Aqui estamos na Copa do Mundo 2026. Toda vez que chega Copa do Mundo eu sou obrigado a repetir essa frase pra alguém, sempre com aquele tom de quem está confessando que mora debaixo de uma ponte. “Eu não gosto de futebol.” E pronto, a pessoa já me olha como se eu tivesse acabado de dizer que não gosto de respirar. No Brasil, dizer que não liga pra bola é mais grave do que dizer que não gosta de Natal, de feijoada ou da própria mãe. É quase um atestado de insanidade.
Só que eu cresci focado em outras coisas: música, história, vendo filmes, lendo. Em algum momento percebi o óbvio: dá para viver no Brasil perfeitamente bem sem precisar fingir êxtase só porque vinte e dois caras estão correndo atrás de uma bola numa quarta-feira à noite. Não é ressentimento, não é pose. É simplesmente não me importar. Isso, por aqui, é quase um crime hediondo.
Chico Buarque, Jorge Ben Jor e o problema de amar futebol
Antes que alguém venha me dizer que sou careta: eu sei que tem gente que eu admiro de verdade que é fanática por bola. Chico Buarque jogou futebol amador a vida inteira. Jorge Ben Jor escreveu “Fio Maravilha” pra homenagear um jogador, botou o esporte no meio da sua música como quem bota uma lembrança de infância, algo vivido com leveza. Não estou julgando isso. Jogar bola é gostoso, eu sei. Dar um chute certo, correr atrás, sentir aquilo, tudo bem, entendo perfeitamente.
O que não entendo, e nunca vou entender, é a construção ideológica em cima disso. A ideia de que o futebol é um dos poucos orgulhos do brasileiro, de que “somos conhecidos no mundo por isso”, dito com a postura de quem descobriu uma medalha de honra. Ser reconhecido no mundo por bater bola não é conquista de civilização. É uma propaganda que o próprio brasileiro abraçou com tanta gana que esqueceu de questionar o que ela cobre.
Enquanto o país inteiro para pra ver um jogo, as mesmas coisas que deveriam envergonhar a todos continuam no lugar. E o futebol segue ali, fazendo o trabalho que sempre fez bem: distrair. Não é conspiração, não é teoria, é função social declarada desde os romanos. Só que lá eram gladiadores morrendo no Coliseu e o pão era literal. Aqui é transmissão em 4K e o pão virou tema de campanha eleitoral.
O problema nunca foi a bola. O problema é o altar.
Os fuscas do Maluf e a política que sempre andou junto com a bola
Tem uma cena que resume bem o que o futebol virou quando a política mete a mão. Em 1970, depois do tricampeonato no México, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, decidiu presentear os 22 jogadores e a comissão técnica com 25 Fuscas verde-musgo, zero quilômetro. Os carros foram comprados com dinheiro público da prefeitura de São Paulo e se tornaram um processo judicial que durou 36 anos.
E o detalhe mais careta de tudo: cada Fusca saiu da concessionária com uma dúzia de rosas vermelhas no porta-malas e um adesivo no para-brisa traseiro com a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Ou seja, o presente não era só presente. Era propaganda política embrulhada em conquista esportiva, exatamente o tipo de coisa que sempre me incomodou nessa história toda: o futebol sendo usado como cortina de fumaça pra esconder o resto.
Essa mistura entre seleção e marketing político não é exceção, é regra. Cada vez que o Brasil ganha alguma coisa, tem um político querendo se pendurar na vitória, tem patrocinador querendo vender mais cerveja, tem alguém usando a empolgação coletiva pra empurrar outra coisa pra debaixo do tapete.
Veja o resultado dessa lambança (artigo da BBC)
Gladiadores, ídolos e o sonho que nunca vai acontecer
Tem uma mecânica psicológica aí que me fascina de um jeito torto. A criança brasileira que cresce idolatrando jogador de futebol está fazendo a mesma coisa que o plebeu romano fazia com o gladiador: projetando grandeza num corpo que faz o que o seu nunca vai fazer, numa arena que você nunca vai pisar, vibrando com uma vitória que não é sua mas que por alguns minutos parece ser.
O gladiador vencia, o público explodia, e no dia seguinte o plebeu voltava pra miséria de sempre. Roma continuava igual. O Coliseu ficava cheio de novo na semana seguinte.
Substitua o Coliseu pelo Maracanã e a mecânica é a mesma. Noventa e nove por cento das crianças que sonham em ser Neymar vão ser outra coisa, e quando perceberem isso, vão transferir a idolatria pro próximo que aparecer. É uma correia de transmissão de expectativa que o mercado do futebol alimenta muito conscientemente, porque expectativa que se renova a cada quatro anos é um modelo de negócio perfeito.
