David Lee Roth Discografia Solo: O que Você Perde se Só Conhece o Van Halen

Faz uns dois anos que ando ouvindo bastante música do jeito certo: sem fazer nada ao mesmo tempo em que ouço. Eu chego do trabalho, como alguma coisa, passo um tempo com a família, tomo o meu banho e vou ouvir música, pelo menos uma ou duas horas por dia. Escuto com fone de ouvido. Às vezes ouço algo nostálgico, mas gosto mesmo é de redescobrir bandas e artistas.

Foi assim que descobri como era impressionante o disco Into the Pandemonium, do Celtic Frost, que é bem antigo, mas que na época eu não havia conhecido.

Ontem, eu estava ouvindo algumas coisas do Van Halen clássico com o David Lee Roth, que eu já conheço muito bem. Porém, na sequência, segui com a carreira solo do “Diamond Dave“. Que agradável surpresa. Ouvi toda a discografia, faixa por faixa, sem achar nada chato. Nunca imaginei uma caixinha de surpresas tão rica. Foi uma das melhores redescobertas desde que comecei essa jornada de ouvir música diariamente antes de dormir.

Algumas discografias solo parecem um apêndice da banda principal. A de David Lee Roth parece uma loja de brinquedos abandonada: você abre uma porta e encontra jazz, abre outra e encontra hard rock, abre outra e aparece country, reggae, lounge e standards de Las Vegas.

Se você só conhece os megahits de rádio, deixa eu te mostrar o que tem por baixo disso tudo.


Quem É David Lee Roth de Verdade

David Lee Roth nos primórdios da carreira

Antes de falar dos discos, preciso falar do homem. Porque Dave não é só um vocalista de rock. Ele é um personagem construído com muita consciência ao longo de décadas, e entender de onde ele veio explica tudo que ele fez depois.

Nascido em Bloomington, Indiana, em 1954, Dave foi criança de colete ortopédico nas pernas, diagnosticado como hiperativo e, por cima, judeu numa cidade que não tinha muitos judeus. Era o de fora, o esquisito, o alvo.

Esse tipo de infância ou quebra a pessoa ou a transforma em algo completamente imune à opinião alheia. No caso de Roth, aconteceu a segunda coisa, com juros.

A Infância no Cafe Wha? e as Influências Negras e de Jazz

Foto de anuário escolar de David Lee Roth na adolescência, vestindo terno e gravata com cabelo curto e escuro, antes da fama com o Van Halen

Dave nasceu em Bloomington, Indiana, foi diagnosticado como hiperativo ainda criança, usou aparelho ortopédico nas pernas e não se entendia com ninguém na escola. Era judeu, vivia mudando de cidade, o garoto que não cabia em lugar nenhum.

Passou parte da infância em Nova York, na casa do tio Manny Roth, que tocava o Cafe Wha? no Greenwich Village. Morando ali em cima do clube no início dos anos 60, Dave assistiu de camarote a uma das décadas mais importantes da música pop americana. Bob Dylan, Richard Pryor, Lenny Bruce, Joan Rivers passaram por aquele palco. E, segundo o próprio Dave, ele perdeu Jimi Hendrix por uma semana porque o tio tinha acabado de demitir Hendrix por chegar atrasado. Essa história, verdadeira ou não, já diz muito sobre o ambiente em que ele cresceu.

Em casa, o pai colocou na cabeça do garoto Al Jolson, Ray Charles, Frank Sinatra e Louis Prima. Repara nessa lista. Não tem nada de rock ali. São cantores que se apresentavam, que usavam o corpo, a voz e a piada como instrumento tanto quanto a música. Caras que sabiam que entretenimento não é só tocar certo, é fazer o público esquecer onde está.

O resultado dessa mistura foi um sujeito que queria ser Lou Reed, Louis Prima e Bruce Lee ao mesmo tempo. E que, de certa forma, conseguiu.

Os Saltos, os Espacates e as Artes Marciais

As artes marciais entram no personagem ainda na adolescência, quando o vizinho japonês, senhor Yoshida, ensinou kendo para Dave menino. Isso moldou os chutes altos, os espacates, os saltos que viraram a marca registrada do show do Van Halen.

