O mundo da música pesada perdeu Conrad “Cronos” Lant aos 63 anos.
A notícia caiu na quinta-feira, 1 de outubro de 2026, com aquele silêncio incômodo de quando um verdadeiro dinossauro do rock sai de cena: a causa da morte ficou de fora do comunicado oficial da banda.
(Nota mental para o algoritmo de busca: estamos falando do Venom de Newcastle, a banda de metal extremo pioneira, e não do simbionte da Marvel).
A maioria dos obituários na internet vai repetir a mesma preguicice de sempre com a frase batida “morreu o pai do black metal”.
É um resumo preguiçoso porque reduz a pó a engenharia de um músico que foi muito mais do que um vocalista de berros estridentes.
Cronos foi o verdadeiro arquiteto do próprio mito.
Ele desenhou o logotipo da banda quando ninguém dava nada por aquela caligrafia torta e agressiva, virou o próprio assessor de imprensa enviando fitas demo para jornalistas britânicos no início dos anos 1980, inventou o marketing do-it-yourself (DIY) antes de qualquer marqueteiro inventar o termo corporativo, e transformou a limitação técnica de um amplificador no limite da distorção em uma escola inteira de barulho.
Em maio deste ano, para a alegria dos fãs mais puristas, ele tinha acabado de lançar Into Oblivion, o 16º álbum de estúdio da carreira.
Um trabalho visceral que provou que sua urgência criativa continuava intacta.
Cronos morreu na ativa, com disco novo pesado na rua e estrada na agenda.
Para quem passou a vida inteira querendo soar perigoso e autêntico, é o fim da linha mais coerente possível.
O cara de Newcastle que peitou o mercado fonográfico com um envelope e um sonho
Volte mentalmente para o final dos anos 1970 na industrializada Newcastle, Inglaterra.
Um garoto londrino criado no norte do país se junta a dois músicos chamados Jeffrey “Mantas” Dunn e Anthony “Abaddon” Bray.
Ele começa na guitarra, mas logo percebe que o buraco embaixo na frequência sonora precisava de muito mais sujeira e peso físico.
Assume o baixo e o microfone, criando uma assinatura sônica que virou dogma no underground global.
A receita desse som revolucionário?
O próprio Cronos explicou anos mais tarde em entrevistas antológicas: ele queria a crueza e a distorção na cara herdadas diretamente de Lemmy Kilmister e do Motörhead.
Afinal, foi o mestre Lemmy quem provou ao mundo que o baixo podia assumir a linha de frente, distorcer sem dó e cuspir fogo como uma guitarra rítmica furiosa.
Em cima dessa escola crua, Cronos misturou a atmosfera soturna e pesada do Black Sabbath, a teatralidade barata e chocante de Alice Cooper e a urgência niilista do punk rock britânico.
Ele queria que a banda soasse genuinamente “do mal”, com aquele timbre malvadão de quem tocava com o equipamento estourando o limite da distorção valvulada.
E conseguiu com louvor.
Coloque para rodar os clássicos Welcome to Hell (1981) ou Black Metal (1982) e sinta o piso tremer.
Não há ali nenhum virtuosismo limpinho de conservatório musical; o que existe é pura catarse e caos estruturado.
E quer saber de onde veio a inspiração para o nome Cronos?
Veio de uma mistura nada convencional entre astrologia e mitologia grega.
Sendo capricorniano e regido por Saturno, cuja divindade mitológica correspondente é Cronos, a escolha pareceu natural.
Enquanto os colegas de banda buscavam referências fáceis nas páginas d’A Bíblia Satânica de Anton LaVey, o líder do Venom foi cavar inspiração no Olimpo clássico.
Ficou registrada ali uma lição clássica de marketing e posicionamento de marca: o inferno atrai curiosos momentâneos, mas a grande mitologia sempre teve muito mais classe.
O satanismo nas letras, aliás, nunca passou de um grande show de horror teatral muito bem-sucedido comercialmente.
Ele mesmo admitia abertamente, com aquela ironia tipicamente geordie, que empurrava propositalmente a imagem do diabo até a caricatura máxima porque o resultado sonoro e visual soava simplesmente incrível.
Quando a censura moralista americana colocou o Venom na infame lista de bandas imorais por causa de faixas como “Possessed”, Cronos certamente abriu uma cerveja para comemorar.
