Onde Foi Filmado O Homem que Desafiou o Diabo? O Mapa das Pelejas Ojuara no RN

O filme O Homem que Desafiou o Diabo, baseado no livro As Pelejas de Ojuara do escritor potiguar Nei Leandro de Castro, foi inteiramente gravado no Rio Grande do Norte entre 2006 e 2007. As principais locações de Ojuara incluem o Açude Gargalheiras (Acari), o Castelo de Bivar (Carnaúba dos Dantas), além de cenas filmadas em Jucurutu, Caicó, São Gonçalo do Amarante, Currais Novos e São José de Mipibu. A produção dirigida por Moacyr Góes contou com 25 atores potiguares no elenco e cerca de 200 figurantes locais.

Faz quinze anos que troquei São Paulo por Natal. Desde então venho descobrindo que o Rio Grande do Norte tem muito mais história pra contar do que o turismo de buggy e ginga com tapióca. Uma dessas histórias é justamente o fato de que, em 2006, o sertão potiguar virava palco de uma das produções mais autênticas do cinema nacional.

Seis semanas de filmagem. Sete cidades. Duzentos figurantes. E um castelo medieval no meio do sertão que até hoje pouca gente conhece. Vamos destrinchar esse roteiro? Veja Onde Foi Filmado O filme das pelejas de Ojuara

1. As Pelejas de Ojuara no Açude Gargalheiras (Acari)

 Açude Gargalheiras (Acari) RN . As fiimagens do filme do Ojuara se passaram  aqui também
Açude Gargalheiras, transbordando durante a cheia de junho de 2009. Foto de allanpatrick – Flickr

As tomadas aéreas com Marcos Palmeira montado a cavalo, interpretando Ojuara, foram feitas às margens do Açude Gargalheiras, em Acari. E não estamos falando de qualquer poça d’água do sertão. O Gargalheiras é o principal reservatório da região Seridó, inaugurado em 1959, com capacidade pra 44,4 milhões de metros cúbicos de água.

Quando sangra, forma o famoso “véu de noiva”, um espetáculo que só aconteceu 30 vezes desde que foi construído. Em 2024, depois de 13 anos seco, o açude sangrou de novo e virou festa nacional, com vigília, foguetório e transmissão ao vivo. Em 2006, quando Ojuara galopou por lá, o cenário era outro, mas a beleza bruta permanecia.

Conexão cinematográfica: Anos depois, o mesmo Açude Gargalheiras seria locação do aclamado Bacurau (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho. Acari entende de cinema, mas segue sem o reconhecimento que merece. O local foi reconhecido como patrimônio cultural, histórico, geográfico, paisagístico, ambiental e turístico do Rio Grande do Norte.

2. Ojuara no Castelo de Bivar: A Loucura Medieval de Carnaúba dos Dantas

Castelo de pedra medieval restaurado com torres e ameias sob céu nublado no Rio Grande do Norte.

Aqui a história vira delírio febril. No município de Carnaúba dos Dantas existe um castelo medieval de verdade, cravado há mais de 20 anos num morro na saída da cidade. Não é cenografia barata de filme B. É concreto, pedra e a teimosia de um homem chamado José Ronílson Dantas.

Ronílson é técnico em edificações e passou anos trabalhando em mineração. Quando voltou pro Seridó, nos anos 80, assistiu El Cid (com Charlton Heston) na televisão e decidiu que ia construir um castelo igual. Sem arquiteto, sem planta, sem projeto. Tudo saía da cabeça dele direto pro pedreiro. São 20 cômodos, 56 janelas espalhadas por quatro torres, sendo a mais alta com 21 metros de altura. O homem admite que se tivesse parado pra calcular o custo, teria desistido.

Quando a produção de O Homem que Desafiou o Diabo apareceu, queriam usar o Castelo de Bivar de graça, com aquele papo furado de “divulgação”. Mas um ator global que namorava uma menina de Carnaúba alertou Ronílson: eles têm dinheiro, cobra. E ele cobrou mil reais por dia durante 15 dias de locação.

O Castelo de Bivar virou a morada da Mãe de Pantanha no filme. Aquela bruxa cabulosa da vagina dentada morava num castelo medieval perdido no sertão. Funcionou perfeitamente.

Flávia Alessandra passou um fim de semana inteiro gravando lá, 12 horas por dia. Francisca Dantas, mãe do dono do castelo e vizinha privilegiada do set de filmagem, não se impressionou com a atriz global. O que deixou ela boquiaberta foi a cama redonda de Mãe de Pantanha: “Ave Maria! Se eu deitasse naquela cama redonda que tem lá em cima caía do outro lado”, disse morrendo de rir.

As notícias do set chegavam pelo fim da tarde, quando a prima de Francisca, que trabalhava na cantina instalada na parte externa do castelo, descia a ladeira. E foi dela que veio um dos causos mais reveladores dos bastidores.