Ao contrário de Elvis, que levou o karatê a sério mas acabou tornando tudo uma caricatura nos anos 70, Roth faz o oposto: ele leva as artes marciais a sério e não se leva tão a sério. É por isso que os saltos e espacates em palco funcionam mesmo hoje em dia. Há exuberância genuína ali, não performance forçada. Tem um cara chutando o ar com 70 anos porque ele gosta de chutar o ar.

No palco, Roth tratava o suporte do microfone como objeto de cena, girando, apoiando, usando-o para enquadrar o próprio corpo à maneira de um artista de vaudeville. Cada chute alto era uma marca de pontuação visual, um crash cymbal humano no momento mais pesado da música. A descrição mais precisa que já ouvi sobre o estilo de performance dele é vaudeville encontrando a Sunset Strip. É exatamente isso.

O Senso de Humor que Poucos Percebem

O que torna Dave único não é só a técnica vocal ou o físico de ginasta. É o senso de humor. Dave é engraçado de verdade.

Não aquele humor de rock star que ri das próprias piadas antes de terminar de contá-las. Ele é o tipo de comediante que entende timing, que sabe que a piada mais eficiente é aquela que você não vê vindo.

Nos vídeos da época, quando ele dialoga com a guitarra de Steve Vai em Yankee Rose como se fosse uma conversa de bar, quando faz o papagaio na frente do espelho em Just a Gigolo, quando aparece vestido de caubói com ar de total seriedade em cima de uma piada absurda, está tudo calculado. A persona do idiota é o trabalho de um sujeito inteligente que estudou muito os melhores de cada geração.

Esse é o sujeito que, em 1985, no topo do mundo com o Van Halen, decidiu sair e fazer o que bem entendesse.


O Legado no Van Halen e a Saída em 1985

Dave Lee Roth no inicio da banda Van Hallen
Dave Lee Roth no inicio da banda Van Hallen

Junto com os irmãos Eddie e Alex Van Halen e o baixista Michael Anthony, Roth redefiniu o rock entre 1978 e 1984. O álbum de estreia homônimo, Women and Children First, Fair Warning e o lendário 1984 formaram uma sequência de discos que mostraram que rock podia ser tecnicamente impressionante e completamente despretensioso ao mesmo tempo.

Eddie Van Halen revolucionou a guitarra. Mas sem Dave na frente transmitindo a ideia de que aquilo tudo era a coisa mais divertida do mundo, o Van Halen seria outra banda de hard rock competente.

Em 1985, no topo, Roth saiu. A questão que ninguém sabia responder era simples e brutal: sem Eddie Van Halen, o que sobrava de Dave?

A resposta levou alguns anos para ficar completa. Mas foi uma das respostas mais interessantes do rock americano dos anos seguintes.


O Retorno ao Van Halen: A Reunião que o Mundo Esperava Há Duas Décadas

A primeira tentativa de reconciliação havia acontecido em 1996, numa aparição nos MTV Music Awards que terminou em mais uma separação amarga. Houve também uma tentativa abandonada em 2001. Em fevereiro de 2007, o Van Halen anunciou uma turnê de verão acompanhada de uma declaração de Eddie: “Estou muito animado para voltar ao coração do que fez o Van Halen ser o Van Halen.” Mas o guitarrista então entrou em reabilitação por causa dos seus documentados problemas com álcool, e a turnê foi cancelada até que ele completasse o programa. Ultimate Classic RockUltimate Classic Rock

Quando finalmente aconteceu, foi grande. A turnê 2007–2008 foi a de maior bilheteria na história da banda, com casas esgotadas por toda a América, arrecadando mais de 93 milhões de dólares. Quase um milhão de fãs vieram de todo o mundo para assistir ao evento, que começou em 27 de setembro de 2007 em Charlotte, Carolina do Norte, e encerrou em 2 de junho de 2008 em Grand Rapids, Michigan. Van Halen News Desk

O show de abertura em Charlotte começou com a versão coberta dos Kinks, “You Really Got Me”, que encontrou Roth e Eddie trocando um high-five ao final da música, com Roth comentando: “Só levou 20 anos para chegar até aqui.” Os shows contavam com uma rampa em formato de S que serpenteava atrás do bumbo de Alex e ia até a plateia.

