Por que Zé Ramalho um dos artistas mais originais do Brasil nos anos 70 virou repetição nos anos 90
Existe um tipo de decepção específica que só artistas muito grandes conseguem provocar. Não é a decepção de quem nunca foi grande coisa. É a outra: a de quem foi tão bom que você não consegue parar de comparar o que ele virou com o que ele foi. Zé Ramalho é o caso mais doloroso que a música brasileira produziu nesse sentido.
A obra criativa, essa teve um momento de esplendor muito preciso e um declínio igualmente preciso. E vale a pena autopsiar os dois com alguma honestidade.
Antes do Brasil conhecer: Paêbirú (1975)

Antes do disco de estreia solo, antes de virar o Zé Ramalho que o Brasil aprendeu a cantar junto, ele já tinha feito uma das obras mais estranhas e fascinantes da música brasileira. Em 1975, junto com Lula Côrtes, gravou Paêbirú, um LP duplo de psicodelia nordestina que misturava rock progressivo, misticismo indígena, folk, ritmos africanos e uma energia de acampamento no fim do mundo.
O disco foi inspirado numa viagem dos dois até a Pedra do Ingá, sítio arqueológico na Paraíba rodeado de lendas e inscrições rupestres que ninguém até hoje conseguiu decifrar direito. Eles acamparam por lá, tomaram o que tomaram, e as ideias começaram a brotar.
O resultado foi um LP duplo dividido em quatro lados correspondendo aos quatro elementos: Terra, Ar, Fogo e Água. Participaram Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, Paulo Rafael. Uma comunidade hippie nordestina inventando um mundo próprio do zero.
Foram prensadas 1.300 cópias. Uma enchente na fábrica Rozenblit, em Recife, destruiu cerca de mil delas. O que sobrou virou o disco de vinil mais raro e caro do Brasil, procurado por colecionadores do mundo inteiro. Chegou a custar mais de R$ 4 mil num sebo. Um selo alemão relançou sem autorização em 2004. Lula Côrtes, ao ser perguntado sobre isso, disse que era o disco mais raro do Brasil e que não recebia um centavo por isso.
Isso não é detalhe de curiosidade. É caráter. Um artista que começa a carreira fazendo um disco conceitual sobre os quatro elementos da natureza inspirado por sítios arqueológicos cheios de lendas, que quase sumiu da história por causa de uma enchente, é um artista que opera numa frequência diferente.
O disco de estreia: Zé Ramalho (1978)

Quando o disco solo chegou, em 1978, o Brasil já estava esperando por algo. Não sabia o quê. Zé Ramalho entregou mais do que qualquer pessoa esperava.
As músicas
Avôhai, Chão de Giz, Vila do Sossego, A Dança das Borboletas, Bicho de Sete Cabeças: faixas que soavam como se alguém tivesse conectado o cordel ao rock progressivo e largado tudo num quintal de sertão com poeira e visão. Não havia referência direta pra aquilo. Era original no sentido real da palavra.
A crítica elogiou. O público comprou. Zé ganhou prêmio de melhor cantor revelação da Associação Brasileira de Produtores de Disco e da Rádio Globo. E tudo isso sem abrir mão de um milímetro do universo que tinha construído. Naquele momento específico, qualidade e reconhecimento andaram juntos, que é o que raramente acontece.
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979)

Se o disco de estreia apresentou o artista, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu confirmou que não havia sido acidente. Este é meu favorito
A capa e o que ela significava
Na capa do segundo disco, Zé do Caixão voltava. Desta vez ao lado do Zé Ramalho e da atriz Xuxa Lopes, numa composição que remetia diretamente à literatura de cordel nordestina, aquelas capas de folheto com personagens míticos em poses de confronto. A escolha do Zé do Caixão não era aleatória: era uma declaração de que o universo de Zé Ramalho habitava o mesmo território do mítico, do assombro, do sobrenatural brasileiro, aquele que vive entre o catolicismo popular, o candomblé, a lenda e o pesadelo.
E a capa incomodou. O disco incomodou. Canções como Admirável Gado Novo e a faixa-título chegaram a irritar o governo militar, que ainda estava no poder em 1979. Bom sinal.