Leia também: As Pelejas de Ojuara: Tudo sobre o clássico de Nei Leandro de Castro — Entenda por que essa história mudou a literatura potiguar antes de virar cinema.

3. Bastidores de Ojuara: O Elenco Potiguar e os 25 Atores Locais

A equipe de produção de O Homem que Desafiou o Diabo estava num ritmo alucinado. Setenta pessoas entre diretores, técnicos, contra-regras e atores trabalhando simultaneamente. Para cada cena, de 16 a 20 pessoas ficavam no set, fora o elenco. E com esse volume de gente, o estresse era inevitável.

Francisca conta que certa vez o pessoal da produção chegou gritando na cantina, reclamando da demora no almoço. A prima que trabalhava lá mandou a real: se continuassem enchendo o saco, ela pegava as coisas e ia embora. Foi quando Marcos Palmeira apareceu, educado, perguntando o que estava acontecendo, e acalmou todo mundo.

A população de Carnaúba dos Dantas elegeu Palmeira como a pessoa mais simples e simpática do elenco. Não sei se isso é elogio ao ator ou crítica velada ao resto da turma.

Os 25 Atores Potiguares que Paticiparam da Obra

Aqui mora um dos maiores crimes do cinema brasileiro: enquanto todo mundo babava ovo pro casting nacional, 25 atores locais seguraram a onda e deram dignidade ao filme. Os nomes? João Júnior, Pedro Mendes, Dimas Carlos,Tiquinha Rodrigues, Doc Câmara, Quitéria Kelly, Geraldo Maia, Titina Medeiros, Bárbara Cristina, Dimas Carlos e Tarcísio Gurgel, entre outros.

O próprio Marcos Palmeira elogiou especialmente o ator que interpretou Jé Bernardo, um dos vaqueiros da fazenda do Coronel Ruzivelte. Segundo ele, tem gente de muito talento em Natal, com tranquilidade pra fazer cinema de verdade. Mas quantos desses 25 atores continuaram trabalhando depois? Quantos viraram nome? É sempre a mesma história: os locais seguram a onda, os globais levam o crédito.

Além do elenco oficial, cerca de 200 figurantes participaram das filmagens de Ojuara. Gente de verdade, cara de sertão de verdade, sem maquiagem globo pra disfarçar quem realmente pertence àquele chão.

4. Ojuara no Sertão: Jucurutu, Caicó, Currais Novos e São Gonçalo do Amarante

Jucurutu: Onde Tudo Começou

As filmagens de O Homem que Desafiou o Diabo começaram pela fazenda Colônia, em Jucurutu, antes de migrar para o castelo em Carnaúba dos Dantas. Cenário perfeito pro sertão bruto que a história exigia.

São Gonçalo do Amarante: Ojuara Entre o Povo

Em São Gonçalo do Amarante, Marcos Palmeira foi filmado circulando entre populares pelas ruas. Cenas de multidão, Ojuara virando lenda no meio da feira. O povo da cidade entrou como figurante e garantiu aquela autenticidade que estúdio nunca consegue fabricar.

Caicó: A Terra de Nei Leandro de Castro

A equipe também passou por Caicó, terra natal do escritor Nei Leandro de Castro, autor do livro As Pelejas de Ojuara que deu origem ao filme. A conexão entre o autor e sua cidade aparece nas referências culturais espalhadas pela narrativa.

Currais Novos e São José de Mipibu

Currais Novos e São José de Mipibu também entraram no roteiro de locações. Cada município empresta sua cara à trama, do sertão rachado às cidades do agreste.

5. Marcos Palmeira e os Cavalos: Bastidores das Filmagens

Close do ator Marcos Palmeira como Ojuara, sorrindo e usando chapéu de couro sertanejo, em cena do filme O Homem que Desafiou o Diabo.
Marcos Palmeira deu vida a Ojuara, personagem que virou ícone do cinema potiguar.

Durante as gravações em Carnaúba dos Dantas, algumas pessoas notaram o carinho de Marcos Palmeira com os cavalos que participavam das cenas de Ojuara. Questionado sobre isso, o ator explicou que cresceu na fazenda do avô, na Bahia, e se identifica com os bichos. Procura tratar todo mundo igual, pessoas e animais, até porque, segundo ele, o animal numa cena só vai render quando estiver bem.

É um raciocínio justo, mas não deixa de ter aquele verniz de quem quer parecer ‘do povo’ pra ganhar a simpatia da cidade. No Sertão, tratar bem o cavalo é o básico da lida, mas pra ator de cinema, parece que vira filosofia profunda.

6. O Livro As Pelejas de Ojuara: Do Esquecimento ao Relançamento

Capa do Livro as pelejas de Ojuara
Livro as Pelejas de Ojuara

O sucesso das filmagens de O Homem que Desafiou o Diabo já estava rendendo pro autor Nei Leandro de Castro antes mesmo da estreia. O livro As Pelejas de Ojuara, lançado originalmente em 1986, foi relançado pela editora Arx, do grupo Siciliano. Os primeiros três mil exemplares se esgotaram durante a fase de filmagens e montagem.

