Into The Pandemonium (Celtic Frost): Como este clássico me atropelou em 2026

Descobrir o álbum Into The Pandemonium, do Celtic Frost, em pleno 2026 é entender por que o Avant-garde Metal e o Thrash Metal experimental devem tanto a Thomas Gabriel Fischer (Tom G. Warrior). Lançado em 1987 pela Noise Records, este disco quebrou as barreiras do gênero ao fundir a morbidez primitiva do Hellhammer com influências de Gothic Rock, música clássica e New Wave.

Embora tenha sido considerado um “suicídio comercial” na época devido à sua produção ousada e ao uso de elementos sinfônicos, a obra se consolidou como uma das maiores influências para o Black Metal moderno e bandas de metal extremo ao redor do mundo. Neste artigo, exploro por que esse clássico atemporal continua sendo essencial para qualquer colecionador de mídia física e entusiasta da cultura underground.

A Vanguarda do Metal Extremo: Redescobrindo a Obra do Celtic Frost

Dizem que “velho” não aprende truque novo, mas quem diz isso não entende nada de música. Já passamos da metade da década de 20 e eu estou aqui, em pleno 2026, com a cara no chão e os ouvidos fritando por causa de um disco lançado há quase quarenta anos.

Vou dizer sem vergonha nenhuma: eu adoro descobrir coisas “novas” que já são antigas.

Sempre ouvi falar do Celtic Frost. O nome da banda ecoa em toda biografia de artista de Black Metal ou Thrash que se preze. Todo mundo cita o clássico To Mega Therion como a pedra fundamental, e aquela capa ultra polêmica do H.R. Giger realmente causou um impacto visual que pouca coisa superou até hoje. Eu ouvi esse disco algumas vezes, achei legal, mas confesso: não foi amor à primeira vista. Precisei de várias sessões, de abrir a mente e de “treinar o ouvido” para sacar o que aquela obra queria transmitir.

Mas aí, chegamos em 2026 e eu resolvi mergulhar de cabeça no sucessor: Into The Pandemonium.

O Encontro com o Inesperado

Se no disco anterior eu precisei de esforço, aqui eu fui tragado pela atmosfera logo nos primeiros segundos. Já estava familiarizado com o jeito “torto” e pesado do Celtic Frost, mas o que encontrei foi um universo paralelo.

Sabe aquela sensação de estranheza boa? Foi como se o Robert Smith (The Cure) tivesse acordado um dia com muita raiva, tomado um fardo de cerveja barata e decidido gravar um álbum de metal extremo. É gótico, é denso, é experimental e, acima de tudo, é corajoso.

A abertura com o cover de “Mexican Radio (do Wall of Voodoo) já me deixou doidão de cara. Que escolha absurda e genial para um disco de metal daquela época! A partir dali, o feitiço estava jogado. Não consegui pular uma faixa sequer. Cada nota, cada incursão de violinos, cada vocal “agoniado” do Tom G. Warrior fazia sentido na minha cabeça.

Os Bastidores de um “Caos Planejado”

Retrato colorido da banda suíça Celtic Frost em 1987, com os integrantes Thomas Gabriel Fischer, Martin Eric Ain, Reed St. Mark e Ron Marks posando em um ambiente de luz avermelhada. Foto original por Lesley Evans.
A vanguarda do metal extremo: Celtic Frost durante as sessões de Into the Pandemonium. Da esquerda para a direita: Reed St. Mark, Thomas Gabriel Fischer, Ron Marks e o saudoso Martin Eric Ain. (Foto: Lesley Evans)

O que me impressionou ainda mais ao pesquisar a fundo (lendo relatos do mestre Malcolm Dome) é que o Into The Pandemonium não foi apenas um disco “estranho” por acaso. Foi uma guerra de trincheiras.

Imagina só: o Tom G. Warrior e o Martin Eric Ain eram praticamente dois moleques na época, com pouco mais de 20 anos, mas já tinham uma visão artística que batia de frente com tudo o que a Noise Records esperava deles. A gravadora queria um “Slayer suíço”, algo seguro, rápido e vendável. O Celtic Frost entregou o quê? Violoncelos, violas, uma cantora de ópera e até batidas que flertavam com um hip-hop industrial primitivo na faixa “One In Their Pride”.

Foi o caos total no estúdio:

  • Seis meses de composição e quatro de gravação: Um luxo (e um tormento) para uma banda de metal extremo nos anos 80.
  • Autoprodução na marra: Eles tentaram produtores de peso como Rick Rubin, mas acabaram tendo que carregar o piano sozinhos. Imagine três garotos de vinte e poucos anos dirigindo uma orquestra clássica sem ter experiência prévia. O resultado é essa sonoridade crua e majestosa que a gente ouve.
  • O “Olhar de Horror”: O Tom conta que nunca vai esquecer a cara dos executivos da gravadora quando ouviram o material finalizado. Eles viram aquilo como um suicídio comercial imediato. O orçamento para clipes e marketing sumiu da noite para o dia. A gravadora simplesmente “lavou as mãos”.