Veja nossos artigos sobre Mojica e Zé do caixão:
Quem Foi Zé do Caixão? O Homem, o Monstro e o Gênio que o Brasil Ignorou em Vida
À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964): A Certidão de Nascimento do Horror Brasileiro
Encarnação do Demônio (2008): O Fechamento da Maldição do Zé do Caixão com Quarenta Anos de Gestação
Admirável Gado Novo e Aldous Huxley
É preciso parar aqui e falar do título com o cuidado que ele merece.
Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo em 1932, um dos romances distópicos mais importantes do século XX: uma sociedade onde o controle não é feito pela força bruta, mas pelo prazer fabricado, pelo condicionamento, pela ausência voluntária de pensamento crítico. As pessoas são felizes porque foram programadas pra ser. O terror do livro não é a violência, é a conformidade.
Zé Ramalho pegou esse título e jogou na cara do Brasil da ditadura. Admirável gado novo, povo marcado, povo feliz. Não precisava explicar mais nada. Quem conhecia Huxley entendia numa camada. Quem não conhecia entendia em outra. Era uma música que funcionava em dois andares ao mesmo tempo, o que é a marca da grande composição.
Eu não fazia ideia de que existia um livro por trás daquela música do Zé Ramalho. O título me intrigava, mas foi totalmente por acaso, nos meus tempos de adolescência, que trombei com a obra em uma biblioteca pública. Lembro da capa gasta e da leitura difícil, que fui digerindo aos poucos. De repente, a música se agigantou diante de mim. Hoje, guardo o livro com um carinho enorme e uma vontade constante de reler. No fundo, a boa arte é isso: ela te joga para dentro de portas que você nem sabia que estavam ali.
O disco como objeto
Tenho o vinil da Peleja até hoje. Comprei em sebo com a capa meio rasgada e guardei assim mesmo, porque trocar a capa seria perder alguma coisa. A imperfeição física faz parte do objeto.
Na adolescência aprendi as músicas no violão, tocava pra mim mesmo no quarto, decorei a letra sem perceber que estava decorando. Hoje esqueci a letra e enjoei de tanto ter ouvido. Mas sei que é grande.
Essa é a relação específica que se tem com os discos que realmente importaram.
Beira-Mar
É uma dessas faixas que passam batido na sombra de Admirável Gado Novo, mas que sozinha já valeria o disco. A letra é de uma força quase física, daquelas que parecem esculpidas e não escritas, e a música tem aquela beleza pesada que só o Zé Ramalho dessa fase sabia entregar. Se você nunca parou pra ouvir com atenção, vale o mergulho.
Frevo Mulher
Ciúme transformado em arte. Zé escreveu a música em 1979, num hotel no Rio, vendo a cantora Amelinha (que viria a ser sua mulher e mãe de três de seus filhos) ser assediada por uma fila de compositores que queriam compor pra ela. A faixa nasceu pra Amelinha, mas na voz dele ganhou um peso e um mistério que a letra original nunca teria tido. É declaração de amor disfarçada de frevo, e funciona nos dois sentidos: dá pra dançar e dá pra se afogar na letra.
As outras faixas
Falas do Povo é uma marcha fúnebre nordestina, grave, pesada, com participação de Jorge Mautner no violino e dedicada a Geraldo Vandré. Garoto de Aluguel (Táxi Boy) é quase autobiográfica: fala de um trabalho que Zé Ramalho teve logo que chegou sem dinheiro ao Rio de Janeiro, com arranjo só de cordas que dá à letra pesada um acabamento camerístico de deixar qualquer um desconcertado. Jardim das Acácias tem a guitarra elétrica de Pepeu Gomes no auge, num duelo com a voz que é um dos momentos mais intensos de toda a discografia.
O disco rendeu o primeiro disco de ouro da carreira. Naquele momento, arte e mercado ainda se entendiam.