Houve uma novidade polêmica nessa reunião: o baixista de longa data Michael Anthony havia sido controversamente afastado da banda em favor de Wolfgang, filho de 16 anos de Eddie, que assumiu o baixo na turnê. Roth, ao ser questionado sobre a ausência de Anthony, foi direto: “Isso não é uma reunião. É uma nova banda.” Ultimate Classic Rock

Segundo Wolfgang, as sementes da reunião começaram em 2006 quando ele, Eddie e Alex Van Halen começaram a ensaiar juntos no estúdio 5150. Foi o próprio Wolfgang quem sugeriu trazer Roth de volta. “No início era tudo por diversão e estávamos nos divertindo muito como trio”, disse. “Mas quando começou a mostrar que havia substância ali, foi quando ficou inevitável que seria Roth. Foi ideia minha, é definitivamente o que eu queria.” Van Halen News Desk

A turnê foi grande o suficiente para justificar uma continuação. Em 2012, o Van Halen anunciou uma turnê massiva de aniversário de 40 anos. E junto com a turnê veio o que ninguém mais esperava: um disco novo. CBS News

A Different Kind of Truth, lançado em 7 de fevereiro de 2012 pela Interscope Records, foi o décimo segundo e último álbum de estúdio do Van Halen — e o primeiro com David Lee Roth desde 1984. Sete das treze faixas eram músicas retrabalhadadas musicalmente e reescritas liricamente a partir de demos gravados no fim dos anos 1970 e início dos 80, que nunca haviam sido lançados oficialmente. O disco estreou na segunda posição da Billboard 200 e foi eleito o álbum número um de 2012 por várias publicações especializadas. Depois da turnê, a banda entrou em hiato em 2015 e nunca mais voltou aos palcos.

6 de Outubro de 2020: O Dia em que Tudo Acabou

Há uma data que separa o antes e o depois na vida de David Lee Roth de um jeito que nenhuma saída de banda ou fracasso comercial consegue: 6 de outubro de 2020. Eddie Van Halen, cofundador da lendária banda de arena rock e amplamente considerado o maior guitarrista de todos os tempos, morreu aos 65 anos após uma longa batalha contra o câncer. Stereogum

David Lee Roth publicou uma foto de si mesmo com Eddie nas redes sociais com as palavras: “What a Long Great Trip It’s Been.” — “Que viagem longa e maravilhosa foi essa.” Curto, sem explicação. Exatamente o tipo de coisa que Dave diz quando não há mais nada a dizer. TODAY.com

Havia planos secretos que nunca chegaram a lugar nenhum. Alex Van Halen revelou mais tarde ao Rolling Stone que Roth e ele haviam começado ensaios preliminares, com planos de ter Joe Satriani na guitarra substituindo Eddie numa possível turnê. A tour acabou cancelada por uma razão ainda mais delicada: divergências entre Alex e Roth sobre como honrar o legado de Eddie. “O que quebrou o galho”, disse Alex, “foi quando eu disse: ‘Dave, em algum momento, precisamos ter um reconhecimento muito claro de Ed no show. Olha como o Queen faz, eles mostram imagens antigas.’ E no momento em que eu disse que precisávamos reconhecer Ed, Dave explodiu.” Remind Magazine

Em outubro de 2021, Roth anunciou que seu último show seria em 8 de janeiro de 2022 no House of Blues do Mandalay Bay, em Las Vegas. “Estou jogando fora os sapatos. Estou me aposentando”, disse ao Las Vegas Review-Journal. “Dei tudo que tinha para dar. Foi uma corrida incrível e fantástica, sem arrependimentos, nada a dizer sobre ninguém. Sentirei falta de todos vocês. Fiquem gelados.” Rolling Stone

Ele foi honesto sobre os motivos: “Fui encorajado e compelido a realmente lidar com o quão curto é o tempo, e meu tempo é provavelmente ainda mais curto. Achei que poderia ter sido o primeiro [membro do Van Halen a morrer], sinceramente. Poderia ter achado que o Marlboro Man me pegaria. ‘Ei, Ed, os objetos no espelho retrovisor provavelmente sou eu.’ E meus médicos me compeliam a realmente reconhecer que toda vez que subo ao palco, coloco esse futuro em risco.” Remind Magazine

Três meses depois do anúncio, a residência foi cancelada por “circunstâncias imprevistas relacionadas à COVID”. Dave se aposentou sem um show de despedida. O último palco tinha sido em março de 2020, no Texas, abrindo para o Kiss


A Discografia Solo de David Lee Roth Álbum por Álbum

Crazy from the Heat (1985): O EP Que Não Devia Funcionar, Mas Funcionou

Capa do EP Crazy from the Heat (1985)
Capa do EP Crazy from the Heat (1985)

O primeiro passo solo foi um EP de quatro covers. No papel, parecia suicídio comercial: um vocalista de hard rock saindo do maior grupo do mundo para gravar standards de jazz e pop dos anos 50, sem guitarras pesadas, sem pirotecnia, sem nada que se esperaria de um ex-Van Halen.

