendo substituído, na minha imaginação, por um palco bem iluminado e uma plateia de executivos buscando propósito.


Por que a Morte de Gasparetto em 2018 Pesou Como Tijolo

Quando ele morreu de câncer no pulmão em 2018, a pancada foi seca.

Eu não esperava sentir tanto. Porque eu tinha me afastado do personagem que ele havia se tornado. Mas a morte não arquiva a versão que você escolheu guardar. Ela arquiva todas as versões de uma vez.

E a versão que ficou mais pesada foi a do palco azul. O menino de 13 anos com braços cruzados que saiu dali com os braços abertos para a impossibilidade. O cara que me mostrou, antes de qualquer leitura de ficção científica adulta, que o universo pode ter mais gavetas do que a gente supõe.

Senti como se tivesse perdido um tio doido — aquele parente que te mostra o lado escuro da lua enquanto o resto da família fala de política no almoço de domingo.


Gasparetto Era Real? Respondo com Ceticismo Bem Honesto

Eu não sei.

E essa é a resposta mais honesta que tenho depois de décadas carregando essa pergunta.

Se eram espíritos de artistas mortos canalizando habilidade póstuma através de um médium vivo? Talvez… Se era alguma habilidade neurológica dissociativa extraordinária — um estado alterado que libera capacidades motoras normalmente bloqueadas pelo ego consciente? Também é possível. Se era um grau de maestria treinada tão profundo que o resultado parecia sobrenatural sem ser? Improvável, mas não descartável.

O que eu sei é que o ceticismo honesto não é o mesmo que o negacionismo reflexivo. Ceticismo de verdade exige que você encare os dados antes de descartar. E os dados que eu vi com meus próprios olhos, naquele auditório no Ipiranga em 1989, ao som de Vangelis, não se encaixam na explicação preguiçosa.

Gasparetto foi o maior showman do invisível que esse país já teve. E entre o coaching e o pincel no pé, eu fico com a imagem do cara possuído, borrando o mundo com cores que não deveriam estar ali.

Esse bug na matriz, eu não consigo fechar.


1. Um Vídeo Histórico

Reportagem clássica do Fantástico (1981) É onde o Brasil parou para ver ele pintando com os pés e mãos. Isso segura o leitor na página.

2. O Lado “Vida & Consciência” (Legado Familiar)

3. Chico Xavier e Gasparetto (Encontro de Gigantes)

4. Contexto de Transição (O “Gasparetto da Rádio Mundial e da TV”)

Para quem quer lembrar dele como o comunicador ácido e divertido que “não passava a mão na cabeça”, a matéria da Folha de S.Paulo sobre sua trajetória é um excelente link de referência biográfica.

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Manifesto Talvez… Bom dia, Caneca! Uma Viagem pelo Universo das Conspirações e do Misticismo — Com o Pé Atrás

E você, já limpou sua aura hoje?

Sabemos que o mistério da pintura mediúnica de Luiz Gasparetto é um nó na cabeça de qualquer um. Mas e aí? Você era do time que ficava hipnotizado na frente da TV ou do time que achava que era tudo um truque muito bem ensaiado com os dedos do pé?

Se você já teve uma experiência estranha dessas que a ciência finge que não vê, ou se o Gasparetto já te deu uma “bronca” espiritual que mudou sua vida, deixe um comentário aqui embaixo.

Não precisa psicografar nada, é só digitar mesmo. Vamos debater esse mistério antes que o próximo encosto resolva baixar sem pedir licença!

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