Goatlord: Uma História Tão Sinistra Quanto a do Mayhem, Mas Esquecida no Deserto de Vegas

A sinistra banda Goatlord. Quando se fala em black metal e histórias macabras, o nome Mayhem surge como um trovão na noite norueguesa: suicídios, assassinatos, igrejas queimadas, uma aura de caos que virou lenda.

Mas, nas profundezas do underground, há uma banda americana cuja trajetória é tão perturbadora quanto, embora tenha ficado soterrada nas areias de Las Vegas: Goatlord. Se você acha que o grupo norueguês é o ápice do sombrio, prepare-se para conhecer uma história que, embora menos famosa, carrega um peso igualmente brutal. Aqui não tem espaço pra risadinhas irônicas – a realidade é crua, e o quarteto de Vegas prova que o inferno não precisa de holofotes pra queimar.

O Começo: Um Culto no Deserto

Formada em 1985, a Goatlord surgiu em Las Vegas, um lugar mais associado a cassinos e luzes de neon do que a rituais blasfemos. Joe Frankulin (guitarra), Jeff Nardone (bateria), Jeff Schwob (baixo) e Ace Still (vocais) queriam criar algo que misturasse o peso do doom, a fúria do death e a aura maligna do black metal, inspirados por Hellhammer, Bathory e Venom. O resultado foi um som sujo, lento e opressivo, como se o deserto ao redor deles tivesse ganhado vida em riffs.

Suas demos, como Demo ’87 e Sodomize the Goat (1988), e o álbum Reflections of the Solstice (1991), viraram relíquias cult, com letras sobre sacrifícios, ocultismo e podridão. A produção lo-fi e a vibe ritualística davam a sensação de estar ouvindo uma missa negra gravada numa caverna. Mas, enquanto o grupo escandinavo incendiava a Noruega, o quarteto de Vegas enfrentava o ostracismo de uma cena local que não entendia sua proposta.

A banda americana nunca teve a projeção do Mayhem, que contava com a rede de contatos de Euronymous e a mitologia da cena norueguesa. Em Vegas, os caras eram outsiders, tocando para poucos e enfrentando longos hiatos entre shows. Como disse Jeff Nardone em uma entrevista, “a maioria achava que éramos uma piada” por causa da crueza e da imagem extrema. Mas foi exatamente essa autenticidade que conquistou um culto underground, com fitas sendo trocadas por tape-traders e relançamentos pela Nuclear War Now! Productions anos depois.

A Tragédia: Um Eco de Horror Real

Se o Mayhem é lembrado pelo suicídio de Dead em 1991, pelo assassinato de Euronymous por Varg Vikernes em 1993 e pelos incêndios de igrejas que chocaram o mundo, a Goatlord tem sua própria mancha de sangue, tão devastadora quanto, mas que nunca ganhou as manchetes.

Em 2 de outubro de 2015, Joe Frankulin, o guitarrista e um dos fundadores da banda, cometeu um ato que congelou a cena underground: ele assassinou sua vizinha, Veronica Goudie, de 35 anos, e o filho dela de 7 anos, Jacob, antes de tirar a própria vida com um tiro na cabeça. O crime, reportado pelo Las Vegas Review-Journal, aconteceu em Sunrise Manor, um subúrbio de Vegas, e deixou a comunidade em choque. Não havia pistas claras sobre o motivo, apenas a imagem de Frankulin, descrito como um headbanger de aparência desgastada.

Esse evento é o coração sombrio da história da Goatlord. Enquanto o suicídio de Dead foi romantizado por alguns como um símbolo da escuridão do black metal, e o assassinato de Euronymous virou uma lenda urbana, o crime de Frankulin foi um soco no estômago: uma tragédia sem glamour, sem mitologia, apenas a brutalidade nua de um ato irreversível. O grupo de Vegas já estava inativo desde 1997, mas o incidente de 2015 enterrou qualquer chance de reunião, como a planejada para o NWN! Festival em 2014, que Frankulin tentou organizar sem sucesso.

Mayhem x Goatlord: Paralelos na Escuridão

Comparar a banda de Las Vegas com a norueguesa é como olhar para dois lados da mesma moeda sangrenta. O Mayhem, com sua notoriedade, virou sinônimo de black metal: o suicídio de Dead, com sua nota infame (“Desculpe-me pelo sangue”), as fotos do corpo usadas em um bootleg, e o assassinato de Euronymous por Varg criaram uma aura de infâmia que alimentou a mitologia do gênero. O grupo norueguês era o epicentro de uma cena que misturava arte, rebelião e violência real.