O mesmo se dizia do sonho do rock star. Querer ser David Lee Roth, querer ser Robert Plant, aquela projeção de grandeza, de excesso, de vida fora do comum. Só que havia uma diferença: quem ia atrás do rock geralmente aprendia um instrumento, montava uma banda, criava alguma coisa, mesmo que nunca enchesse um estádio. A tentativa deixava rastro no mundo. O futebol de idolatria não deixa nada no torcedor além de camisa desbotada e conta de bar.
O amarelamento do Ronaldo e o cabelo que ninguém esquece

Lembra de 1998? A final contra a França, o Ronaldo passando mal horas antes do jogo, indo pra campo mesmo assim, jogando irreconhecível, e o Brasil perdendo de um jeito que até hoje gera teoria. Não importa qual versão você acredita: o episódio mostrou na cara de todo mundo que aquilo ali não era só esporte. Era contrato, era patrocinador, era pressão de um tamanho que ninguém de fora consegue nem imaginar. E o “amarelão” do Ronaldo virou piada, virou meme antes de meme existir, virou aquele tipo de assunto que volta toda Copa, reciclado, como se fosse novidade.
E não dá pra falar do Ronaldo sem falar do cabelo dele em 2002. Aquele corte estranho, aquela “perereca” na testa, virou assunto nacional por semanas. O cara ia ser decisivo numa Copa e o Brasil inteiro discutindo o penteado dele. É exatamente esse tipo de coisa que me faz pensar: como é que um país consegue se mobilizar tanto em torno de detalhes tão pequenos, repetidos ano após ano, Copa após Copa, sempre com a mesma intensidade histérica?
Os “craques” que enchem processo em vez de currículo
Aqui chega a parte que pesa mais. Porque existe um tipo de ídolo que o futebol brasileiro produziu nos últimos anos que não cabe em nenhuma nostalgia bonita.
Quando eu era criança, a idolatria costumava vir depois do feito. O sujeito primeiro fazia alguma coisa extraordinária. Ganhava campeonato. Decidia jogo importante. Construía uma história. Só então virava referência. Hoje tenho a impressão de que o processo se inverteu. Muitos jogadores recebem tratamento de lenda antes de terem construído uma trajetória à altura da adoração que recebem.
Viram celebridades nacionais ainda jovens. São cercados por patrocinadores, assessores, empresários, programas de televisão, contratos milionários e milhões de pessoas dispostas a justificar qualquer comportamento desde que continuem jogando bem. O futebol brasileiro criou uma máquina capaz de transformar atletas em marcas globais muito antes de transformá-los em exemplos de qualquer coisa.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas que mais me afastam desse universo.
Não estou dizendo que o futebol cria criminosos. Seria uma simplificação ridícula. O que me incomoda é a cultura de blindagem que frequentemente aparece ao redor de certos jogadores. A sensação de que fama, talento e dinheiro acabam funcionando como uma espécie de certificado informal de superioridade. Como se algumas pessoas passassem tanto tempo ouvindo que são especiais que começassem a acreditar que as regras foram escritas para os outros.
Robinho foi condenado pela Justiça italiana por estupro coletivo, numa boate em Milão, contra uma jovem albanesa de 23 anos, e a condenação foi confirmada em última instância. O jogador foi sentenciado a nove anos de prisão por violência sexual em grupo.
Daniel Alves, que estava na Copa do Catar representando o Brasil, foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão em Barcelona por estupro. A vítima reafirmou em juízo que foi agredida sexualmente com violência dentro do banheiro da boate Sutton.
E o que me chama atenção nem é apenas a gravidade dos casos. É a reação que costuma aparecer em seguida. A quantidade de gente disposta a relativizar, minimizar ou mudar de assunto porque o acusado fez gols, levantou taças ou vestiu a camisa da seleção. Como se o talento esportivo pudesse servir de desconto moral. Como se driblar zagueiros fosse uma espécie de crédito acumulado para gastar quando a realidade bate na porta.
Tanto silêncio que a própria Leila Pereira precisou se manifestar publicamente, classificando os casos como um tapa na cara de todas as mulheres.
Talvez seja por isso que eu tenha cada vez mais dificuldade em embarcar nessa narrativa de redenção nacional que reaparece a cada Copa do Mundo. Porque ela depende de uma crença que nunca consegui compartilhar: a de que vestir a camisa amarela transforma alguém em algo maior do que realmente é.
Não transforma.
Continuam sendo homens. Com virtudes, defeitos, vaidades, covardias e responsabilidades como qualquer outro.
Só que, no futebol brasileiro, muitas vezes eles recebem um nível de adoração que faria sentido para estadistas, cientistas ou artistas que mudaram a história do país. E recebem isso por correr atrás de uma bola – muitas vezes com pernas de pau.
Então me desculpa, mas não consigo separar completamente o craque do processo quando o processo passa a fazer parte da biografia do craque. Não é fofoca. Não é perseguição. Não é rivalidade de torcida. É a realidade atravessando a fantasia.