Tratava-se de publicidade gratuita carimbada pela histeria puritana.
O que o Venom inventou (e o que não inventou)
Dizer que “o Venom inventou o black metal” é uma verdade pela metade.
O nome do gênero veio direto do álbum Black Metal, lançado em 1982.
Já o som, o visual e a atitude do chamado black metal norueguês dos anos 1990, com corpse paint, produção gelada, tremolo picking e blast beats, são outra história, de outra escola, com outro clima.
Quer entender essa diferença com calma? Leia a história do black metal e as bandas que definiram o gênero aqui no O Véi do Blogue.

O próprio Cronos já disse, em entrevista em 2018, que preferia ver o Venom como um catalisador e não como o inventor definitivo de tudo, explicando que a ideia central era devolver a agressividade perdida à música.
Isso é muito mais honesto do que qualquer manchete sensacionalista de portal.
E a influência real é inegável: a faixa-título de Welcome to Hell foi apontada como a base estrutural para bandas monstruosas como Mayhem, Emperor e Darkthrone.
O próprio nome do Mayhem, segundo a versão mais aceita pelos historiadores do metal, veio de uma música do Venom.
A saga completa está detalhada no texto sobre o Mayhem, a banda de black metal que virou tragédia norueguesa.
Cronos era satanista de verdade ou era puro show de horror?
Nas entrevistas concedidas ao longo das décadas, ele sempre tratou o satanismo do Venom como pura provocação artística, teatro e muito bom humor.
Em 2022, numa conversa franca com a revista Metal Hammer, ele descreveu o processo exato de escrever aquelas letras: pegar a imagem tradicional do diabo no trono queimando almas e empurrar tudo até o limite da caricatura, simplesmente porque o resultado soava incrível.
O Jornal do Comércio, de Porto Alegre, resume perfeitamente a obra como letras sombrias e blasfemas, “ainda que dotadas de uma certa ironia”.
Obviamente, isso teve repercussão pesada na época.
Nos Estados Unidos, músicas como “Possessed” renderam à banda um lugar de honra na infame lista Filthy Fifteen, a relação de canções que a campanha moralista da época considerava perigosamente impróprias para a juventude.
Publicidade gratuita da melhor qualidade, diria Cronos com um sorriso no rosto.
O Véi não vai aqui jurar de joelhos o que passava na cabeça dele em 1981.
O que ele disse publicamente sobre o assunto manteve-se sempre consistente: foi um grande show de horror, e funcionou perfeitamente.
A fita demo que mudou a história do metal extremo e de Belo Horizonte
O que sempre separou o Venom de uma banda barulhenta qualquer é que Conrad Lant entendia de dinâmica de mercado e distribuição melhor do que muita gravadora engataxada da época.
Lembra daquela fita demo Demon contendo apenas três músicas?
Ele mesmo a despachou diretamente para Geoff Barton, influente jornalista da revista britânica Sounds.
Barton gostou tanto do material bruto que abriu espaço editorial exclusivo para eles.
Depois disso, o baixista infernizou o dono da Neat Records, um selo local que na época mal lidava com discos de música folk, até o empresário aceitar lançar o seminal single “In League with Satan”.
Essa mesma teimosia britânica irredutível atravessou o Atlântico e deixou marcas profundas e indeléveis na história da música pesada no Brasil.
Em 5 de dezembro de 1986, a turnê histórica Brazilian Assault aterrissou em Belo Horizonte.
Quem abriu a noite memorável?
Um punhado de moleques mineiros viscerais que tinham acabado de parir o clássico Morbid Visions: o Sepultura.
Fundadores como Max e Igor Cavalera já confessaram publicamente que, depois de absorver a violência sonora do Venom, abandonaram de vez o som tradicional do Iron Maiden para abraçar o abismo do metal extremo.
Anos mais tarde, em 2024, quando o Venom passou pelo Mister Rock em Belo Horizonte, Cronos olhou fixamente para a grade, viu rostos de fãs novatos colados no palco e lembrou publicamente que a roda da música pesada continuava girando sem parar.
Linha do tempo: Cronos e o Venom de 1963 a 2026
Para quem prefere o mapa traçado antes da viagem, aqui está a trajetória em ordem cronológica exata:
- 1963: Conrad Lant nasce em Londres, em 15 de janeiro.