A Terceira Lâmina (1981)

O terceiro disco solo consolidou o que os dois anteriores tinham prometido. A Terceira Lâmina abre com Canção Agalopada, baseada num poema do próprio Zé publicado no livro Apocalipse (1977), com participação da cantora lírica Maria Lúcia Godoy numa combinação que ninguém na MPB estava fazendo: cordel com soprano operístico.
A faixa-título é uma leitura alegórica do colapso ético do Brasil em transição do regime militar, com metáforas que remetem a fosso, lâmina, fera, imagens de exclusão e violência estrutural travestidas de profecia.
Galope Rasante fixou o galope como gênero musical próprio, criação de Zé Ramalho que mistura elementos de baião e frevo com uma velocidade de dicção que exigia treino pra acompanhar. Cavalos do Cão, com Elba Ramalho, mergulha no universo do cangaço. Ave de Prata é a balada que prova que o homem sabia ser belo sem precisar ser simples.
Outro disco de ouro. O artista estava no centro do debate cultural brasileiro, e merecia estar.
Força Verde (1982): o começo do fim disfarçado de sucesso

Força Verde é onde a história começa a ficar complicada, e de um jeito que diz muita coisa sobre o que acontece com artistas quando chegam ao topo.
A CBS investiu pesado no disco. Era um artista nacionalmente consagrado com uma máquina de divulgação de gravadora grande atrás. A faixa-título tinha tudo pra ser outro hino.
E o disco, convenhamos, não é ruim. As melodias têm aquele jeito trovador que ainda estava intacto nessa fase, o Zé ainda soava como ele mesmo, ainda havia identidade e não aquela sensação de simplificação industrial que viria depois. Força Verde é um disco que envelhece bem quando você ouve hoje, e isso diz muito sobre onde o artista ainda estava em 1982.
Tinha tudo pra ser outro hino. Não fosse um detalhe pequeno: a letra era de W.B. Yeats.
Yeats, prêmio Nobel de Literatura, poeta irlandês morto em 1939, provavelmente não imaginava que sua obra ia parar numa edição brasileira da revista O Incrível Hulk sem crédito nenhum. Zé Ramalho também não sabia disso. Achou o texto na revista, gostou, adaptou, assinou. A gravadora colocou o nome dele como autor exclusivo e lançou com toda a pompa que a CBS conseguia reunir em 1982.
Pensa na cena: o homem que fez A Peleja do Diabo com o Dono do Ceu, que acampou na Pedra do Ingá para gravar um disco conceitual e colocou o Zé do Caixão na capa, foi afundado por um gibi do Hulk. Nenhum roteirista inventaria isso.
Quando o plágio veio à tona o escândalo foi proporcional ao investimento. O disco afundou. A CBS cobrou as despesas excedentes. Mistérios da Meia-Noite, que vendeu mais de 300 mil cópias naquele período, foi o que salvou a situação financeira.
O simbolismo involuntário é pesado demais pra ignorar: o artista que sempre criou mundos próprios do zero foi derrubado exatamente na primeira vez que pegou emprestado o mundo de outro. O Hulk cobrou.
Orquídea Negra (1983): Qualidade caindo

Com a humilhação pública do plágio e o fracasso do disco anterior, Zé Ramalho entrou no que fontes da época descrevem como um período de imersão pesada em cocaína. Orquídea Negra nasceu desse contexto.
O disco tem momentos de qualidade genuína, Egberto Gismonti participa, Robertinho de Recife está lá, o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar aparecem, e há algo de fascinantemente estranho em Kryptônia, uma faixa sobre contato com seres extraterrestres que o próprio Zé disse ter sido usada, segundo um homem que se apresentou como membro dos Illuminati, para fazer contato com outras espécies.
Mas o disco não teve turnê de divulgação. Não emplacou. E no mesmo ano Zé terminou a relação com Amelinha, mãe de três de seus filhos, e encerrou sua fase em Fortaleza.
Orquídea Negra é o disco de um artista que estava se despedaçando. Tem uma coerência interna com isso, mas não é a coerência de quem escolheu o caos. É a de quem caiu nele.