A Capa que Já Dizia Tudo

Capa do álbum Into The Pandemonium (Celtic Frost)

Antes mesmo de você colocar a agulha no vinil, o disco já te avisa o que está por vir. A capa é um detalhe do painel do Inferno do tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, pintado por Hieronymus Bosch em 1504. Um pintor do século XVI numa capa de metal extremo de 1987.

Sabe o que é engraçado? Bosch também foi um cara que ninguém entendeu direito no seu próprio tempo. Pintava monstros, corpos retorcidos, infernos cheios de detalhe absurdo — e as pessoas da época olhavam aquilo sem saber bem o que fazer. Séculos depois virou ícone. Parece familiar, não parece?

A Faixa que o Próprio Tom Admitiu que Errou

Tem uma história curiosa em “One In Their Pride” que pouca gente conta. A faixa foi construída em cima de samples reais do programa Apollo da NASA, com drum machines e uma pegada que lembrava grupos de EBM europeu. Era metal extremo misturado com música eletrônica industrial — em 1987. O resultado dividiu até quem era fã.

Músicos importantes da cena da época admitiram publicamente o estranhamento com a faixa, e disseram que esse sentimento era generalizado no underground. E sabe o que é mais engraçado? O próprio Tom Warrior acabou reconhecendo que ali a banda foi longe demais — e considerou a faixa um erro. Um cara que defendeu cada escolha polêmica do disco admitindo que uma delas foi exagerada. Isso diz muito sobre a honestidade do cara com a própria obra.

O Réquiem que Levou 32 Anos para Ficar Pronto

Esse é o detalhe que me deixou de queixo caído quando descobri. A faixa “Rex Irae” que fecha o disco original não é uma faixa avulsa — é o primeiro capítulo de um réquiem de três partes que o Tom G. Warrior começou a escrever com 22 anos e só conseguiu terminar décadas depois.

A intenção original era lançar os três capítulos num EP dedicado já em 1988, logo depois da turnê do disco. Mas o conflito com a gravadora destruiu a banda antes disso acontecer. O terceiro capítulo, chamado “Winter”, só apareceu em 2006 no álbum Monotheist da banda reunida. E o meio, a parte que faltava, só foi finalmente composta e apresentada ao vivo em 2019, no festival Roadburn, com o Triptykon acompanhado pela orquestra holandesa Metropole Orkest — quando o Tom já tinha 54 anos.

Uma obra que começou num estúdio frio em Hannover em 1987 e só ficou completa num palco na Holanda 32 anos depois. Se isso não é teimosia artística, eu não sei o que é.

Ficha Técnica & Lista de Faixas

Álbum: Into The Pandemonium Banda: Celtic Frost Lançamento: 1 de junho de 1987 Gravadora: Noise Records (Europa) / Combat Records (EUA) Gravado em: Horus Sound Studio, Hannover, Alemanha — janeiro a abril de 1987 Produção: Celtic Frost Arte da capa: Detalhe de O Jardim das Delícias Terrenas (1504), Hieronymus Bosch

Formação: Tom G. Warrior — guitarra, vocal Martin Eric Ain — baixo, backing vocal Reed St. Mark — bateria, tímpanos, percussão, sintetizadores


1. Mexican Radio (cover — Wall of Voodoo) A escolha mais desconcertante de abertura que um disco de metal poderia fazer. Ninguém esperava, ninguém pediu, e é exatamente por isso que funciona.

2. Mesmerized Aqui o disco mostra a primeira cartada gótica de verdade. Tom arrasta a voz num clima que Dead Can Dance assinaria sem piscar.

3. Inner Sanctum O riff pesado de volta, mas com letra tirada de Emily Brontë. O metal mais culto que você vai ouvir da década de 80.

4. Tristesses de la Lune Charles Baudelaire recitado em francês sobre cordas e guitarras distorcidas. A vocalista entrou no estúdio e gravou tudo praticamente de primeira. Resultado: uma das faixas mais perturbadoras do disco.

5. Babylon Fell (Jade Serpent) Mergulho na mitologia babilônica. Pesada, densa, e com aquela produção crua que faz tudo soar como se fosse gravado numa catedral em ruínas.

6. Caress Into Oblivion (Jade Serpent II) Continuação direta da anterior em atmosfera. Se a cinco te deixou ansioso, a seis não te solta.

7. One In Their Pride (Porthole Mix) A faixa mais polêmica do disco. Samples da NASA, drum machine, industrial. Tom admitiu depois que foi longe demais — mas é impossível ignorar que ela soa como algo saído de 1995, não de 1987.

8. I Won’t Dance (The Elders’ Orient) Inspirada no Livro dos Mortos egípcio. Tem uma cadência quase ritualística que gruda na cabeça de um jeito difícil de explicar.