- Por volta de 1971: Muda-se para Newcastle, aos oito anos de idade.
- Fim dos anos 1970: Entra no Venom, que rapidamente se firma como um power trio clássico ao lado de Mantas e Abaddon.
- 1981: Lança o single “In League with Satan” em abril e o álbum Welcome to Hell em dezembro, ambos pela Neat Records.
- 1982: Black Metal é lançado e acaba batizando o próprio gênero musical.
- 1984 e 1985: At War with Satan e Possessed fecham a sequência clássica de ouro da banda.
- 1986: O lançamento do disco ao vivo Eine Kleine Nachtmusik e a histórica turnê Brazilian Assault, com parada obrigatória em Belo Horizonte no dia 5 de dezembro.
- Fim dos anos 1990: A formação clássica retorna aos palcos, depois de inúmeras idas, vindas e brigas de bastidor.
- 2009: Realiza um show antológico em São Caetano do Sul, com Danté já assumindo as baquetas no lugar de Abaddon.
- 2018: Lança Storm the Gates, o 15º álbum de estúdio.
- 2024: Enfrenta disputas judiciais envolvendo Abaddon e a gravadora Plastic Head, enquanto comanda a turnê latino-americana que passou por São Paulo e Belo Horizonte.
- 2026: Lança Into Oblivion em maio e tem o falecimento anunciado oficialmente em 1 de outubro.
Discografia essencial do Venom: 7 faixas para ouvir hoje
Os quatro primeiros álbuns — Welcome to Hell (1981), Black Metal (1982), At War with Satan (1984) e Possessed (1985) — são justamente os pilares que a própria banda destacou no comunicado oficial de despedida.
A trilha sonora mínima para prestar esta homenagem inclui:
- “In League with Satan”: O single de 1981 que escancarou as portas do inferno. Na versão do álbum, abre os trabalhos com uma voz demoníaca tocada propositalmente ao contrário.
- “Welcome to Hell”: A música-assinatura do grupo e a mais citada por toda e qualquer banda quando o assunto é influência direta na crueza.
- “Black Metal”: A faixa-título do disco de 1982 que cimentou o nome do gênero na história.
- “Countess Bathory”: Uma aula de peso que inspirou diretamente a criação da banda sueca Bathory, outra pedra fundamental do metal extremo mundial.
- “Teacher’s Pet”: A prova cabal de que o Venom mantinha aquele humor cínico tipicamente geordie mesmo no meio de tantas trevas teatrais.
- “At War with Satan”: A suíte épica de cerca de 20 minutos de duração que dá nome e densidade ao álbum de 1984.
- “Possessed”: A faixa que garantiu a dor de cabeça histórica com a censura moralista americana e coroa o álbum de 1985.
Como ouvir o Venom pela primeira vez (sem sofrer de susto)
Se você nunca teve estômago para encarar a banda antes, um roteiro curto de três paradas funciona muito melhor do que pular de cabeça direto no abismo do barulho.
Comece ouvindo “Black Metal”, porque ela é curta, direta ao ponto e resume com perfeição a proposta estética do grupo.
Depois, caminhe para “Welcome to Hell”, para entender de onde saiu toda aquela fumaça e fúria inicial.
Por fim, teste os ouvidos com “Countess Bathory”, que consegue mostrar o lado mais cadenciado e, ao mesmo tempo, incrivelmente bruto do trio.
Se a produção suja e crua incomodar no começo, respire fundo: ela é exatamente o ponto central da experiência.
Ninguém ali em Newcastle queria soar limpinho para agradar executivo de gravadora. Eles queriam soar perigosos, sujos e reais — e, em 1982, conseguiram isso melhor do que ninguém.
A fita demo que mudou a história do metal extremo e de Belo Horizonte
O que sempre separou o Venom de uma banda barulhenta qualquer é que Conrad Lant entendia de dinâmica de mercado e distribuição melhor do que muita gravadora engataxada da época.
Lembra daquela fita demo Demon contendo apenas três músicas?
Ele mesmo a despachou diretamente para Geoff Barton, influente jornalista da revista britânica Sounds.
Barton gostou tanto do material bruto que abriu espaço editorial exclusivo para eles.
Depois disso, o baixista infernizou o dono da Neat Records, um selo local que na época mal lidava com discos de música folk, até o empresário aceitar lançar o seminal single “In League with Satan”.