A Goatlord, por outro lado, nunca teve esse palco. Sua história é mais isolada, mais crua, como o deserto que os cercava. Enquanto a banda norueguesa tinha uma narrativa quase teatral, com membros que pareciam personagens de um filme de horror, a banda de Vegas era só um grupo de caras tentando fazer o som mais pesado e doentio possível em uma cidade que não dava a mínima.

Mas o crime de Frankulin ecoa a violência do Mayhem de uma forma perturbadora: ambos os casos envolvem membros centrais e mortes que transcenderam a música, marcando as bandas para sempre. A diferença? O grupo norueguês continuou, transformando sua tragédia em combustível para a lenda. A Goatlord, sem o mesmo apoio ou visibilidade, afundou na obscuridade após 2015.

Por Que a Goatlord Não Virou Lenda?

A resposta está na geografia e na sorte (ou azar) do destino. O Mayhem estava no coração da cena norueguesa, com uma rede de bandas (Burzum, Emperor, Darkthrone) e uma mídia sensacionalista que amplificava cada escândalo. Las Vegas, por outro lado, era um vazio para o metal extremo nos anos 80 e 90. A Goatlord não tinha uma “cena” para sustentá-los. Suas demos e o Reflections of the Solstice só ganharam status cult anos depois, graças a selos como a Nuclear War Now!. Além disso, o crime de Frankulin veio numa era em que o black metal já não chocava como antes.

Mas há algo na banda de Vegas que ressoa tão profundamente quanto o Mayhem: a autenticidade. Enquanto a banda norueguesa tinha uma pose quase performática, a Goatlord era crua, sem filtro, como se vomitasse sua escuridão sem se preocupar com a plateia. O som deles, com riffs arrastados e vocais que pareciam saídos de um pântano, captura o mesmo sentimento de desolação que o De Mysteriis Dom Sathanas do Mayhem. E o crime de Frankulin, assim como os eventos da banda norueguesa, prova que às vezes a escuridão da música não é só encenação – ela pode ser real, e devastadora.

O Legado: Uma Sombra no Underground

Hoje, a Goatlord é lembrada por colecionadores de vinil e fanáticos por black/doom metal, mas nunca terá o status do Mayhem. Sua discografia, relançada por selos como a Nuclear War Now!, continua atraindo ouvintes que buscam o som mais sujo e primitivo dos anos 80. Mas a mancha do assassinato-suicídio de 2015 permanece, um lembrete de que a escuridão pode ir além das letras e das capas de álbuns. O Mayhem virou um ícone porque soube (ou foi forçado a) transformar tragédia em narrativa. A Goatlord, isolada e esquecida, carrega sua história como um segredo sussurrado entre os iniciados do underground.

Discografia Essencial

Demos

  • Demo ’87 (1987)
  • Sodomize the Goat (1988)
  • Promo ’91 (1991)

Studio Albums

  • Reflections of the Solstice (1991)
  • Goatlord (1992)

Compilations & Splits

  • Distorted Birth: The Demos (Compilation, 2003)
  • The Last Sodomy of Mary (Compilation, 2007)
  • Demo ’87 / Reh ’88 (Compilation, 2015)
  • Foreshadow / Reaper Of Man (Split with Nunslaughter, 2004)
  • Gravewürm / Nunslaughter / Goatlord / Funeral Nation (Split, 2019)

Members

Final Lineup

  • Joe Frankulin – Guitars (1985–1997; died 2015)
  • Jeff Nardone – Drums (1985–1997)
  • Jeff Schwob – Bass, Vocals (1986–1997)
  • Chris Gans – Vocals (1991–1997)

Previous Members

Mitch Harris – Vocals (1991)

Ace Still – Vocals (1985–1991, 1991; died 2017)

Hal Floyd – Bass (1985-1986)


Se a história por trás de uma banda te fascina, talvez você goste de saber como foi a primeira vez que ouvi esse disco. Eu conto essa história no artigo: Death Metal, Zé do Caixão e uma noite de terror em São Paulo em 1994

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