Os anos 80 continuam, mas o perigo vai embora
Pra Não Dizer que Não Falei de Rock (1984) e De Gosto, de Água e de Amigos (1985) têm boas canções espalhadas, e Opus Visionário (1986) e Décimas de um Cantador (1987) ainda mostram lampejos de um artista que não tinha desistido completamente.
Mas algo tinha mudado de natureza. Os discos desse período são de um artista que está mantendo uma carreira, não de um que está construindo uma obra. A diferença é sutil na superfície e abismal no resultado. Você ouve e pensa: é bom. E depois pensa: mas e daí?
O Zé Ramalho de Paêbirú e A Peleja não te deixava pensar “e daí”. Ele te deixava atordoado.
Onde a coisa rachou de vez: Brasil Nordeste (1991) e Frevoador (1992)
Depois de quatro anos sem lançar nada, Zé voltou com Brasil Nordeste (1991): um disco de regravações de clássicos nordestinos, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, mais releituras dos próprios clássicos. Não é um disco ruim exatamente. É um disco de artista que não sabe mais muito bem o que dizer de novo e vai buscar abrigo no que já foi dito.
Frevoador (1992) vendeu mais de um milhão de cópias. A faixa-título é uma versão em frevo de Hurricane, do Bob Dylan, e funciona, é divertida, o público amou. Mas o que o sucesso desse tipo de disco faz com um artista é uma armadilha pedagógica: ensina que regravação com sotaque nordestino é produto viável. E uma vez que você aprende isso, é difícil desaprender.
O mercado recompensou a rendição. Isso é o que o mercado costuma fazer.
A série “Canta”: a delegação total da responsabilidade criativa
A partir dos anos 2000, a discografia de Zé Ramalho lê como uma lista de terceirização de identidade:
- Zé Ramalho Canta Raul Seixas (2001)
- Zé Ramalho Canta Bob Dylan (2008)
- Zé Ramalho Canta Luiz Gonzaga (2009)
- Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro (2010)
- Zé Ramalho Canta os Beatles (2011)
Uma série inteira de discos onde o protagonista é sempre outro. Onde a pergunta implícita deixou de ser “o que Zé Ramalho tem a dizer?” e virou “de quem Zé Ramalho vai cantar agora?”.
É sintomático que o disco do Raul Seixas tenha sido o primeiro da série. Raul e Zé tinham conexões genuínas, eram da mesma geração de artistas que misturaram Brasil e rock de formas que não havia precedente. Mas fazer um disco inteiro de covers do Raul em 2001 é uma coisa muito diferente de ser Zé Ramalho em 1979. Um é homenagem. O outro era invenção.
E o problema específico com o esteta que vira intérprete de outro é que a voz de Zé Ramalho, tão carregada de um universo próprio, não serve pra carregar qualquer coisa. Servia quando a coisa era à altura. Quando a coisa é Metamorfose Ambulante com baião, a voz profética fica deslocada, parece ornamento de algo que não é dele.
A teoria: esteta sem matéria-prima
Zé Ramalho sempre foi, antes de qualquer outra coisa, um esteta. Um construtor de atmosferas. Não é crítica, é descrição. Dylan também é esteta. Bowie era esteta. Caetano é esteta. A diferença entre os que duram e os que não duram é a capacidade de encontrar nova matéria-prima quando a anterior se esgota.
O que tornava os primeiros discos extraordinários era a qualidade da matéria-prima que alimentava essa estética: o misticismo genuíno de quem acampou na Pedra do Ingá e acreditava no que estava fazendo, a psicodelia vivida e não decorativa, a tensão de um Brasil sob ditadura que precisava de arte capaz de dizer o que não podia ser dito diretamente, uma linguagem musical nordestina que ainda estava sendo inventada naquele momento com aquela geração específica.
Os anos 70 tinham urgência. O Brasil daquele período era um país que precisava ser decifrado em código. A música era densa porque a realidade exigia densidade. E Zé Ramalho estava perfeitamente posicionado nessa tensão: paraibano, místico, com um pé no cordel e outro no rock progressivo, operando exatamente na frequência certa para aquele momento.