E talvez seja justamente isso que mais me incomoda no futebol moderno: não os jogadores que acreditam ser maiores do que são, mas a quantidade de gente disposta a acreditar nisso junto com eles.
A vida de farra, os escândalos e o circo que vira manchete
E claro, tem todo o resto: as farras intermináveis em concentração, os flagrantes em festas, os boatos de noites em motéis que viram capa de revista, os episódios que a CBF sempre tenta empurrar pra debaixo do tapete enquanto o marketing segue vendendo a imagem de “família brasileira” em campo. É o mesmo roteiro de sempre: escândalo, nota oficial genérica, “vamos focar no que importa, que é o futebol”, e a torcida engolindo tudo porque amanhã tem jogo.
A voz do Galvão Bueno e o cansaço do que se repete
Tem também uma fadiga menor, mas constante: a sensação de já ter visto tudo aquilo antes. A narração emocionada, os clichês, “Haja coração!” , “Sai que é sua, Taffarel!” o mesmo tom desde a minha infância, atravessando décadas, atravessando gerações, sem nunca mudar de roteiro. É o tipo de coisa que vira parte do ruído de fundo da Copa, junto com o hino cantado com lágrima forçada e o comercial de cerveja repetido oito vezes por intervalo. Contudo, incrivelmente parece que ele está de volta narrando os jogos lá no SBT.
Os craques de antes, e o que mudou
Zico, Sócrates, Falcão, Careca

E aí entra a comparação que não sai da minha cabeça. Os jogadores que eu vi crescendo, entre o fim dos anos 70 e o início dos 90, Zico, Sócrates, Falcão, Careca, tinham um tipo de carisma que não dependia de patrocínio, não dependia de conta verificada, não dependia de escândalo pra virar manchete. Eram craques que a gente discutia pelo que faziam dentro de campo e, às vezes, pelo que diziam fora dele, e quando diziam algo, geralmente tinha substância.
Garrincha, Pelé e Zagalo
Mas vai mais longe ainda. Garrincha era um fenômeno de outro planeta. Perna torta, velocidade absurda, drible que humilhava zagueiro sem cerimônia, e uma relação com o campo que parecia mais brincadeira do que obrigação profissional. Não tinha assessoria de imprensa, não tinha postagem patrocinada, não tinha personal branding. Tinha talento puro funcionando como se o corpo fosse feito especificamente pra aquilo.
Pelé você pode gostar ou não, pode questionar a vida fora de campo, pode ter suas ressalvas, mas dentro do campo era uma anomalia. Não existe jeito honesto de negar o que ele fazia com bola nos pés, a velocidade de raciocínio, a precisão, o faro de gol. Era um atleta de outro nível em qualquer época.
Zagalo ganhou Copa como jogador em 58 e 62, voltou como técnico e ganhou de novo em 70. Ninguém mais fez isso. Independente do que você pense do personagem, o feito é único.
O ponto é: esses caras eram fodas de verdade. Fodas jogando, cada um do seu jeito, com suas contradições pessoais, mas dentro de campo entregavam algo real, algo que você via e reconhecia como superior sem precisar de narrativa em volta pra convencer ninguém.
Hoje na Copa do Mundo 2026 o que sobra de muitos “craques” é exposição
Ostentação, festa, treta, processo. O talento até existe, mas o personagem em volta dele é tão maior e tão mais barulhento que o futebol em si vira detalhe. Você passa mais tempo lendo sobre a vida pessoal do jogador do que vendo ele jogar, e quando vê jogar, tem a impressão de que o jogo é o intervalo comercial da marca que ele virou.
E talvez seja por isso que aquela época ainda parece mais genuína: não porque o futebol fosse melhor, mas porque os caras que jogavam entregavam o jogo de verdade, sem precisar de tanta coisa em volta pra justificar a fama.
No fim das contas
Não é que eu odeie o jogo. É que eu não consigo separar o jogo do circo, e o circo, pra mim, há muito tempo deixou de ser inocente. Enquanto isso, o Brasil para, a bandeira sobe na janela, o grupo de família acorda do silêncio de meses, e eu sigo aqui, ouvindo outra coisa, vivendo minha vida normal, esperando passar.
Talvez eu não odeie o futebol.
Talvez eu odeie o que o Brasil fez com ele.
Sempre passa.
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Sua opinião
Você também não aguenta o circo da Copa?
Comentário é livre. O hater, aparentemente, sou eu — então o campo está aberto pra quem quiser defender a honra da verde-amarela, xingar o árbitro ou só concordar em silêncio.
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Acho que toda opinião tem o direito de estar errada — inclusive a minha. Já fui rotulado de tudo: cult, cringe, hipster, rockeiro e até reacionário. Aceito todos. O início, o fim e o meio. Aqui, a cultura alternativa é livre e a régua moral ficou na gaveta. O Véi do Blogue existe porque o mundo já tem conteúdo demais e contradição de menos.