Na prática, foi uma declaração de princípios.

Dave cobriu California Girls dos Beach Boys. Mas a escolha mais reveladora foi o medley “Just a Gigolo / I Ain’t Got Nobody”, que é diretamente a versão que Louis Prima criou em Las Vegas nos anos 50, com arranjo do seu sideman Sam Butera. São dois standards independentes que Prima costurou num só número para o show do Sands Hotel.

A versão de Roth é praticamente nota por nota a de Prima, algo que deixou Butera furioso por nunca ter sido creditado nem compensado. Roth provavelmente não perdeu muito sono com isso.

California Girls chegou ao número 3 na Billboard Hot 100. Just a Gigolo também foi hit. O EP foi a prova de que a personalidade sustentava qualquer repertório. Guitarra pesada era opcional.

O clipe de Just a Gigolo merece uma menção especial. Dave aparece como apresentador de um programa fictício de videoclipes chamado “Dave TV” e vai passeando por corredores e estúdios onde se encenam paródias dos clipes de Michael Jackson, Cyndi Lauper, Billy Idol, Willie Nelson e Boy George com imitadores, cenários e tudo.

Enquanto os ex-colegas do Van Halen estavam na sério com Sammy Hagar tentando fazer o rock mais importante da América, Dave estava produzindo esquetes de televisão disfarçadas de videoclipe. Isso diz muita coisa.


Eat ‘Em and Smile (1986): A Obra-Prima da Carreira Solo

Eat 'Em and Smile (1986) Capa do CD
Eat ‘Em and Smile (1986)

Esse é o disco. Para substituir Eddie Van Halen, tarefa que seria impossível para qualquer guitarrista normal, Roth escalou Steve Vai, que vinha de uma passagem com Frank Zappa, Billy Sheehan no baixo, vindo do Talas, e Gregg Bissonette na bateria, músico de sessão formado na big band de Maynard Ferguson. Uma combinação de virtuoses que hoje parece improvável de imaginar.

O nome do álbum já era uma cutucada. Ao ver o 5150, primeiro disco do Van Halen com Sammy Hagar, Roth batizou o próprio trabalho de “Eat ‘Em and Smile”: devore-os e sorria. O título deixava claro o que ele achava da nova sonoridade da antiga banda. E o disco que veio embaixo desse título não deixava nenhuma dúvida de que ele tinha razão em estar confiante.

As Faixas que Fazem a Diferença

A abertura conta tudo. Em “Yankee Rose”, Vai e Roth travam um diálogo literal: Dave faz perguntas em voz, a guitarra responde, e chega a dar gargalhadas. É uma das aberturas de disco mais desconcertantes e divertidas do rock americano dos anos 80. Na ponte antes do refrão, para quem ainda sentia falta do Van Halen clássico, ela soa exatamente como o Van Halen clássico.

“Shyboy” existe basicamente para deixar Sheehan mostrar do que é capaz numa parte de baixo que levava os aspirantes ao instrumento ao desespero. “Elephant Gun” é hard rock pesado e debochado, DNA direto do primeiro álbum do Van Halen. “That’s Life”, o cover de Frank Sinatra, revela o lado crooner que Dave nunca escondeu e no qual ele é genuinamente bom. Tobacco Road e I’m Easy completam a parte dos covers, aquela veia de boogie e jazz standards que sempre esteve no DNA de Roth e que a maioria das pessoas nunca associa a ele.

O disco chegou ao número 4 na Billboard 200 e vendeu mais de dois milhões de cópias só nos EUA. Com toda razão.


Skyscraper (1988): Mais Polido, Mais Ambicioso, Mais Subestimado

Skyscraper (1988)

Roth e Vai co-produziram esse juntos, sem Ted Templeman. Billy Sheehan saiu antes da turnê do Eat ‘Em and Smile terminar, dizendo em entrevistas que as demos originais de Skyscraper eram melhores que o produto final. Essa é uma informação que pesa quando você ouve o disco e sente que tem algo contido ali, como se parte da energia tivesse ficado na sala de ensaio.