Quando o país saiu da ditadura, quando a música nordestina deixou de ser descoberta e virou consumo, quando o escândalo do plágio derrubou a autoconfiança num momento crítico, quando o próprio Zé Ramalho deixou de ser uma revelação e virou uma marca, o combustível foi embora. O artista continuou. A obra não acompanhou.
Talvez exista também uma injustiça na minha própria análise.
Eu falo muito do que Zé Ramalho perdeu, mas talvez esteja ignorando algo que acontece com quase todo artista que sobrevive tempo suficiente para virar instituição.
Lá no inicio havia a juventude, a descoberta, a inquietação, a ditadura, a sensação de que a cultura brasileira ainda tinha territórios inteiros para conquistar. Havia urgência. E urgência é uma matéria-prima que não pode ser fabricada em estúdio.
Com o passar das décadas, Zé Ramalho deixou de ser um aventureiro cultural para se tornar patrimônio cultural. É uma transformação que muda a relação do artista com a própria obra. O homem que antes precisava provar quem era passou a ser o homem que o público queria reencontrar. A profissionalização da carreira, o peso do catálogo, a expectativa dos fãs e até o simples envelhecimento empurram qualquer criador para outro lugar. Não necessariamente pior. Apenas diferente.
Talvez por isso os discos de covers existam. Talvez por isso trabalhos tardios como Ateu Psicodélico soem, em alguns momentos, como uma tentativa de reencontrar a atmosfera dos primeiros anos. E não há vergonha nenhuma nisso. Todo artista passa a vida dialogando com as próprias obsessões. Alguns as abandonam. Outros passam décadas tentando alcançá-las novamente.
No fim das contas, a minha crítica não nasce da falta de admiração, mas exatamente do contrário. Poucos músicos brasileiros alcançaram o nível de invenção que Zé Ramalho atingiu entre Paêbirú, Zé Ramalho, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina. Quando alguém cria obras desse tamanho, o padrão de comparação passa a ser cruelmente alto.
E talvez seja esse o ponto mais importante de todos: mesmo que eu prefira o Zé Ramalho explorador ao Zé Ramalho intérprete, mesmo que eu ache que a fase posterior tenha produzido mais revisitações do que descobertas, a grandeza do conjunto da obra continua intacta. Os covers, as tentativas de revisitar antigas atmosferas e até os tropeços fazem parte da trajetória de um artista que já havia deixado sua marca muito antes.
Pouquíssimos músicos brasileiros criaram algo comparável ao que ele criou no auge. E quando o auge é tão alto, até uma longa sombra continua sendo maior do que a carreira inteira de muita gente.
O que ficou
O legado dos primeiros discos é inabalável. Paêbirú continua sendo o disco mais raro e buscado da história da música brasileira. Admirável Gado Novo continua sendo uma das mais precisas radiografias já colocadas em música sobre o Brasil. A Peleja do Diabo com o Dono do Céu ainda soa como coisa de outro planeta, no melhor sentido. A Terceira Lâmina tem faixas que envelheceram melhor do que a maioria do que foi feito no mesmo período.
O Zé Ramalho de 1975 a 1983 foi um dos artistas mais originais que esse país produziu. Isso não muda.
O que muda é o que ele fez com essa originalidade depois. E a resposta honesta é: administrou. Administrou o mito, administrou o catálogo, administrou a reputação. Fez discos que o mercado comprava sem que precisasse inventar nada novo. Virou o tipo de artista que você coloca no cartaz de festival para garantir o público da geração que o conheceu nos anos 70, e que entrega exatamente o que esse público foi buscar: as músicas antigas, bem cantadas, sem surpresa.
Não é o pior destino do mundo. É o destino de quem escolheu a segurança da própria sombra em vez de continuar arriscando no escuro.
O problema é que, pra quem começou a carreira fazendo um disco sobre os quatro elementos da natureza numa gravadora que depois foi inundada, a sombra é uma queda e tanto.
A peleja que Zé Ramalho perdeu não foi contra o tempo nem contra o mercado. Foi contra a versão de si mesmo que ele deixou de ser.
Discografia de Zé Ramalho: do auge ao declínio, disco a disco
Paêbirú
O ponto de origem. A prova de que o místico nunca foi pose.