9. Rex Irae (Requiem) O capítulo um de um réquiem que levou 32 anos para ficar completo. Orquestra, soprano, peso total. A faixa mais ambiciosa e a que mais cresce com o tempo.

10. Oriental Masquerade Instrumental curto que fecha o disco como quem fecha uma porta pesada. Não é a faixa mais memorável, mas soa como os créditos finais de um filme que você não consegue tirar da cabeça.

O Preço da Liberdade Artística

O mais triste (e fascinante) é saber que essa obra-prima foi o que acabou implodindo a banda original. A pressão financeira e as brigas constantes com o selo sugaram a energia dos caras. Eles chegaram a se separar no palco, em Dallas, no final da tour de 1987. O mundo não estava pronto para uma banda que bebia do misticismo do Dead Can Dance e da estranheza do Wall Of Voodoo com o mesmo peso e a urgência que o Metallica estava parindo no underground.

Mas, olhando daqui de 2026, quem estava certo? A gravadora, que queria “mais do mesmo”, ou os caras que arriscaram tudo por uma visão artística?

A resposta está em cada banda de Metal Avant-Garde que surgiu depois. De Paradise Lost a Nirvana (sim, o Kurt Cobain ouvia esse disco na van de turnê!), a sombra do Into The Pandemonium é gigantesca.

Se você, assim como eu, demorou para “sacar” o Celtic Frost, dê uma chance a esse disco. Ele é a prova de que a arrogância juvenil misturada com uma curiosidade artística sem limites pode gerar milagres.

Não é um álbum perfeito — o próprio Tom Warrior admite que algumas experiências foram longe demais — mas é um álbum vivo. Ele pulsa, ele incomoda, ele te tira da zona de conforto. E em um mundo cheio de produções digitais perfeitas e sem alma em 2026, encontrar um “suicídio comercial” tão honesto quanto este é um verdadeiro presente.

Vai Fundo: Links para Continuar a Viagem

Se esse artigo te jogou de cabeça no universo do Celtic Frost e você quer continuar cavando, separei aqui as fontes que mais me ajudaram a entender esse disco de verdade. Nada de link aleatório — cada um desses vale o tempo.


Wikipedia — Into The Pandemonium A entrada mais completa e bem documentada sobre o disco. Tem os bastidores da produção, a briga com a gravadora, os créditos completos e a história do réquiem. Ponto de partida obrigatório pra quem quer ir além do óbvio.


Louder Sound — A História por Trás do Álbum O relato do Malcolm Dome, jornalista que acompanhou a banda pessoalmente durante o lançamento. Ele esteve no apartamento do Martin Ain em Zurique logo depois do disco sair. É uma das poucas fontes em que você ouve o Tom falar em primeira pessoa sobre o que estava sentindo na época. Vale cada parágrafo.


Revolver Magazine — “No Limits”: O Álbum que Destruiu o Celtic Frost Entrevista feita pouco antes da morte do Martin Eric Ain em 2017. Tom fala sobre a tentativa frustrada de contratar Rick Rubin, o engenheiro de som vindo do Leste Europeu que a gravadora impôs por ser barato, e como tudo isso moldou aquela sonoridade crua que a gente ouve no disco. Uma das entrevistas mais honestas que já li sobre o processo criativo de qualquer banda.


Encyclopaedia Metallum — Reviews O Metal Archives é a bíblia do metal extremo, e as resenhas desse disco são fascinantes justamente porque dividem opiniões até hoje. Tem gente que ama incondicionalmente, tem gente que odeia as mesmas faixas que outros consideram geniais. Vale ler pra entender por que esse disco ainda incomoda.


Discogs — Into The Pandemonium Se você é do tipo que coleciona mídia física — e se chegou até aqui, provavelmente é — o Discogs tem o histórico completo de todas as prensagens, versões em vinil, CDs remasterizados e edições especiais. Tem comentários de colecionadores que comparam o som de cada versão. Imprescindível antes de comprar.


Bandcamp — Triptykon: Requiem Live at Roadburn 2019 O réquiem que o Tom começou a compor com 22 anos e só terminou com 54. Se depois de ouvir o Into The Pandemonium você quiser saber como a história toda fechou, esse é o próximo passo. Escuta o Rex Irae do disco original e depois ouve a versão ao vivo aqui com a orquestra completa. É outro nível.

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☠ Então. Você Chegou Até Aqui.

Isso significa que o Into The Pandemonium já está te rondando — ou vai rondar em breve. Não tem meio-termo com esse disco.

Você vai odiar na primeira escuta, respeitar na segunda e não conseguir parar na terceira.

Se quiser continuar nessa viagem pelo underground que moldou tudo que você ouve hoje — sem papo de algoritmo, sem lista de “top 10 mais ouvidos” — desce nos comentários e fala o que te pegou. Qual faixa te deixou sem chão? Onde você estava quando ouviu pela primeira vez?

🕯 Véi do Blogue — Descobrindo clássicos com quarenta anos de atraso desde sempre

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