O álbum é mais psicodélico, mais carregado de teclados, mais calculado. “Just Like Paradise” virou o grande hit de rádio, pop de arena com refrão que gruda na cabeça, coescrita com Brett Tuggle, que chegou ao número 1 no Billboard Mainstream Rock.

Mas as faixas que a maioria desconhece são as mais interessantes. A faixa-título tem texturas sonoras incomuns e um solo de Vai que cresce de forma quase caótica. “Damn Good” é talvez a música mais vulnerável que Roth já gravou, uma balada melódica com entrega vocal contida que contrasta com tudo que você espera dele. “Hina” traz influências acústicas e exóticas que ninguém esperaria num disco de hard rock de 1988.

É um álbum irregular, mas irregular de um jeito fascinante. Quem o descarta como “o disco dos teclados” está perdendo as melhores faixas.


A Little Ain’t Enough (1991): Hard Rock com uma Sombra por Trás

A little ain't enough (1991)

Vai tinha saído. Sheehan tinha saído. Roth encontrou Jason Becker, então com 19 anos, considerado um dos maiores prodígios da guitarra da geração.

Uma semana depois de Becker entrar na banda, ele foi diagnosticado com ELA, a esclerose lateral amiotrófica. Conseguiu gravar o disco inteiro. Não conseguiu fazer a turnê: suas mãos já tinham força demais comprometida.

O álbum foi gravado em Vancouver com produção de Bob Rock, o mesmo que naquele mesmo ano produziria o Black Album do Metallica. É hard rock com raízes sólidas no blues. A Lil’ Ain’t Enough abre com energia total. “Tell the Truth”, “Baby’s On Fire” e “40 Below” sustentam o ritmo sem afrouxar.

“It’s Showtime!” e “Drop in the Bucket”, as duas únicas composições de Roth e Becker juntos, são as que revelam até onde aquela parceria poderia ter chegado.

Comercialmente, o grunge já estava chegando e o disco foi ignorado. Musicalmente, é viciante do começo ao fim.


Your Filthy Little Mouth (1994): O Disco Mais Corajoso da Carreira Solo

David Lee Roth – Your Filthy Little Mouth

Esse é o disco que a maioria dos fãs não sabe que existe, e é uma pena genuína.

Roth trocou Los Angeles por Nova York, abandonou os guitarristas virtuosos e chamou Nile Rodgers, criador do Chic e um dos produtores mais influentes do funk e do pop mundial, para produzir. Em vez dos axmen pirotécnicos dos discos anteriores, o guitarrista principal passou a ser Terry Kilgore, um músico mais adequado para o que o disco precisava do que espetacular por si mesmo.

Um Álbum que Desafiou Todos os Formatos

O resultado é desorientante no bom sentido. O álbum toca jazz fusion, dance, country, reggae, R&B, big band, rock e blues, com arranjos enxutos e zero da produção bombástica dos anos anteriores.

She’s My Machine abre com um groove que não tem nada do hard rock anterior. “Cheatin’ Heart Cafe” tem participação de Travis Tritt e soa como country de verdade. “No Big Ting” é reggae. “Experience” é lounge puro, Dave no papel de crooner que ele sempre quis ser.

O disco ignorou completamente o grunge, ignorou o que as rádios queriam em 1994 e pagou o preço comercial. Mas ouvindo hoje, sem aquele contexto de guerra de formatos, é um dos trabalhos mais fascinantes e honestos da carreira de Roth. Ele estava, finalmente, fazendo a idade que tinha.


DLR Band (1998): Guitarras Pesadas de Volta, Sem Pedir Desculpa

Roth voltou ao hard rock de frente, com John 5 na guitarra, o mesmo que mais tarde passaria pelo Marilyn Manson e pelo Rob Zombie. É o álbum mais cru da carreira solo, sem refinamento de produção, sem pretensão de diversificar.

A agressividade que os discos dos anos 80 não precisavam ter porque a festa compensava está aqui explícita. Lançado pelo selo Magna Carta com pouca divulgação, sumiu do radar. Quem encontra hoje leva um susto com a qualidade.