Zé Ramalho
O estouro que devia ter sido, e foi.
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu
O auge absoluto, dois andares de significado na mesma música.
A Terceira Lâmina
A consolidação, ainda no centro do debate cultural e merecendo estar.
Força Verde
O disco que envelhece bem, derrubado por um detalhe que ninguém esquece.
Orquídea Negra
O som de um artista se despedaçando, não de um artista escolhendo o caos.
Pra Não Dizer que Não Falei de Rock
Carreira sendo mantida, obra deixando de ser construída.
De Gosto, de Água e de Amigos
Boas canções espalhadas, sem o atordoamento de antes.
Opus Visionário
Lampejo de quem não desistiu completamente, mas já administra.
Décimas de um Cantador
O fim da década confirmando: é bom, mas e daí.
Brasil Nordeste
Abrigo no que já foi dito, porque o novo não vinha mais.
Frevoador
A armadilha pedagógica que ensinou o mercado a recompensar a rendição.
Cidades e Lendas
Um disco de quem já vive de catálogo e reencontros, não de descoberta.
Eu Sou Todos Nós
Mais um capítulo da administração do mito, sem sobressaltos.
Zé Ramalho Canta Raul Seixas
O primeiro tijolo da série “Canta”, homenagem virando rotina.
O Gosto da Criação
Inéditas tentando reocupar um espaço que o próprio artista já tinha cedido.
Zé Ramalho Canta Bob Dylan
A voz profética servindo de ornamento pra algo que não é dele.
Zé Ramalho Canta Luiz Gonzaga
Terceirização de identidade, mais uma vez.
Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro
A pergunta “o que Zé tem a dizer” trocada por “de quem ele vai cantar agora”.
Zé Ramalho Canta os Beatles
O ciclo de covers fechando com o nome mais óbvio possível.
Sinais dos Tempos
Inéditas tardias, na sombra do próprio mito já consolidado.
Ateu Psicodélico
O esteta velho ainda tentando achar matéria-prima nova, décadas depois do combustível ter ido embora.
Pra quem quer ir além: leituras sobre Zé Ramalho que valem o clique
Se essa peleja toda te deixou com vontade de cavar mais fundo, separei o que há de mais sólido por aí. Nada de Wikipedia, porque pra isso você não precisa de mim.
- Agreste Psicodélico — a reportagem de 2008 da Rolling Stone Brasil que foi atrás da origem real de Paêbirú, com a Pedra do Ingá, a lenda de Sumé e os bastidores da gravação que quase se perdeu numa enchente.
- Por Trás da Vitrola: Força Verde (1982) — texto detalhado sobre o disco que devia ter sido outro hino e virou sinônimo de escândalo, contando o caso do plágio do lado de dentro do estúdio.
- Hulk, Zé Ramalho e o Plágio — post de blog de quadrinhos que reconstrói, com a HQ na mão, exatamente de onde saiu a letra de “Força Verde”.
- Entrevista Rolling Stone Brasil — Zé Ramalho falando sem filtro sobre cogumelos, cocaína, a recusa em comentar Paêbirú por décadas e os bastidores da série “Canta”.
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Beleza, agora é a sua vez de discordar de mim.
Sei que tem gente que vai achar Frevoador uma obra-prima, que vai defender a série “Canta” com a vida e que provavelmente vai me chamar de chato por gostar mais de um disco que vazou com uma enchente do que de “Avôhai” tocado pela milésima vez num churrasco. Tudo bem. A caixa de comentários está aí, gratuita e sem moderação de bom senso. Desce até lá e me diz onde eu errei feio, ou, se concordar com tudo, me diz qual desses discos você nunca confessou pra ninguém que ouve escondido. Os dois tipos de comentário valem a pena.
Não sou guru, nem influencer — meu negócio é te fazer pensar (ou desistir de vez). Assisto de cinema iraniano a blockbusters de ação, sempre com minha querida cúmplice. No meu som, Napalm Death, Falcão e King Crimson convivem com Gal Costa e Erasure.
Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.