Essa mesma teimosia britânica irredutível atravessou o Atlântico e deixou marcas profundas e indeléveis na história da música pesada no Brasil.
Em 5 de dezembro de 1986, a turnê histórica Brazilian Assault aterrissou em Belo Horizonte.
Quem abriu a noite memorável?
Um punhado de moleques mineiros viscerais que tinham acabado de parir o clássico Morbid Visions: o Sepultura.
Fundadores como Max e Igor Cavalera já confessaram publicamente que, depois de absorver a violência sonora do Venom, abandonaram de vez o som tradicional do Iron Maiden para abraçar o abismo do metal extremo.
Anos mais tarde, em 2024, quando o Venom passou pelo Mister Rock em Belo Horizonte, Cronos olhou fixamente para a grade, viu rostos de fãs novatos colados no palco e lembrou publicamente que a roda da música pesada continuava girando sem parar.
A lenda do black metal não precisa de crachá corporativo
Nos bastidores turbulentos dos últimos anos, o nome Venom acabou virando um campo minado de disputas judiciais, atritos crônicos com ex-integrantes como o guitarrista Mantas e batalhas complexas sobre direitos autorais e fonográficos.
Mas a verdade nua e crua é que, quando a poeira baixa e o barulho cessa, o que realmente sobra é a música em sua essência.
Sobra aquela estética inconfundível dos logotipos ilegíveis cheios de espinhos, ramificações e cruzes invertidas que infestam o underground até os dias de hoje, sendo todos eles filhos legítimos e parentes distantes daquele rabisco original feito à mão por Cronos em um pedaço de papel em Newcastle.
Vou confessar sem rodeios: a primeira vez que ouvi um disco do Venom, confesso que achei que o deck de fita cassete estava com algum defeito mecânico e mastigando o áudio.
Demorei um tempo precioso para entender que o suposto erro técnico era exatamente a proposta estética do grupo.
Quando a ficha finalmente caiu na minha cabeça, percebi com clareza cirúrgica que o barulho bruto podia ser arte conceitual, que a crueza e o tosco podiam virar uma escola estética definitiva, e que um cara armado com um baixo distorcido e uma cara de pau do tamanho do mundo inteiro podia simplesmente reescrever os rumos da história da música pesada.
O filho de Conrad, Nathan, avisou oficialmente às Legions de fãs espalhadas pelo planeta que a lenda criada por seu pai jamais vai morrer.
E quer saber?
Ele tem toda a razão.
Descanse em paz, Conrad Thomas Lant.
O barulho ensurdecedor que você ajudou a criar continua ecoando forte em cada amplificador estourado por aí.
☠️ Fontes e Leituras Complementares
Pra quem quer descer mais fundo em Newcastle, sem passar pela Wikipedia. Comunicados, entrevistas e coberturas de veículos especializados, no Brasil e fora dele.
Loudwire: a notícia da morte de Cronos e o comunicado completo da banda Blabbermouth: Conrad “Cronos” Lant, do Venom, morre aos 63 anos Jornal do Comércio: a cobertura em português da morte do líder do Venom Louder: a grande entrevista de Cronos sobre o nome, o satanismo e a carreira Wikimetal: a história das passagens do Venom pelo Brasil, de 1986 a 2024 Wikimetal: a resenha do show do Venom em Belo Horizonte, em 2024 Rolling Stone Brasil: o anúncio do show do Venom em São Caetano do Sul, em 2009🔥 Continue na Toca do Metal Extremo
Se a saga de Cronos te deixou com sede de barulho, o Véi tem outras crônicas macabras esperando por você.
Origem do gênero: A História do Black Metal e as bandas que definiram o gênero Panorama: A História do Metal Extremo, das fitas cassete às arenas lotadas Filhos do Venom: Mayhem, a banda de black metal que virou tragédia norueguesa Raiz suíça: Celtic Frost, 40 anos de To Mega Therion Velocidade: A História do Thrash Metal, do speed metal ao Big Four Avant-garde: Into The Pandemonium, o clássico do Celtic Frost que me atropelou em 2026 Todas as crônicas: a categoria completa de Metal Extremo no Véi do Blogue🤘 Agora é com você, Legion
Qual foi a primeira vez que você ouviu Venom e achou que o aparelho de som tinha quebrado? Qual disco, qual fita, qual vizinho que bateu na parede?
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