Diamond Dave (2003): Sem Pressa de Provar Nada

Capa do álbum Diamond Dave (2003)

O último disco de estúdio é um trabalho de covers de blues e rock dos anos 50 e 60, as influências da juventude de Roth. Produção simples, nenhuma superbanda, nenhum hit pretendido.

Roth resgata músicas que já estavam no DNA do Van Halen, como “Ice Cream Man” e “Somebody Get Me a Doctor”, e adiciona clássicos do catálogo que formou a sua escuta desde criança. Ray Charles, The Doors. É quase um show íntimo, um cara na mesa da cozinha tocando o que gosta.

Não tem nada a provar, e talvez seja exatamente por isso que soa tão honesto.


Por que a Discografia Solo de David Lee Roth Resiste ao Tempo

Ouvir uma discografia completa no fone, sem distração, revela o que o streaming fragmentado destrói. O que atravessa cada um desses discos é uma assinatura muito específica: técnica instrumental acima da média, um aproveitamento inteligente de músicos que torna cada álbum diferente do anterior, e uma entrega que nunca soa envergonhada de si mesma.

Mas sobretudo o que aparece é a coerência de um personagem. O garoto de colete ortopédico de Indiana que passou a infância absorvendo Ray Charles no rádio, Louis Prima no toca-discos do pai, Jimi Hendrix no porão do tio em Nova York e artes marciais com o vizinho japonês construiu um frontman que não tinha precedente no rock e que não tem sucessor à altura até hoje.

Dave podia ter passado o resto da carreira tentando repetir o Van Halen. Escolheu ser outra coisa. Às vezes acertou mais, às vezes menos. Nunca ficou parado. E nunca foi chato.

Vale cada minuto de audição.

A Volta: Porque Dave Não Sabe Fazer Outra Coisa

Durante o hiato, Roth não ficou parado. Ele lançou músicas novas, manteve um podcast chamado The Roth Show e aprofundou seu interesse em artes visuais — ele passou vários anos no Japão treinando técnicas tradicionais de pintura. Em seu site é possível ver The Roth Project, um romance gráfico interativo, além de suas pinturas abstratas. Como ele disse ao New York Times em 2020: “Isso não é me expressar. Isso é terapia de performance. Estou desabafando. Estou com raiva. E não estou pedindo perdão. E é assim que faço isso.” Remind Magazine

Em maio de 2025, David Lee Roth voltou ao palco no festival M3 em Maryland — seu primeiro show em cinco anos. Acompanhado por uma banda de oito músicos, entregou um set poderoso de clássicos do Van Halen. “Chegamos ao fim da minha primeira aposentadoria”, brincou para a plateia. “Quantas aposentadorias Rocky teve, nove?” Loudwire

Aos 70 anos, Roth percorreu os Estados Unidos durante o verão de 2025, com shows que esgotaram as casas por onde passou. No Humphrey’s Concerts by the Bay em San Diego, em setembro de 2025, apareceu de couro preto da cabeça aos pés — jaqueta, colete, calças — e continuou sendo exatamente o que sempre foi. aol

Em Hampton Beach, New Hampshire, ele atraiu uma casa lotada de 2.200 pessoas e entregou 90 minutos e 18 músicas de alto impacto. Ao se apresentar, disse com a naturalidade de quem sabe exatamente quem é: “Olá, meu nome é David Lee Roth. Mas pode me chamar de Dave.” Boston.com

O set era quase inteiramente de Van Halen — Panama, Hot for Teacher, Running with the Devil, Ain’t Talkin’ ‘bout Love — sem uma única faixa solo, nem California Girls, nem Yankee Rose. Nada da loja de brinquedos abandonada que a carreira solo representa. Só o clássico, servido quente.

Links da casa para quem gosta de Hard Rock

Sua opinião importa (e o Dave sabe disso)

E aí — era do Roth ou era do Hagar?

O Diamond Dave passou décadas num palco sem pedir licença a ninguém. O mínimo que você pode fazer é descer até os comentários e deixar sua opinião. Qual disco solo te pegou de surpresa? Sente falta do Van Halen clássico? Acha que o comeback de 2025 foi necessário?

Spoiler: não existe resposta errada. Mesmo que você vote no Hagar.

💬  O véi responde. Pode vir de colete ortopédico ou de jaqueta de couro — todos são bem-vindos.

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