Houve até um evento automobilístico nacional com o nome de Circuito Pelejas de Ojuara, cuja final foi no RN, e muitas atletas compraram o livro pra conhecer mais sobre o tema. O próprio Nei Leandro admitiu que essa relação entre livro e filme é fundamental pra divulgar uma obra que, até então, não era best-seller.

Marcos Palmeira confessou numa entrevista que nem tinha lido o livro até receber o convite pro filme. Ou seja, a obra do escritor potiguar precisou virar cinema global pra finalmente ser lida. Triste, mas real.

Se você prefere sentir o peso do papel e a força da escrita do Nei, pode encontrar a edição física de As Pelejas de Ojuara aqui.

7. Por Que Esse Filme Importa Pro RN (Mesmo Sendo Imperfeito)

O Homem que Desafiou o Diabo não é uma obra-prima. Tem defeitos de montagem, momentos que escorregam pro novelesco “globalista” e uma estrutura episódica que nem sempre funciona no cinema. Mas é um registro valioso de locações potiguares, de atores locais competentes e de um sertão filmado sem filtro romântico.

O fato de ter sido inteiramente gravado no Rio Grande do Norte, com equipe e elenco local significativos, deveria ter aberto portas pra mais produções. Mas não abriu. O estado continua sendo usado esporadicamente como cenário exótico e depois é esquecido até a próxima novela global precisar de dunas.

Quinze anos morando aqui me ensinaram que o RN tem histórias, paisagens e talentos de sobra. Falta alguém com grana e visão pra transformar isso em cinema de verdade, sem depender do eixo Rio-São Paulo pra validar o que já é bom por si só.

Enquanto isso, o Castelo de Bivar segue lá em Carnaúba dos Dantas, o Açude Gargalheiras volta a sangrar de vez em quando, e os 25 atores potiguares que deram alma ao filme seguem esperando a próxima oportunidade que talvez nunca chegue.

Mas ei, ao menos temos Ojuara galopando pelas telas. E isso, por menor que pareça, já é alguma coisa.

Quer saber mais sobre o herói que desafiou o cão?

Não pare por aqui. Eu fiz uma análise completa sobre a obra que deu origem a tudo isso. Confira meu artigo especial sobre As Pelejas de Ojuara e o universo de Nei Leandro de Castro.

Mais Cinema Nacional no Site do Véi:

Quem Foi Zé do Caixão? O Homem, o Monstro e o Gênio que o Brasil Ignorou em Vida
O Homem da Capa Preta: A História Real e o Filme de 1986
À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964): A Certidão de Nascimento do Horror Brasileiro
Encarnação do Demônio (2008): O Fechamento da Maldição do Zé do Caixão com Quarenta Anos de Gestação

🌵 O Veredito: Ojuara é a Identidade Real do Sertão ou Apenas uma Caricatura?

Depois de revisitar as locações onde o diabo comeu poeira — de um Açude Gargalheiras que sangra história a um Castelo de Bivar que desafia a lógica do Seridó —, fica a pergunta que separa quem é da terra de quem só está de passagem:

O Homem que Desafiou o Diabo é o retrato mais fiel da coragem sertaneja ou o cinema nacional ainda deve uma produção que faça jus à grandiosidade de Nei Leandro de Castro?

Você consegue olhar para as pelejas de Ojuara e não ver ali um pouco de cada potiguar que não se dobra pra destino nenhum? Acha que o filme acertou no tom de comédia épica ou deveria ter mergulhado mais fundo na crueza do sertão? No fim das contas, quem venceu a peleja: o mito criado nas páginas do livro ou a imagem de Marcos Palmeira cavalgando pelo RN?

Risque o fósforo nos comentários — mas chegue com argumento. Se vier dizer que é “filme de interior” sem entender a profundidade de um homem que cria sua própria lei, é sinal de que você não entendeu nada sobre o espírito do Seridó. 🌵

⚠️ Aviso aos leitores de “cinema cult” de shopping: Comentários reclamando do sotaque ou da simplicidade da vila serão ignorados com a mesma força que Ojuara ignora os sermões do padre — com um sorriso no rosto e o pé na estrada.

Um herói improvável. Um sertão imenso. Uma única missão: provar que a maior peleja do homem é contra o seu próprio medo — com chapéu de couro, astúcia e sem pedir benção a coronel nenhum.

E você? Qual foi a cena de Ojuara que te fez sentir orgulho de ver o nosso RN na tela? Já levou alguém pra conhecer o Castelo de Bivar e contou que ali foi o refúgio da Mãe de Pantanha? Compartilha aí embaixo — a lenda de Ojuara ainda tem muito chão pela frente.

Deixe um comentário